Entre as referências evocadas pela Lenu estava uma equipa que marcou a história do basquetebol feminino angolano: as Kwenhas do Namibe.
Reza a nossa história desportiva que nos anos 80, esta equipa protagonizou confrontos memoráveis com algumas das melhores formações de Luanda, disputando jogos intensos, muitas vezes descritos como verdadeiros duelos "taco a taco".
Segundo o treinador de futebol que afinal começou no basquetebol nestas lides do treinamento, o benguelense Agostinho Tramagal, sob a liderança do saudoso Isiquias Gamba, as Kwenhas tornaram-se uma força regional respeitada. Na equipa brilhava um trio que muitos ainda recordam com admiração: a Neide, a Russa e a Luda, atletas que se tornaram referências não apenas no clube, mas também na Seleção Nacional.
Ao mesmo tempo, noutra região do país, emergia outra referência do basquetebol feminino: a equipa do Mambroa do Huambo. Sob a orientação de Antoninho Balaca, esta formação destacou-se como uma verdadeira escola de formação no escalão de cadetes. Era uma equipa conhecida pela qualidade técnica das suas jogadoras, fruto de um trabalho rigoroso de base.
Apesar de muitas vezes enfrentarem limitações físicas quando transitavam para o escalão sénior, nomeadamente em termos de estatura, as atletas formadas no Mambroa eram reconhecidas pela inteligência tática, disciplina e domínio técnico do jogo.
Esse período ficou também marcado por uma geração brilhante da Selecção Nacional, orientada pelo treinador António Henriques "Tonecas", que soube integrar com inteligência talentos provenientes de diferentes regiões do país. Essa visão inclusiva permitiu que o basquetebol angolano se alimentasse de uma diversidade regional que reforçou a sua competitividade e identidade nacional.
Recordar essas equipas e essas figuras não é apenas um exercício de nostalgia. É, acima de tudo, um acto de justiça histórica.
O basquetebol feminino angolano foi, desde muito cedo, um espaço onde as mulheres afirmaram talento, disciplina e liderança. Em muitos casos, foram elas que mantiveram viva a chama do desporto em contextos difíceis, com poucos recursos e quase nenhuma visibilidade mediática.
Ao mesmo tempo, estas histórias recordam-nos um outro aspecto essencial: o papel das províncias no desenvolvimento do desporto nacional.
Durante muito tempo, equipas de cidades como Namibe, Huambo, Benguela ou Lubango constituíram verdadeiros polos de formação e competitividade. Essa dinâmica ajudava a reduzir as assimetrias entre a capital e o resto do país, criando um ecossistema desportivo mais equilibrado e inclusivo.
Infelizmente, com o passar dos anos, parte dessa vitalidade regional foi-se perdendo. O desporto, tal como a própria sociedade angolana, passou a reflectir com maior intensidade algumas das desigualdades territoriais que hoje conhecemos.
Por isso, revisitar estas memórias deve servir também como inspiração para o futuro.
Se Angola pretende continuar a afirmar-se como uma potência do basquetebol africano, será essencial revalorizar o papel das províncias, reforçar os programas de formação e investir seriamente no desporto feminino.
As mulheres que fizeram a história do nosso basquetebol merecem mais do que reconhecimento simbólico. Merecem políticas, estruturas e oportunidades que garantam que novas gerações possam seguir o caminho que elas abriram.
A história mostra-nos que foi com gente humilde, trabalhadora, patriota e profundamente apaixonada pelo desporto que esta nação se construiu.n
Preservar essa memória não é apenas um dever. É também uma forma de manter viva a chama da esperança.
*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga

