A primeira lição veio do comércio informal de cartões. A famosa "segunda mulher" deixou de ser metáfora para casamentos desavindos e passou a ser solução tecnológica certificada pela aflição nacional. Quem tinha números de duas operadoras era rei. Quem tinha três, imperador. As filas nos pontos de venda da concorrência pareciam procissões, mas com menos cânticos e mais suor. Não se compravam cartões, comprava-se oxigénio digital em embalagem SIM. A poligamia virtual tornou-se política pública espontânea. Afinal, quando a operadora principal falha, o número alternativo não é infidelidade. É plano de contingência conjugal. É sobrevivência.

Depois veio a descoberta do tempo, esse animal esquecido que vivia preso dentro do telemóvel. As horas deixaram de se medir em minutos e passaram a medir-se em cafés bebidos sem consultar o ecrã, em olhares desconfiados para o céu e em tentativas de chamada que morriam antes de nascer. Rapidamente percebeu-se que não se tratava apenas de uma limitação de chamadas ou de pacotes de dados. Os pagamentos bancários estavam reféns da falta de sinal. Quem tinha numerário caminhava com a serenidade de um latifundiário. Quem tinha apenas cartão descobriu uma nova categoria financeira: saldo metafísico. No banco existia, na loja não aparecia. Era dinheiro em espírito, em mente.

Por fim, apareceu a inevitável teoria dos hackers. Porque num apagão moderno não pode faltar o especialista de sofá, esse profissional completo que sabe de geopolítica, antivírus, criptomoedas, satélites e, se for preciso, de avarias em micro-ondas. Todos tinham uma opinião, umas abalizadas, outras emocionadas, outras simplesmente reenviadas nas redes sociais. Não vieram apenas roubar dados, diziam. Vieram baralhar a venda das acções, sequestrar o sossego e mostrar que a nossa dependência das comunicações já não é dependência: é casamento religioso sem separação de bens. E conseguiram.

A verdade é que o ataque cibernético pode não ter começado no sistema. Pode ter começado muito antes, naquele sítio discreto onde guardamos as negligências com a etiqueta "fica para depois". Nos sinais ignorados, nas actualizações adiadas, nas palavras-chave escritas em papéis colados ao monitor, na segurança tratada como despesa supérflua, quase como guardanapo em restaurante fino. O colapso não é súbito. É paciente. Vai sendo construído com a delicadeza de quem empilha pratos rachados e depois se surpreende quando a loiça cai. Como as relações que se gastam sem reunião de balanço. Como os corpos que pedem descanso e recebem mais café. Como as mentes que enviam avisos e recebem silêncio administrativo.

O apagão revelou o que já estava em sofrimento. Não apenas na infra-estrutura, mas na relação do país com a tecnologia. A dependência é total, mas o cuidado é pouco e o risco, esse, está sempre à espreita, sentado no canto como parente que veio passar "só uns dias" e nunca mais foi embora.

Amanhã a rede volta. Os cartões voltam ao bolso. Todos voltam a ter sinal. Mas fica a lição, essa sim, sem data para expirar: o maior ataque não vem sempre de fora. Vem de dentro. Daquilo que se ignorou até ser tarde. Se não tens rede, tens história. E história, em Angola, nunca falta. Falta é sinal para a contar.