Afonso Quintas chegou também a ser director da Rádio Luanda e há alguns anos havia passado para a reforma. A RNA decidiu manter com ele um contrato de prestação de serviços, no qual partilhava o programa "Caldo do Poeira" com o jornalista Isaías Afonso e tinha a emissão do seu programa "Viagens ao Passado", emitido todos os sábados. Na passada quinta-feira, 30 de Outubro, ele recebeu uma carta que anunciava a rescisão do contrato de prestação de serviço. No sábado, fez anúncio da sua saída durante uma homenagem feita na Funjada dos Indígenas do Salas Neto na sua casa no Rangel. Mas segundo informações na carta do primo João, o que Afonso Quintas não sabia é que há alguns meses lhe estavam a fazer a cama e alguns dos seus colegas na RNA não tiveram a coragem de falar com ele, não tiveram a coragem de "assumir o barulho ".

Numa tarde de sábado, uma certa entidade que foi descrita na carta como o "Mr. Quero, Posso e Mando", terá visto nos seus aposentos Afonso Quintas a apresentar uma das edições do Caldo do Poeira da RNA e fez um telefonema aos responsáveis da casa nestes termos : " Esse gajo ainda está a apresentar isso ? Tirem-me esse gajo daí imediatamente!", foi mesmo neste termos que o nosso Afonso Quintas foi tratado e hostilizado.

A sua "sentença " foi assinada num sábado qualquer e quem sabe durante uma boa funjada acompanha de um "tintol". Desde este dia começou a estratégia do seu afastamento. A decisão já havia sido tomada pelo "Mr. Quero, Posso e Mando", o problema estava em como lhe iria ser comunicada a decisão.

No Caldo do Poeira por altura da festa da Nossa do Monte no Lubango, Huíla, Afonso Quintas já não foi. Foi comunicado que não faria a dupla com Isaías Afonso e que a malta do Lubango havia sugerido uma voz local , uma boa opção para evitar a "luandização" do Caldo do Poeira em terras alheias. Mas isso foi uma solução temporária, uma decisão apenas com efeitos paliativos. Tratava-se de Afonso Quintas, uma verdadeira figura da rádio em Angola.

Quem iria ser o mensageiro da desgraça? António Sebastião Lino, o PCA da RNA, tinha de cumprir ordens mas não iria "se queimar" no cumprimento de uma orientação. A bola foi passada para Telmo Silveira, um administrador executivo para a Área de Marketing e Intercada RNA, mas sendo Afonso Quintas um quadro do seu pelouro direito, também aqui bem se conseguiu safar. Sobrava Estanislau Garcia, o administrador executivo para a área de conteúdos de Informação e Programa ser o advogado do Diabo. Certo é que com o argumento da nossa grelha de programas e outras manobras, Afonso Quintas recebeu no dia 30 de Outubro a carta de rescisão do contrato de prestação de serviços.

O "Mr. Quero, Posso e Mando " não quer Afonso Quintas na RNA com o argumento de que este lhe terá "queimado" junto do inquilino do Palácio da Colina de São José. Um argumento falso, fraco e até mesmo falacioso. Afonso Quintas hoje não é apenas um activo da RNA, é um "património " da comunicação em Angola, uma inspiração para milhares de jovens da comunicação social, uma referência nacional, um membro de uma distinta e nobre geração de profissionais daquilo que chamo uma "lufada de vozes vivas" da rádio que deu ao país nomes como Adão Filipe, Paulo Miranda Júnior, Mateus Cristóvão, Evaristo José, José Pedro Bengue, Salú Gonçalves, entre outros.

Homens que fizeram da Rádio Luanda, uma rádio de referência e líder de audiências. Todos eles praticamente afastados de uma casa de rádio que viram nascer, ajudaram a crescer e lutaram para a manter. Como é que Angola se dá ao luxo de abdicar de profissionais deste calibre? Não tinham eles serventia na RNA? Uma instituição que ten como slogan " Unimos o País " não consegue unir estas figuras num projecto de formação ou de pedagogia? Andaram anos na RNA, deram tanto ao país e são literalmente "descartados" assim?

Afonso Quintas tinha um contrato de prestação de serviço com a RNA em que recebia algo como quinhentos mil kwanzas mas era um indivíduo que dava muito a ganhar a casa, uma verdadeira caução de público. Não pode ele sair da RNA com a entrega de uma carta, sem honra e nem glória. Há pessoas que merecem o sucesso que têm e Afonso Quintas é uma delas e isso é extensivo aos seus companheiros que com ele fizeram a Rádio Luanda e que aqui citei. Há alguma necessidade de o humilhar e afastar assim? Há mesmo alguma necessidade objectiva de Afonso Quintas deixar a Rádio Nacional de Angola? Afonso Quintas faz falta na RNA e na comunicação social angolana. Não o queremos numa rádio qualquer aí, ele tem e deve estar onde sempre este: na RNA. É preciso que o "Mr. Quero, Posso e Mando " , perceba que existe quem mande mais do que ele, e estes têm voz e nome: o povo angolano!