É que o Presidente dos EUA, Repúblicano, tradicionalmente amigo do capital, deixou de ser o combustível que ao longo dos últimos dois anos alimentou a máquina bolsista norte-americana, porque, a sua derrota levou o petróleo a dar um tropeção de quase 16%.

Ao mesmo que as bolsas ganham valor como há muito não se via, neste "relógio" acelerado da economia mundial, o barril de crude caiu como também há muito não se via, com perdas, só entre terça-feira e hoje, quinta-feira, 05, de 12 USD.

Dos 106 USD para os 94,6 USD que valia perto das 09:20 desta quinta-feira, foi um piscar de olhos, mas o que mais foca a atenção dos analistas é que a tendência actual é para uma continuada baixa cujo limite, para já, não é palpável, a não ser que os conflitos no leste europeu e no Médio Oriente voltem a ditar as regras.

Para esse baralhar e dar de novo que deixaria, mais uma vez, os mercados sujeitos aos humores das guerras e de quem as gere, só, como, na verdade, vários analistas contribuem, um recrudescer na guerra entre os EUA, e os seus aliados israelitas, com o Irão, poderia gerar.

Mas, para já, com o impasse resultante das eleições legislativas em Israel, onde o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu poderá, efectivamente, ao fim de 19 anos no poder, com intermitências, ser afastado do cargo, a pressão belicista sobre o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz tende a reduzir e, com isso, a aliviar a pressão dentro do "barril" de pólvora que é todo o Médio Oriente.

Além disso, a perda das maiorias do Partido Republicano de Donald Trump no Congresso, nas suas duas câmaras, a dos Representantes e o Senado, retira ao Presidente, mas não as elimina totalmente, margens para desencadear novas vagas de ataques sobre o Irão, porque o elevado preço do crude e dos combustíveis foi um dos vectores da derrota.

É neste contexto de perda de "gás" no sector petrolífero que em apenas duas sessões, a de quarta-feira, e já a desta quinta-feira, 05, o Brent perdeu quase 10%, sendo semelhante o deslize no WTI de Nova Iorque, levando o preço actual para a faixa onde estava há dois meses.

E que não haja dúvidas de que foi a derrota de Trump que lubrificou o mecanismo por onde os mercados estão a deslizar, porque, como os media especializados sublinham unanimemente hoje, esta "correcção" no valor do barril resulta das crescentes expectativas de que a Casa Branca se veja obrigada a acabar com o conflito no Golfo Pérsico.

Alias, a primeira indicação desse sentimento foi dada pelo próprio Trump quando, logo após ser perceptível o desastre eleitoral dos republicanos, admitiu que o conflito com o Irão contribuiu para este desfecho, devido ao seu impacto no preço dos combustíveis e na inflação.

E esta queda não é ainda mais abrupta porque, sendo verdade que os democratas passam agora a poder limitar os gastos com conflitos externos, esse poder só lhes será entregue em Janeiro, quando os novos senadores e representantes ocuparem os lugares agora conquistados aos republicanos.

O que quer dizer que estes dois meses podem ser aproveitados por Donald Trump para os seus conhecidos ajustes de contas. A mudança de foco político na Casa Brabca pode, contudo, mexer com as lógicas a que os analistas estavam habituados.

Por cá, nas contas a fazer pela economia angolana...

Angola soma ganhos...

O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 95 USD, no caso do Brent, cerca de 34 USD acima desse valor.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.