A operação, em curso, iniciada três dias após o governador ter anunciado a reinserção social de todas as famílias, começa a gerar revolta, com questionamentos em relação ao destino dos afectados, que carregam no pulso uma fita a indicar a sua condição.
Um dispositivo policial perfilava-se para o início da retirada, em ambiente de alguma tensão, quando os cidadãos em causa denunciavam o "abandono de angolanos" que perderam os seus haveres em consequência das enxurradas.
"Estão a entregar a cada família dois quilos de arroz, dois quilos de fuba, feijão e óleo. Sem fogão, o que vamos fazer?", questiona o senhor Mande, chefe de uma família com seis membros.
Há quase dois meses na área de acolhimento, ressalta que o Presidente da República e o Governo devem olhar para as pessoas como angolanos, chegando a afirmar que "estamos num buraco sem saída".
Quanto à presença da Polícia, Mande e outros cidadãos forçados a abandonar o campismo indicaram que não havia necessidade, já que não existiam delinquentes no local. "Só os ladrões é que devem ser levados à força, aqui ninguém fez mal, apenas dependemos do Governo", reforçou a senhora Amélia Japa.
Encerrado o campismo velho, várias famílias foram transferidas para o novo, de onde, agora, começaram a sair, sem que consigam apresentar uma versão unânime sobre a informação prestada pelo Governo.
Uns dizem que as autoridades tencionam encerrar também o novo campismo, outros sugerem problemas logísticos. "Uma caixa de frango está para trezentas pessoas, não está a chegar para nada. Depois ... temos ainda o feijão estragado, estamos mesmo num buraco, mas vamos ter que ficar na rua", criticou Japa.
Ao Novo Jornal, o delegado provincial dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, Yuri Chagas, membro da equipa de coordenação do campismo, explica que as autoridades não podem apoiar com material de construção (cimento, blocos, pregos, varões e chapas) o inquilino e o senhorio de uma mesma casa.
"Por isso é que a estas famílias estamos a dar o kit de alimentação, esperando que voltem a pagar uma renda em outro local. Vamos acompanhar tudo, mas é esta a estratégia, até para evitar oportunismos", assinalou, antes de ter sublinhado que o Governo tem sido abordado pelos proprietários das casas.
A 1 de Junho, Manuel Nunes Júnior esteve no campismo, por ocasião do Dia Mundial da Criança, e falou em reinserção social dos sinistrados com o apanhamento do GPB, tendo particularizado os direitos petizes.
Em reacção, na sequência de visitas ao local, a activista Sara Paulo, membro da organização Habitação Já, criada monitorizar as políticas a favor dos sinistrados, disse ser deplorável o quadro social vigente no campismo, quase dois meses após as cheias. "Uma tenda pequena e sem condições está para quatro ou mais pessoas, as famílias estão expostas ao sol e humildade do mar e a alimentação é débil", analisou a activista.
Não se conhece ainda o número exacto, mas são várias as famílias que pagavam rendas em casas destruídas. Dos locais de acolhimento, segundo o Governo Provincial, saíram já cerca de quatro mil famílias, menos do metade do número de famílias sinistrados.
