Ao anunciar publicamente que o ainda senador brasileiro tem um visto de entrada à sua espera - fica por saber em que passaporte será colocado, porque os seus foram anulados -, o Presidente dos Estados Unidos admitiu que colocou toda a máquina burocrática norte-americana ao serviço de um foragido que tem a justiça no seu encalce no Brasil, incluindo a CIA, a agência que sem excepção dirige este tipo de operações.
No entanto, esta fuga, mesmo depois de a justiça brasileira lhe ter feito chegar um pedido urgente para entregar os passaportes, o normal e o diplomático, acabou com Flávio Bolsonaro a dar um "presente" a Lula da Silva com anos de retroactivos acumulados.
Permitiu ao agora Presidente-eleito para o seu inédito 4º mandato, aos 81 anos, trazer à memória o episódio em que, decorria o ano de 2018, no contexto da famosa Operação Lava Jato, soube que ir ser detido e optou por vir a público dizer que não sairia do Brasil para enfrentar o "sistema" e provar a sua inocência, o que fez literalmente.
"Se eu não acreditasse na justiça do meu país, não teria criado um partido político, teria organizado uma revolução", disse Lula da Siva em Abril daquele ano, pouco tempo antes de ser preso, sob acusações num processo que depois se veio a perceber que todo ela fora fabricado artificialmente.
Com isto, Lula da Silva obriga à comparação com o comportamento agora tido por Flávio Bolsonaro, que fugiu do país com o apoio de pelo menos dois países, a Argentina e os EUA, liderados por dois aliados do clã Bolsonaro, Xavier Milei e Donald Trump.
E consegue colar ao ainda senador a etiqueta da assunção da culpa no processo judicial em que é investigado pela Polícia Federal e alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) por lavagem de dinheiro, corrupção passiva e irregularidades financeiras, sendo especialmente incómoda uma parcela onde não consegue justificar o recebimento de 134 milhões de reais de um banco privado igualmente sob forte suspeita no mesmo processo.
Segundo os relatos conhecidos pela imprensa brasileira, Flávio Bolsonaro saiu por terra para a Argentina e vou deste país vizinho para o Equador antes de embarcar para os Estados Unidos da América.
A confirmação inequívoca chegou depois de o Governo de Buenos Aires ter anunciado que Flávio Bolsonaro partiu da Argentina rumo ao Equador, três dias depois de ter sido derrotado na segunda ronda da eleição presidencial.
O senador que representou a extrema-direita brasileira atravessou com a família a fronteira terrestre com a Argentina, na província de Misiones (nordeste), "munido de documentos de viagem em dia, sem qualquer impedimento legal", disse a Direção Nacional de Migrações da Argentina, embora já se soubesse que a justiça brasileira lhe tinha imposto a entrega dos passaportes.
O mapa da fuga
Flávio Bolsonaro, descreve a Lusa, atravessou na terça-feira, 27, o posto fronteiriço da Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga a cidade brasileira de Foz do Iguaçu à cidade argentina de Puerto Iguazú, acompanhado pela mulher e as duas filhas.
Pouco depois Flávio Bolsonaro embarcou num "voo privado fretado pela empresa Baires Fly S.A. com destino à cidade de Guayaquil, no Equador", acrescentou a mesma fonte, num comunicado publicado na rede social X.
A aeronave descolou pouco depois de Puerto Iguazú, confirmou o portal especializado FlightRadar.
Horas antes, o Ministério da Segurança da Argentina tinha negado que o filho do ex-Presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, que está detido no Brasil por tentativa de golpe de Estado depois de também ter sido derrotado por Lula da Silva, tivesse entrado no país.
A fuga de Flávio Bolsonaro ocorreu um dia depois de ter sido intimado pela Polícia Federal, por ordem do juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, a entregar todos os passaportes que possui no prazo de 24 horas, e de ter sido proibido de deixar o Brasil.
A decisão de Moraes, recorda ainda a Lusa, consta de um processo em que Flávio e um amigo, o advogado Willer Tomaz, são investigados por corrupção, branqueamento de capitais e evasão fiscal, num suposto esquema que envolveria empresas de Tomaz e uma plataforma de apostas.
O senador da extrema-direita brasileira é ainda alvo de uma investigação do STF sobre o financiamento do filme "Dark Horse", uma cinebiografia do pai, que se encontra detido por tentativa fracassada de golpe de Estado.
Na segunda-feira, um dia antes de deixar o país, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais em que garantiu que nunca deixaria o Brasil, e que entregaria os passaportes às autoridades policiais, incluindo um passaporte diplomático e um de cidadão italiano.
Na terça-feira, um alto funcionário do Departamento de Estado norte-americano afirmou, sob condição de anonimato, que Flávio Bolsonaro e a família receberão vistos para os Estados Unidos, informação que a comunicação social brasileira já tinha confirmado.
"O Departamento de Estado irá emitir vistos a Flávio Bolsonaro e à sua família e permitir-lhes a entrada nos Estados Unidos", afirmou o responsável, citado pela agência de notícias Associated Press.
O Presidente norte-americano Donald Trump, que deu apoio expresso a Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, também foi interrogado e garantiu que concederia vistos ao senador brasileiro e à sua família.
"Bem, eu aprovaria. Acho que eles são boas pessoas. A eleição foi muito estranha, e achei que foi terrível. Ela tem recebido avaliações ruins. Veja o que aconteceu com o mercado deles", afirmou Trump aos jornalistas e citado pela Lusa.
A possibilidade de Flávio sair do Brasil caso perdesse as eleições já tinha sido anunciada pelo irmão, Eduardo Bolsonaro, atualmente foragido da Justiça brasileira, e a residir nos Estados Unidos desde 2025.






