Tanto os iranianos como os norte-americanos já sabem que militarmente só com algo de extraordinário a acontecer em breve é que poderão levar o adversário ao tapete, o que deixa como única solução alternativa conseguirem-no pela via dos apertos económicos.

Os mercados energéticos não sofreram um rombo no casco que pusesse em causa a sua capacidade de "velejar" quando os Houthis do Iémen anunciaram o fecho do Estreito de Bab al-Mandab, a ligação marítima entre o Mar Vermelho/Canal do Suez e o Oceano Índico.

Mas o que os analistas esperavam era que o efeito fosse dramático porque o Estreito de Bab al-Mandab tem tanta ou mais relevância para a economia planetária como o Estreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, e ambos pelas mesmas razões.

Se pelo Estreito de Ormuz, fechado, de novo, há semana e meia, pelo Irão, depois de os EUA terem retomado os ataques sobre o seu território, passam cerca de 20% do crude e do gás global, por Bab al-Mandab passa cerca de 12% do comércio geral mundial.

E, ainda sobre a importância estratégica de Bab al-Mandab, com o seu fecho pela Ansar Allah (Houthis), que dominam o oeste do Iémen, além de 12% do comércio global, por este estreito seguiam cerca de 7 milhões de barris de crude diariamente para a Ásia.

É que a Arábia Saudita, com o início da guerra lançada pela coligação israelo-americana, a 28 de Fevereiro contra o Irão, que levou ao fecho de Ormuz pelos iranianos, passou a exportar parte da sua produção de petróleo pelo oleoduto com mais de 1.200 kms que liga o Golfo Pérsico ao Porto de Yanbu, no Mar Vermelho.

Dois Estreitos, um problema

Esta solução, que permitiu aliviar e muito a pressão do conflito entre americanos e iranianos no Golfo Pérsico sobre os mercados petrolíferos, fica agora igualmente "entalada" no estreito de Bab al-Mandab com a decisão do Iémen em seguir o exemplo dos aliados iranianos em Ormuz.

Esta decisão é uma retaliação contra a Arábia Saudita, um dos países cujos navios deixam de poder transitar por Bab al-Mandab, que bombardeou recentemente o aeroporto de Sanaa, a capital do país, na tentativa de impedir o pouso de um avião iraniano que levada de regresso a casa dirigentes da Ansar Allah que tinham estado nas cerimónias fúnebres do aiatola Ali Khamenei, o ex-Líder Supremo do Irão, morto a 28 de Fevereiro no ataque que deu início a esta guerra.

Apesar desta nova limitação às exportações de crude do Golfo Pérsico, que potencialmente retira quase a totalidade dos 20 milhões de barris produzidos ali diariamente, do mercado, os preços da matéria-prima estão, estranhamente, a aguentar a pressão, embora com tendência de subida, aproximando-se rapidamente nos 90 USD nesta manhã de terça-feira, 21, e o 10º dia consecutivo de bombardeamentos dos EUA sobre o Irão.

Isso deve-se, segundo vários analistas, à continuada libertação de reservas estratégicas dos EUA, que em pouco mais de ano e meio passou de mais de 500 milhões de barris para os actuais escassos 316 milhões, o nível mais baixo deste 1983, segundo dados oficiais.

Além disso, numa estratégia concertada através de mecanismos da Agência Internacional de Energia (AIE), também as grandes economias e consumidores de energia, como a China, estão há largos meses a recorrer ás suas reservas para manter os preços sob controlo.

Um furo no depósito das reservas estratégicas

Mas este cenário está prestes a mudar com a decisão de Pequim, igualmente sob stresse com a descida substantiva do nível das suas reservas, estimadas em mais de mil milhões de barris antes desta guerra, de retomar as aquisições de crude nos mercados internacionais, o que deverá, dentro do que é visto como normal, levar a novas subidas abruptas dos preços do barril.

Até porque o efeito desta dupla interrupção em Ormuz e Bab al-Mandab, mesmo sob pressão dos EUA para evitar esse cenário, deverá chegar aos mercados rapidamente, porque será impossível ignorar a perda de 7 milhões de barris/dia no lado da oferta.

Ainda para mais quando se sabe hoje que a decisão da Ansar Allah de fechar o canal que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico, retirando lastro ao estratégico Canal do Suez, não pode ser revertida militarmente pelos EUA, apesar do poderia da sua Marinha de Guerra, porque isso foi tentado sem sucesso, apesar das gigantescas e prolongadas campanhas de bombardeamentos.

Este momento é de tal modo impactante na economia norte-americana que Marco Rubio, o secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Donald Trump, veio nas últimas horas afirmar que os EUA não vão poder continuar eternamente a garantir a segurança da navegabilidade global.

O chefe da diplomacia norte-americana deixou assim sob a mesa a possibilidade de os EUA saírem de cena neste conflito que o próprio Donald Trump já disse ter como objectivo a reabertura de Ormuz, um canal que estava aberto e livre antes de Washington ter começado esta guerra.

Rubio disse ainda, em tom de ameaça, que os seus aliados ocidentais, nomeadamente europeus, mas também asiáticos, como Japão e Coreia do Sul, devem enviar meios para ajudar os EUA nesta missão, que alguns analistas consideram ridícula visto servir, segundo a própria Casa Branca, para abrir uma passagem marítima que esteve sempre aberta ao longo de décadas antes deste conflito.

O risco de conflitpo geral

Há, todavia, outro risco de Ormuz e Bab al-Mandab passarem a ser mais que duas passagens marítimas.

Podem vir a ser as duas pontas de uma geografia em guerra generalizada, com os países árabes do Golfo (Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Baharein e Emiratos) com bases norte-americanas, e os EUA, de um lado, com a inevitável entrada de Israel, de um lado, e o Irão, o Iémen e as suas alianças abrangentes entre as milícias iraquianas e o Hezbollah, no Líbano, pelo outro, com apoio mais ou menos claro de russos e chineses.

Isto emerge como cenário plausível porque, como explicava recentemente Jacques Baud. antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de vários livros sobre conflitos no Médio Oriente, ao entrarem neste conflito, a Ansar Allah dá uma abrangência impossível de ser ignorada pelas monarquias do Golfo, altamente dependentes das exportações de energia, agora notoriamente postas em causa.

Por outro lado, apontava também em vários podcasts Larry Johnson, antigo analista da CIA, com esta opção por ignorar o Memorando de Entendimento (MdE) assinado em Junho, e o cessar-fogo acordado em Abril, os EUA de Donald Trump apostam agora tudo num esmagamento militar do Irão.

Este analista nota, todavia, que essa opção é "inacreditavelmente impossível de compreender", não apenas porque o Irão mostrou, nos 60 dias de guerra iniciada em Fevereiro, com bombardeamentos muito mais intensos que agora, capacidade de resistir e ripostar, como acontece quando se sabe que, oficialmente, os EUA estão com os seus stocks de misseis ofensivos e defensivos em mínimos históricos.

A única possibilidade é que Trump e os seus generais estejam a pensar, erradamente, acrescenta Johnson, que o regime do Irão está mesmo preso por fios e que basta mais uma semana ou duas de ataques para cair por dentro.

É que se tal não suceder, o crude vai trepar para valores muito além dos 100 USD, o que se se prolongar, será uma sentença de morte para as aspirações eleitorais do Partido Republicano de Donald Trump, que deverá perder, como as sondagens apontam, a maioria no Congresso.

E sem essa maioria, o próprio Trump estará, como o próprio já reconheceu, à mercê da oposição democrata que já o informou publicamente que assim que puder lhe abre processos de destituição múltiplos, seja por mentir sobre o escândalo de pedofilia dos Ficheiros Epstein, seja, entre outras razões, por não ter informado, como a lei exige, o Congresso quando lançou a guerra contra o Irão.

Vários analistas admitem já que perante a possibilidade de uma derrota humilhante no Golfo Pérsico, Trump e os seus mais próximos podem estar já a delinear como estratégia o recurso a opções radicais, de onde não está totalmente excluído o uso de uma arma nuclear táctica.

Tal cenário seria, muito provavelmente, a ponta do icebergue da III Guerra Mundial.