Com o travão das eleições intercalares nos EUA, que têm impedido Donald Trump de aceitar o "convite" do seu amigo "especial" israelita, o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau, a retomar os ataques ao Irão, quase ultrapassado, o norte-americano ficará de mãos livres já esta quarta-feira, 04, após a votação intercalar de amanhã, para ajudar Israel a "destruir", como tem prometido, o Irão.

E a volatilidade aumentou depois das eleições de terça-feira, 27, em Israel, onde a plataforma de Governo liderada pelo Likud de Netanyahu ganhou mas perdeu ao mesmo tempo, porque só conseguiu 53 dos 120 lugares no Parlamento, enquanto a coligação Yashar, do antigo CEMGFA Gadi Eisenkot, conseguiu "apenas" 48, mas o suficiente para formar Governo se aceitar negociar com os partidos de génese palestiniana, que chegaram a uns históricos 19 assentos no Knesset. (ver links em baixo)

É que, agora, quer Eisenkot aceite formar Governo apoiado pelos "partidos árabes", quer não, o que exigiria novas eleições em dois a três meses, Benjamin Netanyhau terá a oportunidade da sua vida para levar Donald Trump a libertar a "pequena Fúria Épica", que já prometeu ao Irão após as eleições intercalares desta terça-feira, 03.

Sem o travão eleitoral, apesar de Donald Trump poder perder a maioria tanto na Câmara dos Representantes como no Senado do Congresso americano, o seu poder de decidir permanece intocável até Janeiro de 2027, quando os novos eleitos vão assumir os lugares nas duas câmaras do Capitólio.

Liberto das grilhetas eleitorais, que o levaram a recusar a pressão do lobby israelita em Washington para atacar o Irão, Donald Trump vai, como o próprio já prometeu, alegando a falsa urgência de impedir o Irão de aceder a uma arma nuclear, porque tal risco não existe, como o conjunto das secretas norte-americanas já garantiram, premir o gatilho.

Para isso já tem três porta-aviões na região, cada um deles com cerca de 10 navios de guerra de superfície e submergíveis nucleares, além de dois porta-aviões de pequeno porte, que são os dois navios anfíbios de desembarque, com mais de 5 mil elementos das múltiplas forças especiais dos EUA a abordo.

Como se fosse pouco, e já numa força que já supera em capacidade de fogo a que foi deslocada na invasão do Iraque, em 2003, o que, nota o especialista militar Douglas MacGregor, antigo coronel e conselheiro da primeira Administração Trump, não existe a possibilidade de deslocar esta máquina de guerra gigantesca se não for mesmo para a usar, ainda há que contar com o envio para Israel e Jordânia de centenas de "caças", especialmente F-35 e F-16, além de quase 100 aviões cisterna para reabastecimento aéreo.

O que quer dizer que sem o "bloqueio" eleitoral, que termina amanhã, terça-feira, 03, porque esta guerra está por detrás da descida a pique nas possibilidades do Partido Republicano de Trump manter as maiorias no Senado e nos Representantes devido ao impacto na inflação e no preço dos combustíveis, os principais "drivers" para a decisão de voto do eleitor médio nos EUA.

Benjamin Netanyhau, que, com Trump partilha o pânico de ser condenado na justiça assim que perder o poder, devido aos processos de corrupção e fraude em que está a responder mas que vão sendo adiados devido ao cargo, e, o norte-americano, pelas garantias de impeachment assim que perder a maioria nos Representantes, sem o "travão" de Washington, sabe que conta com o seu amigo americano, deve avançar em força contra o Irão por saber que a Casa Branca lhe dará cobertura de fogo imediata,

E sabe-o porque Marco Rubio, o secretário de Estado e Conselheiro para a Segurança Nacional de Trump veio justificar os ataques de Junho de 2025 e 28 de fevereiro deste ano com o facto de os israelitas terem avançado e os EUA foram "obrigados" a juntar-se a eles.

É perante este cenário que o Médio Oriente vive por estes dias o mais intenso frenesim negocial em anos, com delegações do Irão, do Catar, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, a voarem de Doha, no Catar para Teerão e vice-versa, de forma a evitar uma nova fase da guerra, que, na verdade, não acabou.

É que ninguém acredita, como sublinha amiúde por estes dias Seyed Marandi, analista iraniano e professor na Universidade de Teerão, nos podcasts Mario Nawfal e Dialogue Works, que o Irão se vai ficar por uma resposta simétrica desta vez, sendo evidente que agora todos os aliados no Golfo Pérsico dos EUA serão arrasados, deixando qualquer gota de crude e gás de sair para a economia mundial.

Além disso, o Líder Supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, tornou pública uma directiva onde ordena à Guarda Revolucionária (IRGC) para responder com todo o seu poder e sem limites geográficos em caso de qualquer decisão israelo-americana de atacar o Irão, o que é uma garantia de que o mundo, nesse cenário, nunca mais será o mesmo e a maior crise humanitária e militar que o mundo já viveu está ao virar da esquina do tempo.

Negociações ao sprint

É por isso que prosseguem negociações sobre um plano de dois dias para reabrir Ormuz, que, ao contrário do que alegam Trump e Netanyahu, como falsa justificação para a guerra, é a razão decisiva para este conflito, mesmo que antes dos ataques iniciais, este canal marítimo estratégico estivesse aberto sem quaisquer restrições.

Porém, até agora, uma semana de intensos esforços diplomáticos não produziu resultados para permitir pôr fim à guerra de oito meses, iniciada em fevereiro com ataques dos EUA e Israel contra o Irão, que retaliou com o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passava um quinto da produção mundial de petróleo.

O Irão disse este domingo, 01 de novembro, que prosseguem as conversações indiretas com os Estados Unidos, com a mediação do Catar, sobre um plano de dois dias para reabrir o estreito de Ormuz.

"Estamos atualmente a negociar um plano de dois dias com os mediadores, mas ainda não chegámos a um resultado concreto e isso depende das respostas que o homólogo queira dar às nossas perguntas", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi, à margem de uma sessão parlamentar, noticiou a agência ICANA, a agência oficial de notícias do parlamento do Irão, citada pela Lusa.

Uma delegação iraniana, liderada por um vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, viajou para o Catar com o objetivo de "continuar o diálogo com mediadores desta país do Golfo que visitaram Teerão nas últimas semanas" e reiterou "que não havia um plano para realizar negociações com a parte norte-americana" nessas reuniões.

"Estamos a fazer tudo o que é possível para avançar neste caminho (diplomático) e esperamos que o outro lado aja racionalmente e priorize a diplomacia em detrimento de outras opções", acrescentou Araghchi, ainda citado pela Lusa, recordando que a República Islâmica está preparada para qualquer cenário.

Uma delegação catari deslocou-se ao Irão pelo menos duas vezes esta semana, assim como altos responsáveis de defesa do Paquistão, Arábia Saudita e Turquia - países membros do Pacto de Meca - que se reuniram na segunda-feira em Teerão com as autoridades do país persa para discutir a guerra.

Numa entrevista à Al Jazeera, Araghchi explicou que o Catar propôs reduzir o período inicialmente planeado pelo Irão no seu plano de paz de sete para cinco dias e que as partes estão agora a trabalhar para o encurtar ainda mais, para dois dias.

A 25 de setembro, durante uma conferência de imprensa à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, Araghchi propôs a Washington um plano de sete dias para acabar com as hostilidades.

A proposta previa um cessar-fogo no Médio Oriente, o fim do bloqueio naval dos EUA, o levantamento das sanções ao petróleo iraniano e a libertação dos ativos iranianos congelados, em troca da reabertura de Ormuz e do início das negociações com os Estados Unidos para alcançar um acordo final.

O presidente dos EUA, Donald Trump, que rejeitou o plano de sete dias de Teerão e mantém pressão através do bloqueio naval e da intensificação das sanções, assegurou no sábado que não atacará o país antes das eleições intercalares de terça-feira e que as negociações com o Irão estão a correr bem, embora tenha alertado que Washington ainda tem objetivos militares pendentes.

A estas novas ameaças, as autoridades iranianas responderam alertando os EUA de que um eventual retomar das hostilidades poderia ser "mais longo" que a guerra anterior.