Foi na noite de quarta-feira para hoje, quinta-feira, 22, que Donald Trump, ao chegar à Base Aérea Andrews, em Washington, resolveu, mais uma vez, baralhar as contas aos analistas que davam como certo o regresso da guerra contra o Irão mas só depois de 03 de Novembro.
Esta frase encaixa como uma luva na ordem dada por Washington para que os diplomatas norte-americanos no Médio Oriente, com excepção dos indispensáveis, abandonem a região, levando as suas famílias, no que diz respeito à possibilidade de a guerra estar de volta ao Golfo Pérsico mais cedo do que o esperado.
E parece a peça de um "puzzle" no que toca a fazer o desenho completo da guerra ao virar da esquina em conjunto com as persistentes declarações do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, sobre a urgência de os EUA voltarem a atacar o Irão em conjunto com Israel para "impedir que Teerão obtenha uma arma nuclear", objectivo sempre negado pelos sucessivos Governos iranianos desde a revolução islâmica, em 1979.
Tanto Netanyahu como Trump insistem agora que o objectivo da guerra é impedir que os iranianos passem a ter armas nucleares e a abertura do Estreito de Ormuz, que estava aberto sem restrições antes desta guerra começar.
Sobre o nuclear, foi Trump que abandnou, unilateralmente e sem justificação, um acordo assinado em 2015 por Barack Obama que garantia a vigilância total das instalações nucleares iranianas pela ONU através da sua Agência Internacional de Energias Atómica (AIEA).
Apesar disso, uma nova vaga de ataques norte-americanos coordenados ou com a participação activa de Israel, parece já um dado adquirido, mas não há como saber quando, porque as fontes dos media norte-americanos não chegam à "sala de crise" da Casa Branca, onde tudo se decide, e os analistas atropelam-se em possibilidades.
Certo, certo é que Netanyahu quer um ataque dos EUA já, antes das eleições legislativas em Israel, marcadas para 27 de Outubro, para o qual a sua força aérea está totalmente disponível, porque é do seu interesse eleitoral e pessoal, mas Trump, apesar da pressão do amigo israelita, parece querer esperar para depois das eleições intercalares nos EUA, porque isso é do seu interesse eleitoral e pessoal.
Como é que estes dois homens vão conjugar os seus interesses neste xadrez, é a pergunta do milhão de dólares, porque se estão unidos na ideia de voltar a atacar o Irão, existem sete dias no calendário - de 27 de Outubro, eleições em Israel, e 03 de Novembro, eleições nos EUA - que os afastam do dia "ideal" para premir o gatilho.
Em síntese, por esta razão: Em Telavive, Netanyhau precisa da guerra para ou adiar ou poder ter uma possibilidade de não sair derrotado com estrondo das eleições, o que o levaria de volta a tribunal onde está acusado de graves crimes de corrupção, abuso de poder e fraude.
Em Washington, Trump não pode lançar a guerra antes de 03 de Janeiro, porque isso faria disparar ainda mais o preço dos combustíveis, que é o factor mais importante para o eleitor norte-americano médio decidir o seu voto, e se perder a maioria no Congresso, como todas as sondagens apontam, a oposição Democrata já tem vários processos de destituição à sua espera.
Mas quando Donald Trump aproveita a chegada a Washington, já noite dentro, vindo da carolina do Sul, onde participou num comício de campanha eleitoral a apoiar uma candidata republicana ao Senado, para confirmar a iminência do ataque, logo após a ordem do Departamento de Estado a mandar sair os diplomatas e famílias do Médio Oriente, e a avisar que tudo pode "acontecer antes" de 03 de Novembro, algo de muito relevante está pelo meio, porque isso choca de frente com os interesses, seus e do seu partido.
Uma das possibilidades para esta pirueta política de difícil explicação para o eleitorado republicano, é, como explica amiúde John Mearsheimer, um dos mais respeitados analistas de política internacional norte-americano, e professor da Universidade de Chicago, é que "o lobby israelita em Washington entrou no jogo" com todo o seu poderio.
São muitas as versões sobre a razão pela qual Trump cede com regularidade a esta pressão, algumas envolvendo questões de natureza legal duvidosa, mas a mais comum é que a AIPAC (Comité Americano para os Assuntos Públicos de Israel) agrega os milionários que mais apoiam financeiramente as campanhas do Presidente dos EUA.
Além desta movimentação de peças no tabuleiro onde se decide a guerra e a paz, aos analistas não tem escapado os relatos cada vez mais persistentes nos media de massivas deslocações de meios aéreos dos EUA para a região, incluindo os famosos aviões-cisterna, para reabastecimento em voo.
Ou ainda a concentração de três esquadras de porta-aviões na região, o que coloca, no mínimo, cerca de três dezenas de navios de guerra, incluindo submarinos nucleares, força naval que não era vista no Médio Oriente deste a invasão do Iraque em 2003, além de pelo menos três navios de desembarque anfíbios com perto de 10 mil tropa de elite para uma eventual invasão terrestre.
O que vai Donald Trump fazer com esta gigantesca máquina de guerra a caminho ou já nas costas do Irão, é o que falta saber. Mas Douglas MacGregor, uma antigo coronel norte-americano, com várias missões na região e antigo conselheiro militar na primeira Administração Trump, defende que dificilmente tamanho poderio deslocado será em vão.
Até porque, como respondeu o Presidente norte-americano a um jornalista, ainda na Base Andrews, em Washington, "neste momento não há quaisquer negociações a decorrer entre os Estados Unidos e o Irão", o que contraria as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, que diz estarem a decorrer negociações com os EUA via Paquistão e Catar.
Aparentemente, estes sinais cada vez mais faiscantes de iminente regresso à guerra por parte de Donald Trump, a que se junta uma recente, e pouco notada, visita a Israel de Pete Hegseth, o secretário de Estado da Guerra dos EUA, sobre a qual nada se soube em concreto, estão a ser levados a sério pelos mercados energéticos, com o petróleo a subir há vários dias consecutivos, estando a consolidar-se acima dos 110 USD nos "futuros" e além dos 150 USD para entrega imediata.
Até porque, e essa é a principal razão para a ordem de saída dos diplomatas dos EUA na região, desde logo na Arábia Saudita, Catar, Kuwait e Emiratos Árabes Unidos, o Irão já avisou que a resposta a um eventual ataque isarelo-americano será mais intenso que nunca e contra toda a infra-estrutura energética dos aliados de Washington e as suas bases aéreas, incluindo as na Jordânia e em Israel.
Se os oráculos mais pessimistas estiverem certos e este cenário se concretizar, esta fase da guerra, que na verdade começou já em Junho de 2025 (ver links em baixo) e depois foi reatada em 28 de Fevereiro deste ano, poderá ser a mais devastadora, porque nem Israel nem os EUA se podem dar ao "luxo" de sair do Golfo Pérsico com uma derrota, como sucedeu até aqui.
E é por isso que alguns analistas, como Larry Wilkerson, antigo coronel dos EUA e chefe de Gabinete do ex-Secretário da Defesa, Colin Powell, na Administração Bush, admitem que, perante a resiliência iraniana, que ficou "demonstrada de forma inequívoca" nas "guerras" anteriores, em Washington e Telavive seja possível estar-se a desenhar uma "opção nuclear" para vergar o regime em Teerão.
Este analista, em coro com outros, aponta essa possibilidade como a maior catástrofe da Humanidade desde o fim da II Guerra Mundial, que levaria o mundo para uma outra realidade sobre a qual seria impossível adivinhar os limites das possibilidades, considerando a quantidade de países que hoje possuem arsenais atómicos.











