Edith Piaf escreveu La Vie en Rose em 1945 como quem desenha um abrigo. Paris estava em escombros, ela tinha fome, mas cantou: Je vois la vie en rose. Quando ele me abraça, a cidade deixa de estar destruída. O amor, para Piaf, era uma alucinação óptica que tornava o mundo habitável. Uma arquitectura de emergência.
Cinquenta anos depois, Celine Dion respondeu a essa alucinação com um ultimato. Pour que tu m"aimes encore, de 1995, é La Vie en Rose depois do medo. Já não é "eu vejo a vida em cor-de-rosa". É "eu farei tudo para que continues a amar-me". J"irai chercher ton coeur si tu l"emportes ailleurs. Se em Piaf o amor muda a cor da parede, em Celine o amor muda a planta inteira do edifício. Ela vai buscar, vai reconstruir, vai implorar.
E foi exactamente isso que ela fez em Paris na semana passada. Aliás, tem feito há um mês e continuará a espalhar este perfume até ao Verão de 2027.
Desde o dia 12 de Setembro, Celine Dion, 58 anos, está em residência na Plenitude Arena - antiga Paris La Défense Arena - para 26 concertos esgotados: 16 entre Setembro e Outubro de 2026 e mais 10 em Maio de 2027. É o primeiro concerto completo dela em seis anos, depois do diagnóstico de Síndrome da Pessoa Rígida, em 2022, e da aparição nos Jogos Olímpicos de 2024.
Noite de estreia: 35 mil pessoas, 2h25 de espectáculo em quatro actos. Abriu com On ne change pas. Fechou o encore com Pour que tu m"aimes encore como penúltima canção, antes de S"il suffisait d"aimer. No meio, disse em inglês: "I held on. I want to sing for you. I want to sing about life".
Seis dias depois, no dia 28 de Setembro, reapareceu de surpresa no desfile da L"Oréal, aos pés da Torre Eiffel, cantando I"m Alive, de vestido preto. A escolha não foi inocente. I"m Alive era o recado para quem achou que Pour que tu m"aimes encore era uma canção de despedida.
Note que não se trata apenas de um espectáculo musical. O regresso desta diva ao palco tem redefinido as tendências da moda, numa cidade que, de per si, é sinónimo de moda, elegância e criatividade, sem esquecer a boémia, esta que acompanha sempre a criatividade. Em Montmartre, no Espaço Dalí, Salvador Dalí proclamou: "criatividade sem boémia é como paixão sem loucura...".
E é aqui que a terceira mulher entra. Zaha Hadid.
O que Celine está a fazer em Paris é o que Zaha fez a vida toda: provar que uma estrutura dada como condenada ainda se aguenta de pé. O Le Devoir, de Montreal, resumiu a estreia assim: "À Paris, Céline Dion tangue, mais tient bon" - balança, mas aguenta-se. É a melhor definição de um edifício da Zaha.
Hadid foi chamada de impossível, tal como Piaf foi chamada de pequena demais e Celine de sentimental demais. As três foram acusadas do mesmo crime: excesso. Piaf sofria demais. Hadid curvava demais. Celine ama demais. Mas o excesso era a única escala honesta para o que sentiam.
Pense no Heydar Aliyev Center, de Zaha: uma fita branca contínua que se recusa a fazer um canto de 90 graus. É exactamente Pour que tu m"aimes encore em betão armado - um edifício que não tem fim, que não deixa ninguém sair. Enquanto La Vie en Rose era um quarto cor-de-rosa, Pour que tu m"aimes encore é a Défense Arena inteira, 35 mil pessoas a cantar o refrão para que uma mulher só continue ali.
No final da noite de estreia, as pessoas não saíram a cantar My Heart Will Go On. Saíram a cantar Pour que tu m"aimes encore. Porque finalmente perceberam: em 1945, Piaf pediu para ver a vida em cor-de-rosa. Em 1995, Celine pediu para que a amássemos ainda. Em 2026, em Paris, nós respondemos que sim.
E Zaha, se fosse viva, teria projectado o palco. n
* Em versão criativa
Celine voltou a Paris para provar que Pour que tu m"aimes encore ainda é La Vie en Rose
Na semana em que Celine Dion lota a Défense Arena, entendemos finalmente o que une Piaf, Hadid e Dion: todas construíram monumentos para que o amor não fosse embora.
