Sergei Lavrov, chefe da diplomacia de um dos países que nos últimos anos, a par da China, mais pugna pela alteração à ordem mundial baseada nas regras criadas pelos EUA a partir do fim da II Guerra Mundial, vem, curiosamente, agora, acusar Washington de estar a colocar "a lei do mais forte" em cima da lei internacional.

Num balanço geral sobre o ano de 2025 feito em Moscovo, o mais experiente dos diplomatas em actividade actualmente, avisou que esta alteração em curso pela mão do Presidente norte-americano Donald Trump, também vai ser sentida fortemente dentro do conjunto dos países que ainda são os principais aliados dos EUA no Ocidente.

Para Lavrov, é fundamental perceber que este momento é extraordinário na história da Humanidade e que os efeitos da substituição da ordem internacional pela "lei do mais forte" e que o sul global vai observar o impacto profundo, sendo que essa mudança será real também no Ocidente.

E o exemplo escolhido pelo experiente ministro dos Negócios Estrangeiros russo é o caso da Gronelândia, a ilha dinamarquesa no Ártico, que os EUA se preparam para anexar, quer a Dinamarca e a União Europeia queiram quer não, nem que para isso seja preciso "recorrer à força" porque, nota Trump, os Estados Unidos "são o país mais poderoso do mundo".

Estas declarações de Lavrov emergem de um momento histórico que tem sido marcado pela estratégia seguida pelo eixo Pequim-Moscovo, com apoio da Índia e do Brasil, entre outros, no sentido de mudar a ordem mundial baseada em regras para uma nova ordem mundial assente em parcerias entre iguais visando o desenvolvimento global harmonioso sem hegemonia como acontece desde 1945, onde os EUA e os seus aliados mandam no mundo.

O contraste aparece, contudo, no conceito de ordem mundial, porque a hegemonia que o Direito Internacional baseado nas regras criadas pelos EUA a seguir à II Guerra Mundial proporcionou a Washington está de novo a ser alterado igualmente em Washington mas para uma política assente na ideia de que quem detém o poder militar e económico manda no mundo.

Essa a razão pela qual, ao que tudo indica está na génese desta contundente declaração de Lavrov, o Presidente Trump repete amiúde que os EUA são "o país mais poderoso" com as forças armadas "mais poderosas" e com a capacidade inigualável de projectar poder para os quatro cantos do planeta. (ver links em baixo)

E, neste contexto, o ministro Sergei Lavrov diz estar convicto de que em Washington o que pensam os seus aliados mais próximos, como a Europa Ocidental, é irrelevante, porque é essa mesma Europa que está a sofrer o "choque" mais duro da mudança de estratégia norte-americana para continuar a mandar no mundo como o demonstra o caso da Gronelândia.

Para contextualizar, a ordem mundial baseada em regras é comummente entendida como o sistema global de concertação que assenta em três pilares mais proeminentes, como as Nações Unidas, o Banco Mundial, o FMI ou a Organização Mundial do Comércio, todos eles com sedes nos EUA ou em território neutro, a Suíça, no caso da OMC, com um braço militar real mas não assumido nesse sentido, que é a NATO, que junta os EUA e todos os países da Europa Ocidental.

Todas estas instituições são ferramentas de pressão manipuladas por Washington e pelos seus aliados para subjugar os países mais fragilizados, especialmente do Sul Global (África, Ásia e América Latina), seja através das exigências que acompanham os empréstimos, seja através da ameaça militar directa, de que a intervenção recente na Venezuela é um claro exemplo.

Com esta abordagem à nova política internacional dos EUA, que, efectivamente, está plasmada no documento recentemente divulgado com a estratégia norte-americana de segurança global, Sergei Lavrov procura explicar a Washington que o mundo está atento ao que Trump está a fazer.

E também a chamar à atenção dos riscos que correm os países de todos os continentes visto que os norte-americanos nem sequer poupam os seus mais sólidos aliados na execução da sua nova solução para todos os problemas: a lei do mais forte.

E isso, para já, parece ter sido percebido pelos europeus, com o anúncio recente de encontros entre as lideranças da União Europeia e do Reino Unido, depois de anunciadas as tarifas de Trump se não aceitarem a anexação da Gronelândia.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, tem sido o porta-voz da desilusão europeia com a nova forma de pensar em Washington, recusando liminarmente a perda da ilha dinamarquesa para os EUA, como, de resto, é entendimento generalizado no seio do bloco europeu dos 27.

O que resultou na reactivação de um velho plano da União Europeia de aplicar um conjunto de tarifas contra os EUA no valor de 93 mil milhões de euros como resposta às sanções sobre as exportações europeias prometidas por Trump já a partir de 01 de Fevereiro.

E o Conselho da Europa, órgão que define a política global da Europa, com 46 membros, incluindo de fora da União Europeia, também já se pronunciou, através do seu presidente, Alain Berset, aludindo ao risco de que os EUA estão a destruir, como Lavrov adverte, a ordem mundial que mantém o mundo em harmonia desde 1945.

Berset, num texto publicado no The New York Times, atacou a ideia de Trump de subverter as regras da NATO, anunciando o uso da força de for necessário para conseguir os seus objectivos de anexar a Gronelândia, o que, em suma, levará ao colapso da Aliança Atlântica e da ordem mundial baseada em regras criadas após a II Guerra Mundial, objectivando a criação no seu lugar de "esferas de influência".

Essa questão das esferas de influência é vista por vários analistas como a terminologia gerada a partir da ideia defendida em muitos corredores de que os EUA, a China e a Rússia têm em curso um plano, não assumido em nenhuma das capitais, para dividir o mundo em áreas de domínio com base nos interesses das três superpotências.