E se dúvidas houvesse sobre o "fade out" da importância do conflito ucraniano entre os seus aliados europeus, acabaram agora com a mudança de foco europeu para a iminente anexação da Gronelândia (ver links em baixo) a ilha gigante do Ártico que pertence à Dinamarca, pelos Estados Unidos.
Desesperado, o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky lançou um apelo aos seus aliados europeus para o ajudarem a resolver os sucessivos apagões nas grandes cidades ucranianas gerados pelos persistentes ataques russos à infra-estrutura eléctrica do país e a fazer face aos sucessivos ataques com drones e misseis russos.
Mas a resposta, além de frases inóquas e secundárias nos discursos de ocasião no Parlamento Europeu, foi um olhar para o lado, tanto da presidente da Comissão Europeia, Ursula Leyen, como do presidente do Conselho Europeu, António Costa, ou dos líderes dos três grandes da Europa Ocidental, França, Alemanha e Reino Unido.
É que todos eles, especialmente o francês Emmanuel Macron, e o britânico Keir Starmer, esta semana humilhados pelo Presidente norte-americano, que a eles se referiu como corajosos quando estão longe mas mansos quando estão ao seu lado, têm actualmente um problema que pode ser Histórico se não for devidamente resolvido.
E é ele o fim imediato da NATO, a Aliança Atlântica criada em 1949 pelos EUA para proteger os europeus do expansionismo soviético, se, ao invés de enfrentar o avanço de Moscovo, tiverem de fazer frente militarmente à invasão e anexação da Gronelândia, que Donald Trump já disse que acontecerá em breve "a bem ou a mal".
E esta efervescência em torno da Gronelândia, que Trump diz querer integrar nos EUA por razões de Segurança Nacional, alegando o risco iminente de russos e chineses tomarem conta da ilha - Moscovo e Pequim já vieram garantir que isso é um disparate -, está a ser aproveitada por russos e norte-americanos para resolverem o conflito na Ucrânia de vez.
O cenário em construção por Moscovo e Washington é agora claro. Vladimir Putin e Donald Trump vão fazer uma proposta a Volodymyr Zelensky que este não poderá recusar, até porque o ucraniano já deu conta que está a ser evitado pelos seus até aqui aliados europeus, a ponto de o não quererem no Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, onde nos últimos anos foi a estrela que mais brilhou.
E é isso que os enviados especiais dos dois Presidentes, russo e norte-americano, para o conflito na Ucrânia, Steve Witkoff, velho amigo de Trump, e Kirill Dmitriev, o homem de confiança de Putin, estão a tratar há dias nos bastidores.
O que só hoje, quarta-feira, 21, se ficou a saber, porque Witkoff veio anunciar que vai reunir com Vladimir Putin, no Kremlin, em Moscovo, esta quinta-feira, 22, para avançar com uma solução para a guerra na Ucrânia.
O enviado de Trump disse, em entrevista à norte-americana CNBC, que vai amanhã a Moscovo para confirmar os progressos feitos no sentido de conseguir um acordo de paz para o conflito no leste europeu sobre o qual disse que "foram feitos imensos progressos" no sentido da paz.
No mesmo momento, Witkoff sublinhou que foi a parte russa que o convidou a ir a Moscovo, o que considera ser uma boa perpectiva, visto que até aqui o plano de 20 pontos que os norte-americanos alinhavaram com Kiev tem sido sucessivamente rejeitado pelo Kremlin.
Face ao facto conhecido de que esse mesmo plano não foi alterado nas últimas semanas, existe, nas palavras de Witkoff, a possibilidade de os russos estarem agora mais receptivos a fazerem concessões: "Creio que agora todos estão mais envolvidos seriamente na busca da paz".
Mas o norte-americano também afirmou que o seu plano de 20 pontos, malquisto em Moscovo, está a ser "afinado, harmonizado e massajado" de forma a que não contenha elementos de impossibilidades negociáveis
O Kremlin já confirmou a ida do enviado de Trump a Moscovo, que vai acompanhado do genro do Presidente dos EUA, Gerard Kushner, tendo Dmitri Peskov, o porta-voz de Putin, avançado, segundo a RT, que a Rússia quer estar a par dos avanços nas conversações entre americanos, europeus e ucranianos.
Entretanto, Kirill Dmitriev, o enviado especial de Putin, que esteve com os homólogos americanos em Davos, na Suíça, esta semana, considerou que foram momentos de diálogo construtivos, gerando uma renovada expectativa sobre uma solução iminente para a guerra na Ucrânia.
Até porque, antes de Witkoff chegar a Moscovo, Putin reuniu extraordinariamente o seu Conselho de Segurança Nacional, o que, mesmo sem se conhecer a agenda, deixa antever que esta está directamente relacionada com esta etapa das conversas com os EUA e que o momento é especialmente propício a obter concessões de Kiev face às fragilidades ucranianas.
Não apenas as questões relacionadas com a falta de energia numa altura de frio extremo no país, com temperaturas de até 20 graus negativos, mas também porque, como se relata aqui, o novo ministro da Defesa foi ao Parlamento em Kiev assumir problemas que estavam a ser negados pelo regime ucranianos há largos meses apesar de terem já disso noticiados pelos media, incluindo ocidentais e leais a Zelensky.
Todavia, embora seja claro que o Kremlin e a Casa Branca estão a aproveitar essas fragilidades em Kiev para oferecer a Zelensky algo que este não poderá, face às circunstâncias, recusar, o quê?, está ainda no segredo dos deuses.
Mas entre as possibilidades mais sugeridas entre os analistas é que Putin esteja disposto a fechar todas as frentes de guerra fora da geografia das cinco regiões anexadas em 2014 (Crimeia) e em 2022 (Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhia), que são pelo menos três, nas regiões de Sumy, Kharkiv e DniproPetrovsk, se Zelensky retirar todas as forças das zonas que Moscovo ainda não controla na geografia integrada oficialmente na Federação Russa.
Se esse é o caminho só se saberá nas próximas horas, mas a situação para a Ucrânia é cada vez mais dura e insustentável na linha da frente que se estende por 1200 kms e ao longo das quais simplesmente já não existe presença humana das forças ucranianas, apenas algum controlo através do uso intenso de drones.













