Com a gigantesca ilha dinamarquesa localizada no Ártico como pano de fundo das suas ambições expansionistas, Donald Trump escolheu o momento, precisamente antes de viajar para Davos, na Suíça, onde vai participar no Fórum Económico Mundial, para humilhar o seu homólogo francês.

O líder europeu que sempre esteve entre os seus preferidos foi agora atirado ao chão com um golpe traiçoeiro na forma de divulgação pública de uma nota privada de Macron a convidar Donald Trump para um jantar em Paris para discutir a questão da Gronelândia.

Nessa nota pessoal, privada a todos os títulos, Emmanuel Macron dizia a Donald Trump que não está a perceber o que é que o americano está a fazer com o caso das Gronelândia e propunha falar disso num jantar na capital francesa antes destes regressar de Davos a Washington.

A resposta, demolidora e humilhante foi, quando questionado estrategicamente por um jornalista devidamente instruído para o efeito, se iria aceitar o convite de Macron, que não, não iria aceitar o convite porque "Macron está a meses de ir embora" e não vale a pena perder tempo com ele.

Esta resposta demolidora tem subjacente o facto de Emmanuel Macron ser a voz mais sonante entre o coro de críticos na Europa Ocidental e dentro da NATO à pretensão expansionista de Trump para a ilha europeia, território da União Europeia e da NATO pela ligação de Estado à Dinamarca, embora com um estatuto de autonomia alargada.

Uma das razões pelas quais na Europa se crítica de forma severa a vontade de Trump em anexar a Gronelândia é a garantia de que tal passo será o fim da NATO.

Isso, porque se trata de um país fundador da Aliança Atlântica a invadir militarmente o território de outro país fundador da organização militar fundada em 1949 para travar o expansionismo da então URSS que agora se depara com a urgência de reagir ao expansionismo norte-americano para o seu interior.

O fim da NATO não é sequer uma novidade no pensamento geoestratégico da Administração Trump, porque, tanto neste mandato, como, ainda com mais assertividade, no primeiro, entre 2017 e 2021, o Presidente dos EUA defendeu a saída da organização porque os outros países-membros não pagavam o suficiente para a sua manutenção.

E agora regressa a essa retórica ao deixar claro que se o preço da anexação da Gronelândia for o fim da NATO, está disposto a avançar de igual modo, até porque, como fez questão de afirmar nas últimas horas, dúvida que a Aliança Atlântica fosse em socorro dos EUA em caso deste país se alvo de um ataque militar.

Estas declarações foram feitas no momento em que falava a propósito do primeiro aniversário deste seu regresso à Casa Branca a 20 de Janeiro de 2025, onde deixou claro que tem dúvidas sobre a continuidade desta organização militar embora não se tenha coibido de dizer que foi o Presidente norte-americano que mais fez pela sua continuidade.

Isto, quando é o Presidente, embora outros já o tenham tentado no passado, como foi o caso de Abraham Lincoln, em 1862, de Harry Truman, em 1950, e, de forma diferente, por Dwight Eisenhower, em 1955, embora este tenha recuado ao constatar que a Dinamarca não se opunha à presença militar dos EUA na ilha no contexto da Guerra Fria, que já disse que a vai anexar aconteça o que acontecer, de forma negociada ou pela força militar.

Alguns analistas, como John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos mais reputados analistas norte-americanos na área da geoestratégia e política internacional, já deixaram entender que não é a preocupação, como alega Trump, com a segurança nacional ou global.

Isto, porque, ao contrário do que Trump diz para justificar a anexação, a Dinamarca, e os aliados europeus não vêm qualquer ameaça russa ou chinesa sobre a Gronelândia, sendo o motivo mais evidente a vontade do Presidente dos EUA ficar para a história como aquele que conseguiu o que Lincoln, Truman e, de certa forma, Eisenhower não conseguiram.

Até porque os EUA já têm bases militares na ilha, incluindo uma das maiores do mundo no rastreio de misseis balísticos intercontinentais e satélites militares, e a Dinamarca, ou mesmo o Governo autónomo de Nuuk, capital da Gronelândia, não se opõem ao aumento da presença norte-americana...

... na ilha que é habitada por apenas cerca de 58 mil pessoas mas com uma dimensão, 2.166.000 km², ligeiramente superior ao território de Angola, embora com uma localização estratégica única no acesso ao Ártico...

... que, com o degelo gerado pelas alterações climáticas, está a abrir um corredor marítimo pelo extremo norte do Planeta que encurta a viagem dos grandes navios de carga e petroleiros entre, por exemplo, a Ásia Oriental (Pacífico) e a Europa e os EUA (Atlântico) em várias semanas, com enormes cortes nos custos.

E é neste contexto em que os históricos aliados, EUA e Europa Ocidental, que desde o fim da II Guerra Mundial, mantém uma ligação estreita que garante há mais de 80 anos a hegemonia global, se deparam com um momento em que essa parceria estratégica ameaça ruir à frente dos olhos do mundo.

E com ela a ordem mundial baseada em regras apesar desta ordem, assente em pilares como o FMI, o Banco Mundial, a ONU e a Organização Mundial do Comércio, ter sido o garante do desenvolvimento do Ocidente muito superior ao resto do mundo, que hoje se apresenta como o Sul Global.

Trump prefere "a lei do mais forte" e a "lei da selva" à ordem mundial

Com o fim da ordem mundial que o planeta conhece deste a II Guerra Mundial a ver o seu futuro a ser jogado na Gronelândia, russos e chineses, que há anos pugnam pelo fim dessa mesma ordem mundial, instigando à formação de uma outra, baseada em parcerias entre iguais visando o desenvolvimento harmonioso do conjunto das Nações, estão agora preocupados com a opção de Donald Trump, que acelera o passo da destruição da velha ordem para uma outra onde se impõe "a lei do mais forte" e "a lei da selva".

Sergei Lavrov, chefe da diplomacia de um dos países que nos últimos anos, a par da China, mais pugna pela alteração à ordem mundial baseada nas regras criadas pelos EUA a partir do fim da II Guerra Mundial, vem, curiosamente, agora, acusar Washington de estar a colocar "a lei do mais forte" em cima da lei internacional.

Num balanço geral sobre o ano de 2025 feito em Moscovo, o mais experiente dos diplomatas em actividade actualmente, avisou que esta alteração em curso pela mão do Presidente norte-americano Donald Trump, também vai ser sentida fortemente dentro do conjunto dos países que ainda são os principais aliados dos EUA no Ocidente.

Para Lavrov, é fundamental perceber que este momento é extraordinário na história da Humanidade e que os efeitos da substituição da ordem internacional pela "lei do mais forte" e que o sul global vai observar o impacto profundo, sendo que essa mudança será real também no Ocidente.

E o exemplo escolhido pelo experiente ministro dos Negócios Estrangeiros russo é o caso da Gronelândia.

Estas declarações de Lavrov emergem de um momento histórico que tem sido marcado pela estratégia seguida pelo eixo Pequim-Moscovo, com apoio da Índia e do Brasil, entre outros, no sentido de mudar a ordem mundial baseada em regras para uma nova ordem mundial assente em parcerias entre iguais visando o desenvolvimento global harmonioso sem hegemonia como acontece desde 1945, onde os EUA e os seus aliados mandam no mundo.

O contraste aparece, contudo, no conceito de ordem mundial, porque a hegemonia que o Direito Internacional baseado nas regras criadas pelos EUA a seguir à II Guerra Mundial proporcionou a Washington está de novo a ser alterado igualmente em Washington mas para uma política assente na ideia de que quem detém o poder militar e económico manda no mundo.

Essa a razão pela qual, ao que tudo indica está na génese desta contundente declaração de Lavrov, o Presidente Trump repete amiúde que os EUA são "o país mais poderoso" com as forças armadas "mais poderosas" e com a capacidade inigualável de projectar poder para os quatro cantos do planeta. (ver links em baixo)

E, neste contexto, o ministro Sergei Lavrov diz estar convicto de que em Washington o que pensam os seus aliados mais próximos, como a Europa Ocidental, é irrelevante, porque é essa mesma Europa que está a sofrer o "choque" mais duro da mudança de estratégia norte-americana para continuar a mandar no mundo como o demonstra o caso da Gronelândia.

A China vê Trump a querer impor a "lei da selva"

Depois de em Moscovo o ministro russo dos Negócios Estrangeiros ter atacado a estratégia norte-americana de impor a "lei do mais forte" como regulador das relações internacionais, a China foi ao Fórum de Davos, na Suíça, apontar o dedo à "lei da selva" que Washington procura impor com as suas guerras comerciais.

E foi neste quadro que China se insurgiu esta terça-feira, 20, no Fórum de Davos, na Suíça, contra o que classificou como o regresso à "lei da selva" nas relações internacionais, "onde os fortes atacam os fracos", criticando tarifas e guerras comerciais.

Intervindo em Davos, num fórum que este ano decorre num contexto de acentuadas tensões geopolíticas e comerciais, o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, sem nunca se referir expressamente aos Estados Unidos, citado pela Lusa, defendeu que "um pequeno número de países privilegiados não deve beneficiar de vantagens baseadas apenas nos seus interesses, e o mundo não pode regressar à lei da selva, onde os fortes atacam os fracos".

No seu discurso, o responsável de Pequim também dirigiu críticas implícitas à política comercial norte-americana, afirmando que "as tarifas e as guerras comerciais não têm vencedores", advogando os benefícios do "comércio livre e da globalização económica".

Considerando que o sistema comercial global enfrenta actualmente o seu maior desafio em muitos anos, He Lifeng "os actos unilaterais e os acordos comerciais de certos países violam claramente os princípios e regras fundamentais da Organização Mundial do Comércio (OMC)".