John Ratcliffe foi a Moscovo sem se fazer anunciar, mas fez questão de garantir que o mundo saberia da sua presença na capital russa ao fazer-se deslocar num gigantesco C-17 Globemaster, avião cujo tamanho não o deixaria, nem deioxu, passar desapercebido.

Mikhail Fedorov desafiou com estrondo o actual Presidente da Ucrânia para disputar com ele o cargo em eleições (ver links em baixo) e, numa entrevista à Reuters, a maior agência de notícias do mundo, veio admitir que os russos podem ganhar a guerra a qualquer momento.

Existe a possibilidade de John Ratcliffe ter ido a Moscovo para pedir ajuda ao Presidente Vladimir Putin para persuadir os líderes iranianos a aceitarem os termos norte-americanos, em parte ou na globalidade, para acabar com o conflito no Golfo Pérsico.

Mas o mais certo, como sugeria Larry Johnson, antigo analista da CIA, em vários canais nas redes sociais, é que Ratcliffe tenha ido a Moscovo negociar com o Kremlin uma forma de a Rússia não colocar o pé no acelerador na guerra da Ucrânia...

É que, como Mikhail Fedorov admitia, a situação na linha da frente tende a inclinar-se para uma vitória russa em pouco tempo, alicerçado naquilo que o próprio admitiu quando estava no cargo de ministro da Defesa, nos primeiros seis meses deste ano, antes de ser despedido pelo Presidente Zelensky.

Fedorov chegou a admitir, perante o Parlamento, que as fileiras ucranianas estavam a esvair-se devido a deserções, mais de 200 mil em apenas alguns meses, uma crescente dificuldade em recrutar novos militares, deixando caminho livre para o avanço russo.

E, agora, a Ucrânia enfrenta a penúria total em sistemas de defesa anti-aérea, o que deixa o país totalmente à mercê da capacidade balística russa, que Zelensky, curiosamente, veio dizer esta semana, que está a crescer para níveis nunca vistos.

Juntando estes dados, com Fedorov a exigir eleições na Ucrânia, a admitir que a derrota ucraniana pode acontecer a qualquer momento, se não acontecer um "golpe de asa", e com Zelensky a confirmar a superioridade balística russa, a que o major-general Agostinho Costa chama mesmo de "supremacia aérea"...

... facilmente se percebe que o director da CIA, mesmo que não fosse o único, tinha este assunto na agenda quando voou para Moscovo, até porque o Presidente Trump não se pode dar ao luxo de ir para as eleições intercalares de Novembro com uma derrota desastrosa na Ucrânia às costas.

Isto, quando o Partido Republicano de Trump está em vias, segundo a maioria das sondagens, de ter uma derrota histórica, perdendo a maioria nas duas câmaras do Congresso, Representantes e Senado.

E, com um desastre no Golfo Pérsico a desenrolar-se nas páginas dos jornais de todo o mundo, onde está a acontecer um novo recuo de Donald Trump na sua ruidosa ameaça do "Dia D Económico" contra o Irão, a Ucrânia não pode desmoronar-se igualmente neste melindroso período eleitoral nos EUA.

Volodymyr Zelensky tem pedido insistentemente mais e mais mísseis anti-aéreos Patriot aos EUA e aos seus aliados ocidentais, avançando com pelo menos 300 para a Ucrânia poder atravessar o Inverno sem ceder a Moscovo.

Nem os EUA nem os aliados de Kiev da NATO possuem Patriot para fornecer a Zelensky sem desfalcar as suas próprias defesas mínimas, porque a produção destes sistemas é lenta e cara e as duas guerras, Ucrânia e Irão, obrigaram a usar milhares destes projectéis interceptores, depauperando os stocks em todo o mundo...

Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, com vários livros sobre ambos os conflitos, admite que este momento é particularmente difícil para Kiev e para os seus aliados.

E isso porque, à medida que as necessidades militares ucranianas se avolumam, e a retórica ocidental aumenta de volume contra Moscovo, a capacidade de fornecer apoio militar decresce e a Rússia ganha músculo na linha da frente e através da sua superioridade balística.

Ainda esta semana, na segunda-feira, 24, dezenas de líderes europeus e norte-americanos foram a Kiev comemorar o 35º aniversário da independência da Ucrânia, com os discursos a mostrar um músculo no apoio incondicional e ilimitado a Zelensky que, depois, no terreno, como notava Agostinho Costa, se traduz em nada ou quase nada.

O que vem dar corpo não apenas às palavras de Mikhail Fedorov, como sustenta a tese de que John Ratcliffe foi a Moscovo procurar soluções para o imbróglio eleitoral de Donald Trump, sendo um pilar dessas garantias que a resistência da Ucrânia não se desmorona nestes dois meses e meio que falta para as eleições intercalares de Novembro.

O semi-anonimato da visita surpresa de Ratcliffe a Moscovo, sobre a qual nem a CIA nem a Casa Branca se pronunciaram ainda, 24 horas depois de ter acontecido, acontece quando, como recorda The Washington Post, os EUA e a Rússia estão totalmente em lados opostos nos dois grandes conflitos que decorrem nesta altura, a Ucrânia e o Irão.

Mas em Moscovo o Kremlin falou, embora sem revelar nada que não se soubesse já. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, confirmou a visita e enquadrou-a no contexto dos contactos bilaterais entre as secretas russa e norte-americana, acrescentando, segundo a TASS, que ainda, nesta quarta-feira, 26, - a visita foi ontem, terça, 25, - é cedo para perceber os resultados desses contactos.

E Peskov usou uma expressão curiosa ao referir que nesse contexto de ser cedo para se perceber o alcance desta visita, ela seria ou não suficiente para tirar as relações russo-americanas da "crise profunda" em que se encontram, mesmo que seja apenas criar linhas de comunicação que foram fechadas nestes últimos anos e podem ser vitais para evitar que um mal-entendido possa resvalar para uma situação de maior perigo e melindre entre as duas maiores potências nucleares do mundo.

Isto, sabendo-se que Ratcliffe se encontrou com Sergei Naryshkin, que é o responsável pelo SVR, os serviços de inteligência externa da Federação Russa, o equivalente à CIA, sendo ainda como é uma figura com influência sólida no Conselho de Segurança do país e acesso privilegiado a Vladimir Putin.

O que se retira destas palavras de Peskov é que, face às evidências, o Kremlin estava "obrigado" a falar da passagem de John Ratcliffe, a primeira visita de um chefe da CIA a Moscovo em cinco anos, mas sem sobre ela acrescentar nada que seja além do óbvio.

Entretanto, numa segunda leitura desta visita do director da CIA a Moscovo ganha igualmente dimensão de análise obrigatória as recentes declarações claramente inamistosas entre o Governo russo e o Reino Unido, o país europeu mais empenhado em desafiar abertamente o Kremlin, anunciado o apoio total de Londres a Kiev.

Além de ser já público que Londres fornece uma boa parte dos drones de longo alcance com que os ucranianos fustigam a Rússia em profundidade, incluindo a vertente civil comercial, o novo primeiro-ministro Andy Burnham veio com uma novidade que Moscovo e Washington têm de ver com preocupação.

O Reino Unido e a França vão, apesar de haver fontes que dizem tratar-se de bluff, fornecer a Kiev os segredos da tecnologia de produção dos mísseis Storm Shadow, ou Scalp, na versão francesa, um dos elementos que levou, por exemplo, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, a advertir Londres para o risco de estarem a ir longe demais.

Sergei Lavrov disse mesmo que o Reino Unido está a caminhar de forma acelerada para a condição de alvo legítimo enquanto co-beligerante contra a Federação Russa ao lado da Ucrânia, o que não pode deixar serenos os norte-americanos como os mais chegados aliados dos britânicos em todo o mundo.

Com um crescente movimento entre a classe mais influente nos corredores da política russa que defende um endurecimento abrasivo da retórica e da acção de Moscocvo face ao ocidente mais empenhado no apoio a Kiev, Washington ter-se-á assustado com a possibilidade de na capital russa estar a ser desenhado uma medida radical para garantir que Moscovo não está para mais brincadeiras.

Isto quando é conhecido que há mesmo quem, entre as mais influentes e mediáticas personalidades, como o famoso apresentador de TV Vladimir Solovyov ou o Sergei Karaganov, um sociólogo e analista político, defendam o uso preventivo de armas nucleares tácticas contra a ousadia britânica.

E o mesmo foi já dito do outro lado, com o ex-ministro da Defesa do Reino Unido, Bem Wallace, a defender que Kiev tem de, com o apoio dos países da NATO, infligir fortes danos em Moscovo, e toda a infra-estrutura energética russa para "obrigar Putin a ceder".

Esta escalada na retórica entre Rússia e os países europeus, como sublinhava esta semana Larry Wilkerson, antigo coronel e chefe de Gabinete do ex-secretário de Estado Collin Powell, na Administração Bush, é um incómodo para Washington porque os EUA não teriam como ficar de fora num cenário de ataques directos entre russos e europeus.

E nem seria devido ao Artigo 5º da NATO; seria porque se os EUA não reagissem com determinação, perderiam o resto do respeito e poder de dissuasão que ainda têm no mundo mas que é crescentemente diminuído com os erros estratégicos de Donald Trump nos conflitos no Médio Oriente...

A hipótese de John Ratcliffe ter ido simplesmente a Moscovo ameaçar directamente Putin para sair de cena no apoio ao Irão e convencer o seu amigo chinés Xi Jinping a fazer o mesmo, é outra possibilidade que corre pelos media internacionais e nas redes sociais, mas tem alicerces fracos e superficiais para que possa ser levada a sério.