É legítimo partir do pressuposto de que se nem russos nem norte-americanos explicam porque é que John Ratcliffe foi a Moscovo sem se fazer anunciar, é porque querem esconder o que realmente aconteceu durante a sua estadia na capital russa.

Há cinco anos que um director da CIA não ia a Moscovo, e agora que aconteceu, este deslocou-se num gigantesco avião militar da Força Aérea dos EUA, um C-17 Glomaster III, uma "baleia dos céus", dos maiores da frota de longo alcance, sem anunciar a visita.

Questão que leva a que analistas em todo o mundo estejam ainda a procurar interpretar o que se está a passar, de forma a eliminar as teses mais próximas da ficção e da conspiração mais ousada.

John Ratcliffe não anunciou a visita mas foi num avião que sabia que não passaria desapercebido, Logo, o director da CIA queria que se soubesse que estava a chegar a Moscovo e o facto de não anunciar a visita é um velho e conhecido truque para acirrar ainda mais a curiosidade jornalística.

Isto, num momento em que EUA e Rússia atravessam um dos períodos mais tensos de sempre, com Washington e Moscovo em lados diferentes das "trincheiras" em duas guerras que podem mudar os destinos do mundo, no Leste europeu e no Médio Oriente.

Independentemente de ser quase tudo especulação, como notam vários analistas, entre estes o coronel Douglas MacGregor, antigo conselheiro do Presidente norte-americano, na primeira passagem de Donald Trump pela Casa Branca, há pontos que não são.

Como, por exemplo, o facto de os EUA serem os principais aliados do Reino Unido, de Londres estar na fase mais abrasiva com a Rússia, fornecendo abertamente as armas mais eficazes nos ataques ucranianos na profundidade russa, e de em Moscovo ser crescente a vaga de fundo que defende um ataque de aviso em território britânico.

Esta descrição não é especulação, é um facto, e parece mesmo muito que Londres está a pressionar Moscovo para que o Kremlin dê um passo em falso que obrigaria os EUA a entrar em cena, porque essa é, como sublinham igualmente vários analistas, a única forma de impedir o colapso militar e político da Ucrânia.

John Mearsheimer, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, e um dos mais respeitados analistas de política e geoestratégia globais, entende que os britânicos demonstram estar de tal modo empenhados no conflito que não descartam uma escalada que comprometa perigosamente um confronto EUA-Rússia.

Um dos exemplos que dá conteúdo a este involucro especulativo é que nas últimas horas, ainda o rasto do avião que levou Ratcliffe de Moscovo de volta a Washington era visível nos céus da Rússia, e os ucranianos atingiam com especial violência a cidade "russa" de Donetsk, na área urbana civil, com pelo menos oito misseis Storm Shadow fornecidos por Londres.

Alias, o primeiro-ministro britânico, Andy Durnham, foi o único chefe de Governo dos grandes países da NATO a estar em Kiev na segunda-feira, 24, para as comemorações dos 35 anos da independência da Ucrânia, onde voltou a frisar que o Reino Unido vai manter o apoio ilimitado e até onde for preciso para derrotar a Rússia.

Isto, quando em Moscovo algumas das figuras mediáticas mais conhecidas e influentes, como Vladimir Solovyov, apresentador de televisão, Sergei Karaganov, analista político, e o próprio Dmitry Medvedev, actual vice-presidente do Conselho de Segurança Nacional e ex-Presidente da Rússia, defendem abertamente o uso das armas mais sofisticadas do arsenal russo contra as indústrias europeias de armamento que municiam a Ucrânia.

Outro elemento que não é especulativo é que em Moscovo esta retórica agressiva tem sido apresentada a par de uma posição mais cerebral do Presidente Vladimir Putin, como se se tratasse do jogo do polícia bom e do polícia mau... com a Europa.

Mas algo terá mudado nos últimos dias, ou mesmo semanas, com a cada vez maior capacidade ucraniana de atingir alvos na profundidade russa, alguns a mais de 2500 kms da fronteira ucraniana, com armas e tecnologia fornecidas pelos países europeus da NATO; de onde se destaca o Reino Unido.

Alias, o primeiro-ministro britânico anunciou mesmo em Kiev, na sua recente visita, que iria, com a França, fornecer aos ucranianos a tecnologia secreta do fabrico dos mísseis Storm Shadow, Scalp, na versão francesa, naquilo que é uma inequívoca escalada do empenho europeu nesta guerra com a Federação Russa.

Com as eleições legislativas à porta, Vladimir Putin está a sentir a pressão da guerra na massa eleitoral do seu Partido, o Rússia Unida, desde logo com as longas filas de carros nos postos de abastecimento, onde este escasseia cada vez mais, devido aos drones ucranianos produzidos com tecnologia europeia que queimam uma após outra as refinarias russas.

A isso somam-se os ataques britânicos, franceses... aos petroleiros da chamada frota fantasma da Rússia, afectando drasticamente o comércio de petróleo russo no mundo, baixando os recursos financeiros com impacto cada vez maior na vida diária do cidadão da classe média na Federação.

Um cenário insustentável para Putin conseguir manter os seus falcões de guerra com as garras retraídas, e com o próprio chefe do Kremlin a sentir o aperto de ter de agir mais cedo que tarde, como começa a ser notado nas suas recentes intervenções públicas, onde uma acção mais musculada foi já mesmo por ele admitida como inevitável.

E tudo aponta para que os preparativos visando uma acção mais ousada por parte da Rússia tenham sido detectados pela intelligentsia norte-americana, o que fez o director da CIA voar para Moscovo no primeiro avião que encontrou, quase sem se fazer anunciar.

Obviamente que, se este cenário se vier a revelar verdadeiro, na sua totalidade ou parcialmente, John Ratcliffe foi a Moscovo tentar algo que não conseguiu, ou se conseguiu, não parece, porque esteve apenas cerca de cinco horas na capital russa, onde não terá chegado a falar com Putin...

Noutra versão, Putin esteve 10 minutos com Ratcliffe, disse duas frases sem margem para dúvidas, levantou-se e foi embora, deixando o director da CIA aflito para voltar ao seu C-17 Globemaster III e voar dali para fora.

Sabe-se que assim que aterrou em Washington, Ratcliffe reuniu com o secretário da Guerra, Pete Hegseth, e com o secretário de Estado e Conselheiro para a Segurança Nacional do Presidente, Marco Rubio, ainda antes de qualquer encontro com Donald Trump.

O que vai suceder nos próximos dias ou semanas, se, como algumas fontes apontam, a Rússia vai mesmo mobilizar em larga escala para uma ofensiva definitiva sobre a Ucrânia, se haverá um aviso escaldante em território da NATO, se a dimensão dos ataques balísticos a Kiev (o mais certo) vai aumentar exponencialmente, só o tempo o dirá.

Mas nem em Kiev nem em Londres parece ter emergido qualquer temor pelo que o Kremlin poderá fazer a seguir.

É que o Governo britânico forneceu os Storm Shadow que caíram sobre Donetsk logo após a saída de Ratcliffe de Moscovo, e o Presidente Volodymyr Zelensky foi à frente de combate ameaçar a Rússia de novas e mais poderosas acções militares contra a Federação Russa...

Se existe um cenário para dar credibilidade a um filme de ficção sobre o começo de uma guerra entre a NATO e a Rússia, este não seria dos atirados fora à primeira vista por um guionista experimentado de Hollywood.

Mas há uma tese mirabolante a que poderá ter de se dar alguma atenção no futuro: a de que John Ratcliffe não foi sozinho a Moscovo. O próprio Donald Trump terá ido num "saltinho" à capital russa para um muito breve téte-à-téte com o seu "amigo" Vladimir Putin, até porque entre o aeroporto e o Kremlin, a deslocação foi feita numa caravana de dezenas de viaturas protocolares... excessivo para um "simples" director da CIA.

E ainda há pouco mais de uma semana, Trump saiu da Turquia num avião militar depois de ter deixado o Air Force 1 escondido num camião de catering, alegadamente devido a uma ameaça contra o avião Presidencial.