Depois das duas primeiras edições, em Sochi (2019) e São Petersburgo (2023), a terceira Cimeira reuniu delegações de 48 dos 54 países Africanos, com 22 países representados ao nível de Chefes de Estado. A reunião foi co-presidida por Vladimir Putin e pelo Presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, igualmente Presidente em exercício da União Africana. A presença do Presidente da Comissão da União Africana, Mahamoud Ali Youssouf, reforçou a dimensão institucional do encontro, embora não se deva confundir as funções distintas dos dois Presidentes.
A primeira leitura política a retirar é que Moscovo pretendeu demonstrar que continua a dispor de interlocutores e aliados fora do espaço euro-atlântico. A guerra na Ucrânia, as sanções ocidentais e o desgaste das relações com os EUA e a União Europeia não impediram a Rússia de procurar consolidar a sua presença em África. Pelo contrário, tornaram o Continente ainda mais importante para a sua estratégia de diversificação de parcerias e projecção de poder.
Para esse efeito, Vladimir Putin voltou a recorrer à memória histórica da União Soviética, evocando o apoio prestado aos movimentos de libertação Africanos e a solidariedade com vários Estados recém-independentes. Esta narrativa tem uma ressonância particular em Angola, Moçambique e noutros países com história ligada à cooperação soviética. Todavia, importa perguntar: até que ponto a memória de uma solidariedade passada pode continuar a determinar as escolhas diplomáticas do presente?
A resposta deve ser inequívoca: a história merece reconhecimento, mas não pode constituir uma obrigação de alinhamento permanente. A Rússia contemporânea não é a União Soviética, tal como os Estados Africanos de hoje não são os países dos anos 1960 e 70. África mudou, os seus interesses diversificaram-se e a sua margem de decisão deve ser exercida sem condicionamentos ideológicos.
É neste contexto que a retórica russa contra o neocolonialismo ocidental merece uma análise crítica. Moscovo apresenta-se como defensora de uma ordem internacional multipolar e menos dependente das antigas potências coloniais. Recordemos que a Rússia contribuiu para esse afastamento quando, entre 2022 e 2025, vários países do Sahel (Mali, Burquina Faso e Níger) romperam acordos militares com a França após golpes de Estado e se aproximaram de Moscovo. Trata-se de uma reivindicação com eco em África, onde persistem assimetrias económicas e relações desequilibradas.
Porém, a coerência dessa mensagem fica seriamente comprometida quando confrontada com a invasão russa da Ucrânia e a violação da soberania de um Estado independente. A invasão de 2022 já tinha sido precedida pelas acções na Geórgia em 2008 (Ossétia do Sul e Abkházia, que representam cerca de 20% do território georgiano) e na Ucrânia (anexação da Crimeia em 2014, aproveitada por russófilos de Donetsk e Lugansk para autoproclamarem a independência em referendos não reconhecidos).
Não se pode condenar o imperialismo de uns e relativizar o expansionismo de outros. A soberania não é um princípio aplicado por conveniência económica ou simpatia política. A guerra na Ucrânia expõe uma contradição incontornável entre o discurso russo de respeito pela soberania e a sua própria conduta internacional. Também os ataques contra cidades e infra-estruturas civis ucranianas (habitações, hospitais e escolas) colocam em causa a narrativa de uma potência defensora da estabilidade. A política militar da antiga União Soviética caracterizava-se por considerar estas infra-estruturas como meios militares para o desgaste psicológico das populações.
Dos discursos aos interesses concretos
No plano económico, o "Plano de Acção entre a Comissão da União Africana e a Federação Russa para 2027-2029" prevê cooperação em 19 áreas, abrangendo paz e segurança, agricultura, energia, transportes, saúde, educação, inteligência artificial e cibersegurança. Foram igualmente destacadas oportunidades na energia nuclear civil, através da Rosatom - empresa pública russa responsável pelo sector nuclear civil e militar -, e na formação de quadros.
Estes compromissos podem representar oportunidades relevantes nas áreas de segurança alimentar, fertilizantes e energia. Contudo, a questão fundamental reside na sua execução, financiamento, transparência e impacto efectivo. Importa distinguir declarações de intenção de compromissos concretos: a experiência Africana demonstra que a assinatura de documentos só ganha significado quando se traduz em resultados mensuráveis.
Há ainda uma dimensão política: a Rússia procura consolidar a sua presença no domínio da segurança e da cooperação militar com governos em instabilidade. A presença russa no Sahel - em particular nos Estados da Aliança dos Estados do Sahel (AES) - e as controvérsias associadas a estruturas paramilitares ligadas a Moscovo mostram que a influência não se exerce apenas pela diplomacia. Os Estados Africanos devem avaliar as consequências dessas parcerias, salvaguardando a sua autonomia institucional.
A geopolítica das ausências e o caso angolano
A participação de 48 países demonstra a capacidade de convocação de Moscovo, mas a ausência de alguns Chefes de Estado, ou a opção por delegações ministeriais, revela que a presença não deve ser confundida com adesão política incondicional.
No espaço lusófono, Moçambique esteve representado pelo Presidente Daniel Chapo, enquanto Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau optaram por outros níveis. No caso angolano, o Presidente João Lourenço fez-se representar pelo Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil, Dionísio Manuel da Fonseca. Esta escolha não constitui prova de ruptura diplomática com Moscovo - ainda que o mais alto representante russo no País não tenha ainda tomado posse, apesar da nomeação ratificada. Contudo, o nível de representação comunica prioridades e opções políticas.
A ausência do Chefe de Estado Angolano ganha significado à luz do reposicionamento externo de Luanda. Angola tem procurado diversificar relações, aprofundando a cooperação com os EUA e a União Europeia, sem abandonar parceiros tradicionais. O "Corredor do Lobito", pela sua importância na circulação de mercadorias da África Central aos mercados internacionais, é um exemplo desta dimensão estratégica. Trata-se de alargar a capacidade de negociação e diversificar investimentos, afirmando os interesses nacionais acima de fidelidades herdadas da Guerra Fria.
Neste quadro, merece atenção a tensão diplomática relativa a cidadãos russos detidos e condenados em Angola por crimes de espionagem e terrorismo. A reacção de Moscovo introduziu fricção bilateral, mas a questão deve caber às instituições judiciais angolanas, com independência e aplicação da lei. A nacionalidade não pode constituir privilégio ou discriminação. A evocação, por Vladimir Putin, de uma suposta «irmandade sanguínea» deve ser entendida como tentativa de mobilizar a memória histórica, mas a amizade entre Estados mede-se pelo respeito mútuo e por relações equilibradas no presente.
África como sujeito, e não como terreno de disputa
A III Cimeira Rússia-África revelou os limites e as possibilidades da influência russa. Moscovo reuniu delegações e apresentou uma agenda diversificada, mas a participação Africana não significa adesão incondicional nem a constituição de um bloco alinhado contra o Ocidente.
A África contemporânea não deve ser obrigada a escolher entre grandes potências. Tem o direito de relacionar-se com a Rússia, os EUA, a China, a União Europeia, a Índia ou a Turquia, desde que tais relações respeitem a sua soberania. A liberdade de escolha só se transforma em autonomia quando acompanhada por capacidade de negociação, instituições sólidas e coerência na defesa do Direito Internacional.
O desafio exige uma visão estratégica comum para transformar o peso demográfico, económico e geopolítico do Continente em influência efectiva. A União Africana e as organizações regionais têm um papel determinante na definição de prioridades e na defesa dos interesses Africanos.
Em suma, o êxito da cooperação Rússia-África - tal como o de outros fóruns, como a 2.ª Conferência Ministerial no Egipto em Dezembro de 2025, com 52 países - será medido por resultados concretos. Mais do que escolher entre Moscovo, Washington DC., Pequim ou Bruxelas, o desafio histórico do Continente é afirmar África, os seus interesses, o seu desenvolvimento e a sua autonomia de decisão.
O problema está, e continua a estar, na sistemática inoperabilidade de alguns dos seus dirigentes...
*Investigador e Pós-Doutorando
