Optámos por regressar agora ao tema, visto que não perdeu actualidade. Pelo contrário, os acontecimentos subsequentes confirmaram que a RDC continua no centro das preocupações regionais, com novos desenvolvimentos nos planos político, diplomático e de segurança. A instabilidade mantém-se, os riscos acumulam-se e o papel dos actores regionais, com destaque para Angola, ganhou maior visibilidade, impondo uma leitura de continuidade e não de abordagem episódica, a um dos dossiers mais sensíveis do equilíbrio regional.
Após a crónica de Dezembro, dois factos políticos passaram a dominar o dossiê, ambos com Luanda como palco central, logo em Janeiro deste ano. O primeiro foi a visita de trabalho do Presidente da RDC, Félix Tshisekedi, a Angola, para abordar directamente com João Lourenço a situação de segurança no Leste congolês e os caminhos possíveis para a pacificação da região. A deslocação confirmou a continuidade do diálogo ao mais alto nível e o reconhecimento, por parte de Kinshasa, do papel do Estado angolano como parceiro político e mediador regional num dossiê sensível e ainda longe de solução.
Na semana seguinte, Luanda voltou a assumir protagonismo com a visita de uma comissão de bispos da Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO), acompanhada por representantes da Igreja de Cristo no Congo. A delegação foi chefiada por Dom Fulgence Muteba Mugalu, arcebispo de Lubumbashi e presidente da CENCO, e integrou, entre outros responsáveis, o secretário-geral da Conferência Episcopal, Monsenhor Donatien Babula Nshole. Recebidos por João Lourenço, enquanto presidente em exercício da União Africana, os líderes religiosos estão a trabalhar para uma proposta de diálogo para o Leste da RDC, sublinhando a necessidade de envolver todas as partes no conflito e reconhecendo o papel central de Angola no esforço de mediação regional.
A situação de segurança no Leste congolês mantém-se volátil, com o recrudescimento da actividade do M23, o agravamento da crise humanitária e a persistência de tensões entre Kinshasa e Kigali. Milhões de deslocados internos, populações expostas à violência armada e a fragilidade contínua caracterizam uma região que permanece instável há vários anos, com consequências que ultrapassam largamente as fronteiras da RDC.
A extensa fronteira comum, a circulação transfronteiriça de pessoas e bens e a pressão migratória fazem que cada agravamento da situação no Leste congolês se traduza em desafios acrescidos para as províncias angolanas limítrofes. A insegurança na RDC é um factor concreto de risco para a estabilidade regional.
Para além das razões geopolíticas, existe uma dimensão histórica. Durante a Luta de Libertação Nacional, o povo congolês esteve ao lado de Angola, acolhendo combatentes, apoiando estruturas do movimento de libertação e oferecendo retaguarda política e humana num dos períodos mais decisivos da nossa história. Esta solidariedade, prestada em tempo de dificuldade, criou laços que ultrapassam conjunturas políticas e impõem uma memória de responsabilidade mútua entre povos irmãos.
Não se trata apenas de diplomacia ou de equilíbrio regional, mas de coerência histórica e de reconhecimento de uma relação construída na adversidade. Ao apoiar os esforços de pacificação do Congo, Angola honra o passado, protege o presente e contribui para um futuro regional mais estável.
*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto
A RDC e a fragilidade do equilíbrio regional II
Na última crónica do ano, de Dezembro passado, dedicámos esta coluna à situação da República Democrática do Congo (RDC), num momento em que o Presidente Félix Tshisekedi procurava reabrir canais de diálogo interno, envolvendo a juventude congolesa num exercício pouco habitual de escuta política directa. Na altura, enquadrámos o gesto no contexto regional, marcado por fragilidades estruturais, tensões persistentes no Leste do país e pela necessidade de respostas que ultrapassassem o plano simbólico.

