O MPLA e o Executivo usam mimetismo ao adoptar a linguagem e parte das agendas de descentralização, transparência e agricultura familiar, historicamente defendidas por governos progressistas, parceiros externos e sociedade civil angolana, incorporando-as em programas e leis. Na leitura oficial, é adaptação pragmática para modernizar o Estado; na leitura crítica, isso serve para conter a pressão e ocupar o espaço discursivo sem alterar a estrutura de poder. A diferença entre mimetismo e mudança real mede-se por indicadores de efeito e impacto.
O mimetismo permitiu ao MPLA modernizar o quadro legal e alinhar-se com a agenda internacional, ganhando legitimidade externa e esvaziando parte da crítica. No cacimbo de 2024, a propósito do lançamento da antologia Angola Pós - Dos Santos (www.cmi.no), um conceituado analista da economia política angolana afirmou que o Presidente João Lourenço havia ganho credibilidade internacional. Mas a realidade mostra resultados preocupantes: ganhos pontuais na inflação e na agricultura familiar, mas sem inverter a dependência da importação (importações 17 vezes superiores às exportações do PRODESI), a pobreza rural e a centralização do poder económico e político.
O Banco Mundial reviu em baixa a previsão de crescimento de Angola para 2,4%, em 2026, e estima que se mantenha abaixo de 3%, em 2027, devido à evolução do sector petrolífero e ao impacto dos choques externos. A projecção consta do relatório Africa Economic Update, intitulado "Making Industrial Policy Work in Africa", e aponta que o PIB per capita, em 2026, deve permanecer abaixo do PIB de 2014, mais de 25% . Para tal, foram determinantes a contracção contínua do sector petrolífero e os sucessivos equívocos de uma governação e gestão incompetente e errática, digo eu. Em Angola, o investimento per capita situa-se cerca de um quinto abaixo do nível de 2014, com o investimento público a contrair mais do que o privado. "A falta de aprofundamento do capital físico é agravada por um desenvolvimento insuficiente de competências e capacidades técnicas, limitando os ganhos de produtividade", lê-se no documento assinalado. A recuperação modesta esperada para 2026 será insuficiente para impulsionar o crescimento global do País e mitigar os efeitos do crescimento demográfico.
Em 2022, quem decide decidiu: "Vamos produzir mais e comunicar melhor". A frase saiu pronta para ressonância. Quem ouviu pela primeira vez poderá ter sentido um arrepio de esperança, porque alguém dizia em voz alta o que a dona do Trinta sussurra há anos: "Isto aqui não produz. E quando produz, ninguém sabe". Produzir mais é uma promessa que pesa...é como o saco de arroz importado que chega ao porto, é como o tractor que não funciona por falta de qualquer coisa, é como a enxada do camponês que não vê crédito nem estrada. Produzir mais é suar. É acordar às seis, é perder colheita "através" da chuva ou da falta de comprador.
Depois vem "comunicar melhor". Comunica-se de gravata, de ar condicionado, de PowerPoint. Através de meios que exigem internet que funciona como o comboio de Malanje. Comunica-se com números redondos e gráficos sempre a subir. Comunica-se sem se molhar na chuva. O Executivo começou a comunicar melhor antes de produzir mais. Criou portais e o CIPRA, encheu o ecrã de metas esperançosas e agora diz "Angola daqui prá frente". Como se fosse possível apagar o passado ou a história do Amílcar Xavier! E cada vez que alguém pergunta pelo saco de fuba barato, o Executivo responde com um gráfico bonito. A crónica da rua diz que não basta dizer que se vai cozinhar o funje. É preciso pôr a panela no fogo. E se o fogo não acende, de nada adianta descrever o cheiro do molho.
"Produzir mais e comunicar melhor" podia ser um bom programa. Acabou por ser um espelho. Mostrou que o poder sabe que lhe falta produção e que acha que a comunicação pode tapar o buraco. Só que barriga vazia não ouve PowerPoint!
Na tragédia do Cavaco, em Benguela, a comunicação social pública fez o que sabe fazer melhor: chegou tarde, falou pouco, e quando falou, falou à toa. Aconteceu o que acontece quando multidões são empurradas para um espaço sem saída. E enquanto lá em baixo o chão ficava vermelho, cá em cima a televisão pública mostrava imagens de longe, ângulo largo, sem rosto, sem nome. O telejornal abriu com a agenda do governador e a chegada festiva dos ministros. O acidente veio depois, como nota de rodapé. "Tragédia!", disseram. "Vai ser criada uma comissão para apurar responsabilidades".
É aí que está o problema da comunicação social pública: ela não informa, ela gere a dor de acordo com os interesses do poder. Ela não dá voz à mãe que perdeu o filho na lama do Cavaco. Dá voz ao comunicado do gabinete. Ela não pergunta "porque é que as lições de 2015 não foram aprendidas?". Pergunta "qual é a mensagem do senhor ministro?". E assim a tragédia vira estatística. Os mortos, subestimados, viram "números lamentáveis". Os sobreviventes viram "feridos em observação" e servem para encher o telejornal. O público, esse, fica com a sensação de que viu um filme mudo. A comunicação social pública tem um dever que não é estético, é ético: dar nome aos mortos antes de dar palco aos vivos. Mostrar a queda antes de mostrar o discurso. Fazer perguntas que doem, mesmo que causem desconforto. Porque, quando a TV do Estado só comunica para cima, ela deixa de ser pública. Passa a ser privada do poder. Por isso, é errado dizer que não há televisões privadas em Angola. Há três: uma privada do Estado, outra privada que o Estado gere e uma privada do MPLA. E o povo, que paga a televisão com o imposto que não tem, fica a ver a própria tragédia como se fosse coisa de outro país.

Mas há mais mimetismo e manipulação. A vala apareceu agora, mas os corpos estavam lá há quase 50 anos. Ou não. A comunicação social pública soube disso quando o Executivo decidiu que era altura de saber. Antes disso, silêncio. Depois disso, nenhuma explicação sobre como eles foram lá parar. E é esse o papel que lhe cabe nestas coisas: ser a voz daquilo que o poder resolve lembrar. Não a memória do País, mas o memorando do governo. No dia da "descoberta", as câmaras chegaram arrumadas, com plano de enquadramento e microfone limpo. Mostraram o chão aberto, as cruzes, os discursos. Mostraram o luto oficial, bem vestido, bem falado. Até um chefe disse que era uma alegria ou satisfação. O que não mostraram foi o luto que não tem fato: a filha que passou a vida sem saber onde o pai foi enterrado, o irmão que perguntou durante décadas e ouviu "não sabemos". A TV pública não foi atrás dessa gente. Foi à frente do ministro. Não perguntou "quem escondeu isto durante 50 anos?". Perguntou "qual é a mensagem de reconciliação, senhor ministro?". E assim, a vala deixa de ser crime e vira capítulo. Capítulo 27 de Maio, ou 28, edição 2025, narrada com plano fechado no rosto compungido da autoridade. O problema não é noticiar. O problema é noticiar só quando dá para controlar a narrativa. Quando a verdade aparece por agenda, ela chega sem cheiro a terra. Uma comunicação social pública que se respeite não espera o Estado desenterrar os mortos para falar deles. Ela pergunta todos os dias onde estão os mortos e os porquês. Porque o X não é só como o imperialismo. Porque memória e reconciliação que só aparecem quando convém, não é memória, nem reconciliação. É propaganda com ossos.

+Engenheiro agrónomo e fundador da ADRA