Nesta conformidade, parto do pressuposto de que os angolanos, que aqui designo por alforriados da pobreza (não pobres), têm o dever de fazer um pouco mais, para reverter o quadro de pobreza em que jaz grande porção dos nossos concidadãos. Certamente, o leitor vai perguntar como se pode ajudar os mais pobres, sem capacidade de influenciar a definição de políticas públicas? Entretanto, pequenas acções, podem contribuir para que muitas pessoas revertam o quadro de pobreza a que estão sujeitas, sendo o meu compromisso neste texto, partilhar com o leitor a minha perspectiva.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) "a pobreza é uma condição caracterizada pela privação severa das necessidades humanas básicas, incluindo alimentação, água potável, saneamento, saúde, habitação, educação e informação. A pobreza depende não apenas do rendimento, mas também do acesso a serviços." À luz desta definição, por aqui vemos que se calhar muito mais de 46% da população vive na condição da pobreza. A ONU, passou a encarar a pobreza como um fenómeno multidimensional. Assim, uma pessoa pode não estar em pobreza extrema monetária e, ainda assim, ser considerada pobre se não tiver acesso a: i) educação de qualidade; ii) cuidados de saúde; iii) água potável; iv) saneamento básico; v) emprego digno; vi) habitação adequada; vii) participação social e política. É nesta perspectiva que devemos entender o trabalho do economista Amartya Sen, que refere que, a pobreza não é apenas falta de rendimento; é a privação das capacidades necessárias para que as pessoas possam viver a vida que valorizam.
A literatura da economia do desenvolvimento enfatiza três factores indutores de pobreza: i) as calamidades naturais (seca, enxurradas ou cheias, terramotos, etc.); ii) as decisões de ordem política, adoptadas com o objectivo de influenciar o crescimento económico, mas que, por vezes, tendem a agravar o quadro que se pretende reverter (irei abordar um pouco mais sobre a temática); e iii) as decisões pessoais. Os efeitos dos desastres naturais acontecem e causam imensos prejuízos, as pessoas que já se encontram em situação de vulnerabilidade acabam por ser arrastadas para condições ainda mais severas de pobreza extrema. Em Angola temos assistido calamidades que desarticulam sobre maneira a vida das pessoas, agravando a situação de pobreza em que já se encontram muitas pessoas.
Vale a pena ressaltar que as decisões de ordem política são, regra geral, tomadas com pretensão de melhorar as condições de vida das pessoas. Porém, na maior parte das vezes, acabam por aprofundar o estado a que se propunham inverter. Vejamos um exemplo. Os decisores de política económica de Angola, têm perseguido a estabilidade macroeconómica há mais de oito anos, com o lançamento do Programa de Estabilização Macroeconómica (PEM), lançado em 2018. Acompanhando a evolução dos principiais indicadores macroeconómicos (taxa de crescimento, inflação e emprego) durante este período, verificamos que se afundou, o que empurrou milhares de pessoas para situação de pobreza extrema. Constata-se, igualmente, que o poder de compra das famílias reduziu-se substancialmente neste período. Portanto, pretendeu-se estabilizar a economia para impulsionar o crescimento económico, perseguindo maior criação de riqueza. Mas o resultado, como se sabe, não evidência progressos suficientemente satisfatórios naqueles domínios.
Em terceiro lugar, temos as decisões pessoais. Aqui, acredito que se pode fazer alguma coisa, pois é o único factor que se controla. Muitos dirão que é muito difícil. Na verdade, a vida sempre foi difícil, salvo raras excepções de pessoas que nascem no seio de famílias abastadas. A grande maioria nasce em meios que exige a tomada de decisões no presente que potenciem o bem-estar futuro. As decisões dos jovens em adquirir mais conhecimentos, aprender uma profissão, seguir os conselhos dos pais na sua formação. Na maioria das vezes depende de nós mesmo, mas nem sempre damos os passos necessários para os concretizar. Esse tempo do cacimbo no interior, preferem ficar na cama, em vez de acordar cedo e estudar. Quantos estudantes faltam às aulas para ir ficar com os amigos na conversa ou fazendo outras coisas fúteis? Por conseguinte, o meu foco recai sobre este factor indutor da pobreza, porque depende de cada indivíduo. A vida é difícil, mas há quem está a prosperar neste marasmo de dificuldades. Por que será que alguns prosperam e outros se limitam a reclamar das dificuldades, ou culpar a pouca sorte? Por que é que uns são prósperos e outros não?
Nessa perspectiva, o que podem então fazer aqueles que aqui chamo de alforriados da pobreza (não pobres), para ajudar os mais desfavorecidos a reverter o quadro de pobreza extrema em que se encontram? No meu entender, no contexto angolano, a contribuição mais transformadora das pessoas não pobres não é necessariamente dar dinheiro, mas transferir conhecimento, oportunidades, disciplina produtiva e redes de relacionamento. Vejamos a seguir algumas dessas contribuições, aparentemente modestas, mas muito efectivas:
1. Mentoria e orientação profissional - A grande maioria de pessoas em situação de pobreza não tem acesso a referências profissionais que lhes permitam visualizar caminhos concretos para o seu desenvolvimento pessoal e profissional. Um empresário, professor, funcionário público, engenheiro ou agricultor bem-sucedido pode orientar jovens na escolha de carreiras, ensinar como procurar emprego; ajudar na elaboração de currículos; transmitir hábitos de trabalho e organização. A pobreza não é apenas falta de rendimento; muitas vezes é também falta de informação sobre oportunidades existentes.
2. Partilha de competências práticas - Em Angola, existe uma grande procura por competências técnicas. Pessoas com experiência podem ensinar gratuitamente: carpintaria; electricidade; canalização; mecânica; agricultura; informática; contabilidade básica e empreendedorismo. Uma ou duas horas por semana dedicadas à formação comunitária podem produzir um impacto duradouro do que uma doação ocasional.
3. Cultura de leitura e aprendizagem - Uma das formas mais poderosas de combater a pobreza é expandir o acesso ao conhecimento. Iniciativas simples podem incluir: clubes de leitura comunitários; pequenas bibliotecas de bairro; grupos de estudo; partilha de livros usados; sessões de orientação escolar. A experiência de países como a Coreia do Sul e a China, mostra que a valorização da educação foi decisiva para a redução da pobreza.
4. Fortalecimento da ética do trabalho - Sem cair na ideia simplista de que a pobreza resulta apenas de falta de esforço ou da preguiça, é importante reconhecer que: a pontualidade; a disciplina; a honestidade; a responsabilidade e a perseverança, são competências sociais que aumentam significativamente as oportunidades económicas. As famílias, as igrejas, as escolas e as associações podem desempenhar um papel importante na promoção destes valores.
5. Criação de redes de oportunidades - Frequentemente, o problema não é apenas a falta de capacidades, mas a ausência de contactos. As pessoas com melhores condições podem: recomendar jovens qualificados para empregos; facilitar estágios; apresentar empreendedores a potenciais clientes; criar pontes entre comunidades e instituições. O capital social é, muitas vezes, tão importante quanto o capital financeiro.
6. Voluntariado de competências - Um contabilista pode ensinar gestão financeira básica; um advogado pode explicar direitos laborais; um médico pode promover educação para a saúde; um agricultor experiente pode ensinar técnicas agrícolas mais produtivas. Este tipo de voluntariado gera autonomia em vez de dependência.
7. Incentivar o associativismo comunitário - Em muitas zonas de Angola, existem tradições de solidariedade comunitária. As pessoas podem ajudar a organizar: cooperativas agrícolas; associações juvenis; grupos de poupança comunitária; grupos de produção artesanal. Quando as pessoas trabalham em conjunto, conseguem superar limitações que, individualmente, seriam difíceis de ultrapassar.
8. Promover uma cultura de dignidade - Um dos efeitos mais devastadores da pobreza extrema é a perda de esperança. A contribuição das pessoas alforriadas da pobreza (não pobres) pode incluir: reconhecer o valor e a dignidade de cada pessoa; encorajar iniciativas produtivas; celebrar exemplos positivos e; evitar atitudes paternalistas. O objectivo não deve ser criar dependência, mas fortalecer a capacidade das pessoas para resolverem os seus próprios problemas.
Enquanto o Estado tem um papel central na criação de condições estruturais, os alforriados da pobreza podem contribuir decisivamente através da transmissão de conhecimento, da mentoria, da criação de oportunidades e do fortalecimento das capacidades individuais e comunitárias. Esta perspectiva aproxima-se da visão do economista Amartya Sen, para quem o desenvolvimento consiste em expandir as capacidades das pessoas, e da própria intuição de Adam Smith, segundo a qual, uma sociedade só é verdadeiramente próspera quando a maioria dos seus membros tem condições para viver com dignidade e participar dos frutos do progresso económico.

*Economista