Com maior ou menor conhecimento das obras do próprio Karl Marx, de uma forma geral os nossos autores nacionalistas, em qualquer das gerações anteriores à independência, foram marxistas ou reclamaram-se ou se identificaram publicamente como tal. O marxismo constituiu, portanto, um dos cânones dessa época e a sua vulgata, o que publicamente se divulgava como marxismo, corria na boca de quase todos os candidatos a intelectuais e poetas por aqui.

Podia ter sido um modismo, mas um modismo não dura tanto e, sobretudo, não marca tão estruturalmente uma literatura.

Nos países ditos "socialistas", sobretudo naqueles sob influência da URSS, a ligação entre marxismo e literatura chamava-se realismo socialista. Não deu grandes frutos, como podemos ver nos nossos dias, em que se consagrou precisamente a plêiade de autores e autoras perseguidos durante o longo regime do PCUS. Nos países tidos como "capitalistas" e em particular nos países lusófonos, a ligação entre marxismo e literatura incidiu, maioritariamente, no chamado neorrealismo.

O neorrealismo, no que diz respeito propriamente à arte literária, não é fácil de definir. Enquanto movimento de motivação ideológica, mesmo partidária, a sua maior preocupação estava na transmissão de um apelo e de uma denúncia veementes. Todos os recursos estéticos, desde que eficazes no meio, podia ser usados. Daí que vemos poetas neorrealistas como Arnaldo França em Cabo Verde, ou António Cardoso em Angola, recorrendo a distribuições rimáticas e estruturas estróficas regulares tanto quanto às irregulares. O mesmo se diga para a métrica e o ritmo.

Assumo que esta minha perspectiva não é neorrealista nem marxista. Para os neorrealistas, como lembrou Eugénio Ferreira, "na esteira do pensamento de Lefèbvre, o conteúdo determina a própria forma" (Ferreira, 1998). Isto foi reduzido à mais simples e até grosseira expressão na prática de muitos poetas neorrealistas, que desconheciam a teoria que perfilhavam, razão pela qual se despreocuparam com aspetos formais.

Havia, nas nossas literaturas (africanas em língua portuguesa), um lastro literário anterior que, sobretudo nos casos de Angola e Cabo Verde, preparava as mentalidades para essa atitude de atenção ao conteúdo e despreocupação com a forma, ou mera preocupação de clareza a nível da forma. Porque já vinha do Romantismo o lugar-comum de que a forma podia ficar imperfeita, menos bem tratada, desde que a febre do conteúdo o ditasse e a forma fosse capaz de transmitir o conteúdo.

Ora, foi precisamente com o Romantismo que se começou a desenvolver, em todo o mundo, uma poesia politicamente empenhada. Por isso era comum ouvirmos um poeta, neorrealista mas não doutrinado, afirmar que "isto foi mesmo o que eu senti", ou que "foi mesmo assim", razão pela qual "não mudei nada, era isto mesmo que eu tinha a dizer, foi o que veio na altura".

O mito da criação poética espontânea trazido do romantismo veio co-fundir-se na prática neorrealista mais descuidada. E o resultado foi uma poesia totalmente inesperada e parcialmente desmazelada no que diz respeito à forma e totalmente controlada, pelo próprio autor e seus camaradas no que diz respeito aos conteúdos.

Entretanto, seja por imitação seja por consciência estética e política, o neorrealismo acabou nos dando alguns cronótopos formais comuns e que podemos resumir: o recurso muito frequente a figuras de repetição, como na Bíblia e nas pregações dos padres; a tendencial irregularidade quanto a estrofes, versos e rimas; uso de uma linguagem clara, simples, com analogias de curto alcance e por vezes imediatamente descodificadas no próprio texto; o predomínio da sinédoque, da alegoria e da metonímia; o recurso a tópicos cristãos reconvertidos ideologicamente (por exemplo a conotação da noite com a opressão política e a da manhã luminosa com o advento da redenção revolucionária).

Isto no que diz respeito à lírica em verso. Quanto à narrativa, em que sem dúvida foi mais forte o neorrealismo de outras paragens, predominava o mesmo tipo de linguagem, com as mesmas características estilísticas e uma tendência para a épica, ou seja, para a composição de um herói-modelo e de uma promessa de vitória centrada em tudo o que ele simbolizava.

Mas a narrativa exigia, além disso, que o ficcionista partisse de uma realidade concreta, que a articulasse dialeticamente com a sua época e mostrasse como, inevitavelmente, o processo histórico nos conduziria às gloriosas manhãs do homem novo. Esta exigência subia a parada e mantinha um mínimo de exigência estética a funcionar, graças às articulações simbólicas necessárias para convencer alguém das articulações dialéticas deduzidas.

Foi o neorrealismo a corrente literária mais influente nos países africanos lusófonos até às independências e desde 1944, ano em que a revista Certeza, em Cabo Verde, publicou a sua primeira geração. Entre nós, o neorrealismo começou o longo mandato em 1949, justamente pela mão de Eugénio Ferreira.

Ao longo de muitos anos ele manteve a sua doutrinação, através de livros hoje quase esquecidos mas claros e esclarecedores como A crítica neorrealista (Ferreira, A crítica neo-realista, 1980), completada com o póstumo Afolhamentos sem pousio. A publicação posterior de Eugénio Ferreira: um cabouqueiro da angolanidade (Ferreira & Ferreira, 2008) nos permite perceber a coerência dessa postura ao longo de toda a vida, não hesitando em criticar companheiros mais novos quando, pensando prestar um serviço ao partido, prestavam um mau serviço à cultura angolana.

Sem dúvida que essa permanência tornou o nome de Eugénio Ferreira inseparável, quer da literatura angolana, quer do nosso neorrealismo, que foi parte dela. Mas não só: o momento em que surgiu, a circunstância em que se inicia a sua intervenção, foram decisivos também.

Quando Eugénio Ferreira e mais alguns camaradas tomam conta da revista Cultura, o nosso panorama literário era bem pobre e, sobretudo, dividido em dois. Por um lado tínhamos a lírica de Bessa Victor, ainda novo, com dois títulos apenas de poesia e só um deles moderno, o contemporâneo, modernista e negrista: Ao som das marimbas. Geraldo Bessa Victor representava a juventude da Liga Nacional Africana, ao mesmo tempo a continuação da elite luandense do fim do século XIX e a sua rutura em direção ao negrismo norte-americano, adaptado à imposição imperial de um papel para "os negros" desde que ajudassem na construção e civilização daquela parcela e, eventualmente, de outras, do "Portugal Ultramarino". Bessa Victor fala como negro e da condição do negro na Angola colonial, escreve como um modernista moderado (em Ao som das marimbas), mas não é nem nacionalista nem neorrealista - parece-me, de resto, que a opção marxista dos nacionalistas o afastou definitivamente do MPLA, ou de círculos afins que haviam de desembocar nele.

Do outro lado tínhamos o modernismo saudosista, moderado e africanizado de Tomás Vieira da Cruz, uma espécie de assimilado na direção contrária. O bloco da literatura colonial entrava também numa certa revista Cultura e publicava aí poemas insípidos e incipientes ou, de quando em quando, elogiosos para a situação, como talvez os primeiros poemas do hoje esquecido Humberto da Silva, ou Humberto da Sylvan, que foi durante muito tempo um fervoroso nacionalista.

Pegando nessa revista, Eugénio Ferreira conseguiu reunir um bom sector da sociedade colonial dedicada às "letras", instruindo uns, aproveitando outros, conforme o grau de consciencialização e de força de vontade que possuíam. Mas não se contentou com reunir os colonos progressistas trazendo-os para o lado da independência e da revolução; juntou-lhes, o que é mais importante ainda, jovens angolanos que foi doutrinando, a quem foi falando em marxismo, apoiando no conhecimento e compreensão do que isso fosse. De maneira que, em Janeiro de 1949 é dada a "chamada" para a literatura de combate, nacionalista e neorrealista, à qual se juntaria mais tarde a componente negritudinista. Ao fazê-lo reuniu uma futura nação, contribuiu para que ela encontrasse um rumo e deu o tiro de partida. Entre os jovens de que falo estavam Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Mário Alcântara Monteiro, António Jacinto, Maurício de Almeida Gomes e outros que "responderam à chamada", como escreve Mário Alcântara Monteiro, se não me engano no primeiro número dessa nova fase da revista Cultura. Ao fazê-lo dava também começo à intensa relação da nossa literatura com a filosofia e a ideologia marxistas.

A segunda geração nacionalista angolana (de autores nascidos entre 1931 e 1940) acentuou precisamente essa ligação ao marxismo. Para o vermos imediatamente, basta recordar A vida verdadeira de Domingos Xavier, a Poesia com armas de Costa Andrade (que se refrescou numa ténue sombra de concretismo em São Paulo) e de António Cardoso, ou o prefácio de Henrique Guerra a O segredo da morta, ou o seu conto «Josefo Camalata», que é também uma análise económica e antropológica da expansão ovimbundu.

A atuação de Eugénio Ferreira na fervilhante mas pequena comunidade literária luandense também se fazia sentir sobre esta segunda geração e da mesma forma que sobre a primeira.

Mais que não fosse, só por isto o nome de Eugénio Ferreira se torna incontornável em qualquer História da literatura angolana como também em qualquer História da crítica literária em Angola - ambas por fazer.

*Professor e crítico literário