Vitória notável, "nunca antes vista na história deste país", uma expressão de Lula que se tornou célebre no vocabulário político brasileiro. O Brasil habituou-se a ver o seu presidente fazer história constantemente desde que, há 50 anos, iniciou a sua carreira política.
Há quatro anos, com a sua eleição para o terceiro mandato, até então inexistente, já tinha feito história. Agora, num país altamente polarizado, alcança um quarto mandato, depois de um consulado menos impactante que os dois primeiros, ocorridos entre 2003 e 2011.
No segundo turno destas eleições, a abstenção foi a menor desde 2006, contrariando uma tendência de aumento de abstencionistas da primeira para a segunda volta das presidenciais.
A diferença de cerca de 2% entre o fundador do PT (Partido dos Trabalhadores) e Flávio Bolsonaro, da extrema-direita, a favor deste último, na primeira volta, fez soar o alarme nas esquerdas, e em alguns sectores da direita, bem como nas classes trabalhadoras, nas mulheres e nos jovens, que se assustaram com a possibilidade de regressão no que diz respeito a direitos civis e à soberania nacional.
Por isso, mobilizaram-se para convencer todos a apoiar a decência. Perante a tarefa hercúlea de reverter os resultados negativos do primeiro turno, algo que nunca tinha acontecido na história das eleições democráticas brasileiras, Lula teve de alterar por completo a estratégia da sua campanha. Até a linguagem.
No Brasil, onde o voto é obrigatório para todos os cidadãos com mais de 18 anos, excepto para os maiores de 70 anos, foram mobilizados eleitores com mais 70, 80, 90 e até 100 anos, muitos dos quais com dificuldades de locomoção.
Os idosos, acompanhados ou levados ao colo por familiares, amigos ou vizinhos, sobretudo jovens, votaram pela última vez no maior político brasileiro, a fim de defender o direito de o povo brasileiro de decidir o seu próprio destino.
Os jovens foram a chave da "virada", que deu ao petista 51,78% contra 48,22% do candidato da extrema-direita, filho de Jair Bolsonaro, que se preparava para atacar conquistas dos brasileiros, nomeadamente os direitos sociais das classes mais desfavorecidas.
Para protagonizar esta primeira "virada" da história, as ruas e as redes sociais assumiram papel central na campanha. Lula, que até ao ano passado afirmava não possuir telemóvel, teve de se adaptar rapidamente às ordens do seu "general" de campanha, o jovem André Janones, líder de um "exército digital" criado para esse efeito.
Sem contar com os mass media que, grosso modo, estão alinhados com o grande capital, o "general" apostou nos self media. Criou contas e canais nas redes sociais com dezenas de milhões de utilizadores, mantendo-os permanentemente informados sobre as acções de campanha e as propostas do recandidato, ao mesmo tempo que denunciava a batota algorítmica da Meta contra a campanha do PT.
Virada histórica, protagonizada por jovens e sociedade civil, que mostraram aos brasileiros o perigo que seria a perda de soberania provocada pelo eventual regresso da ditadura fascista avessa a diversidades.
"O triunfo da extrema-direita significaria medo permanente para a esquerda brasileira, as favelas, os corpos das mulheres e das pessoas trans", segundo a filósofa estadunidense Judith Butler em entrevista à Outras Palavras antes das eleições.
A vitória de Lula, da juventude, das classes trabalhadoras, das mulheres e da sociedade civil reacende a esperança nos sectores do progressismo, num momento em que se assistem revoltas políticas e sociais contra projectos neo-liberais incapazes de dar respostas às aspirações das populações em diversas partes do mundo.
Referindo que o "neo-fascismo cresce em todo o Ocidente", bem como a repressão aos protestos da juventude, nomeadamente em França, Itália e EUA, Butler afirma que "o facto de mobilizações sociais potentes abrirem uma alternativa, num país relevante como o Brasil, tem um impacto mais amplo".
Sublinha que a "virada" do Brasil expressa o mesmo desejo de futuro que move a juventude na Europa e revela a importância de buscar formas de democracia além das instituições e do liberalismo.
A vitória de Lula, maior fenómeno político do século XXI, surge assim como a garantia do respeito pelas liberdades, nomeadamente a religiosa e da defesa das conquistas alcançadas pelo Brasil, maior economia do Mercosul.
É também uma vitória para os BRICS que se livram assim de um parceiro incómodo que seria, objectivamente, a voz e os ouvidos de Trump nos encontros, criando instabilidade ao grupo, que, para além do Brasil, integra também a Rússia, India, China e Africa do Sul, bem como outros estados do Sul Global como o Irão.
Um eventual regresso da extrema-direita ao poder passaria o Brasil de "país central nas decisões políticas, económicas e pela paz no mundo", segundo Lula, a periferia às ordens da dupla Donald Trump/Marco Rubio e outros do regime de Washington.
Nesse sentido, a vitoria de Lula e das classes trabalhadoras contra os milicianos é uma derrota para Trump que vê gorado o seu projecto de "qualquerizar" o Brasil, explorar desenfreadamente os recursos da Amazónia e apropriar-se das terras raras do país, que possui a maior reserva mundial destes minérios, depois da China.
Os brasileiros mobilizaram-se, assim, contra a iminência de deixarem de ser donos dos seus recursos e de transformarem o seu pais em "quintal" dos Estados Unidos, segundo Lula, ou num protetorado de Washington, como é a Venezuela desde que Trump raptou o Presidente Nicolás Maduro.
A derrota da extrema-direita pode ajudar a travar os apetites trumpistas em relação a Cuba e a tentativa de dominar e subjugar todo o continente americano, o que incluiria a desestabilização do México da Presidente Claudia Sheinbaum, do partido de esquerda Morena.
Entretanto, com o Congresso e Senado dominado pela direita e sua extrema, Lula, exímio negociador, prometeu mudar a forma de governar. De acordo com o político e intelectual brasileiro Valter Pomar, o país precisa de "reformas estruturais urgentes" para que os bons dados da economia, nomeadamente taxa de desemprego baixa, crescimento económico, inflação baixa, se reflitam "no bolso" do cidadão comum.
O presidente reeleito garante que, a partir a partir de 2027, início do novo mandato, a prioridade estará na universalização do ensino médio e no investimento na "economia digital, verde e criativa".
Lula é um eucalipto político. Seca, drena politicamente, tudo à sua volta. Pelo seu carisma, empatia, humildade, inteligência e trajectória políticas. Mas também pelo seu comportamento. Isto traduziu-se em dificuldades da esquerda em projectar outros líderes para a sucessão inevitável.
Quando terminar o quarto mandato, Lula, operário metarlúrgico do Nordeste, que fica na história como figura maior da esquerda mundial deste tempo, terá 86 anos. Antes disso, deve contribuir para que a esquerda brasileira encontre nova(s) liderança(s) com capacidades intelectuais, humanas e políticas para dirigir o Brasil.
Figuras que defendam abertamente políticas de esquerda assentes na liberdade, igualdade e dignidade, tal como Lula fez na campanha para a segunda volta, contribuindo para reviravolta eleitoral.
Lideranças que não ignorem ou subestimem o racismo sistémico num país onde a pobreza, a população carcerária, as classes mais desfavorecidas, os favelados, ou seja, os excluídos, têm uma cor de pele: negra.
Líderes capazes de dialogar com os diferentes brasis dentro do gigante continental, atender as pautas da maioria negra e de minorias e de fazer a defesa do papel do Brasil no mundo, sobretudo na relação com o continente africano, sem paternalismos, uma prioridade.
O Brasil deve-se aliar a uma África insubmissa que trava neocolonialismos, pugna pela integração e auto-determinação dos povos e faz da sua diáspora, incluindo a do Brasil, elemento central da sua estruturação.
E deve ser "decisivo contra o colonialismo recrudescido de Trump", como Judith Butler preconiza
