O caso junta-se a outros registos recentes de confrontos envolvendo forças de autoridade, frequentemente captados e difundidos nas redes sociais. A exposição digital destes episódios, marcada por cenas de desrespeito e agressão a agentes, tem alimentado um ciclo de viralização que não é de agora.
No ano antepassado, num conflito entre vizinhos no bairro Rangel, rua da Dona Amália, no município de Luanda, a Polícia foi chamada a intervir. À chegada, os agentes enfrentaram resistência e desobediência às ordens dadas no local. Perante a escalada de tensão, foram efectuados disparos para o ar, com o objectivo de dispersar a multidão, sem sucesso. A situação degenerou em confrontos, com registos de agressões a agentes e episódios de desrespeito à autoridade, amplamente filmados e partilhados nas redes sociais.
O momento mais grave ocorreu quando um agente tentou deter uma cidadã, 39 anos, no contexto da desordem instalada e efectuou, de forma acidental, um disparo que resultou na morte da mesma e ferimento de outra senhora, de 63. A reacção popular intensificou-se no local, com hostilidade dirigida à presença policial, num cenário de confronto aberto com as forças de autoridade. Os vídeos do episódio atingiram ampla visibilidade nas redes sociais, em poucas horas.
Há pouco tempo, na Avenida Cónego Manuel das Neves, nas imediações da Escola Anangola e do Bairro Operário, um agente regulador de trânsito mandou parar um taxista que seguia ao volante de uma Toyota Hiace. O condutor recusou-se a obedecer à ordem, mantendo a marcha e adoptando uma postura de intimidação perante o agente, que chegou a posicionar-se à frente da viatura. A situação decorreu sob o olhar de outros automobilistas, que apelavam à paragem do veículo, sem sucesso.
O impasse prolongou-se até à intervenção de um agente à paisana, que auxiliou na imobilização do condutor. O episódio, marcado pela recusa reiterada em acatar ordens policiais, foi registado por testemunhas que, para não variar, fizeram o conteúdo circular nos canais habituais: Facebook, Instagram e Tik Tok, principalmente.
O advento das redes sociais transformou a forma como o público consome e compartilha conteúdos, privilegiando cenas que geram reacção imediata. Nesse contexto, vídeos que mostram agentes policiais em situações de vulnerabilidade, constrangimento ou humilhação passaram a ganhar grande visibilidade.
Devemos respeitar a Polícia, posto que é a instituição encarregada de garantir a ordem pública, proteger os cidadãos e fazer cumprir a lei.
Na organização do Estado, a Polícia é o rosto visível da autoridade: patrulha, intervém, previne e reprime. A sua função é equilibrar liberdade e segurança, actuando como mediadora entre o indivíduo e a norma. Na teoria política, a sua legitimidade depende da confiança pública - quando actua com justiça, reforça o Estado de direito; quando abusa do poder, fragiliza-o.
Respeitar a autoridade da Polícia é, antes de mais, reconhecer a necessidade de regras para a convivência colectiva. Sem esse respeito, a ordem fragiliza-se e abre-se espaço ao caos. O cidadão consciente não vê a Polícia como inimiga, mas como parte do pacto social que protege a todos. Exigir profissionalismo e justiça é legítimo; mas cumprir a lei e reconhecer a autoridade é igualmente essencial para que a sociedade funcione com equilíbrio e segurança.
Parar quando a Polícia mandar parar é o mínimo exigido numa sociedade de regras.
*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto
