‎O alegado "apoio incondicional" do Bureau Político do BP não foi mais do que uma estratégia para condicionar os membros deste importante órgão do MPLA. João Lourenço jogou com o efeito supresa da recandidatura ao cargo de presidente do MPLA, eles não "engoliram" esta estratégia que passou por uma recolha recorde de mais de dez mil assinaturas durante um fim de semana, formalização da recandidatura e, depois, com uma marcha de apoio que mais foi uma encenação para agradar um líder que naquele mesmo sábado decidiu dar umas pedaladas pela zona da Cidade Alta enquanto os seus apoiantes marchavam pelas bandas do antigo Cemitério Novo. Uma marcha em que muitos apoiantes "incondicionais" do BP não apareceram e em que vimos o jovem Gilson entrevistado pela DW a dizer que nem sabia o que estava ali a fazer.

‎O MPLA está a ser atacado na sua moral e este ataque é interno e visa atingir o seu líder. É um sinal de que na "Gloriosa Família" há muitos que não apoiam esta estratégia "solitária" de João Lourenço para manutenção do poder. O descontentamento no MPLA é da base ao topo; mesmo na sede do Partido há um descontentamento geral. Nem a inauguração da nova sede do MPLA, o "Cantinho do Chefe", como o NJ chama, acalmou militantes que nem sabem qual foi o custo dela e as suas fontes de financiamento.... mas este é um assunto que iremos abordar em próximos editoriais. Ora, voltemos às makas e malambas dos Camaradas e a o assunto da Orquestra Vermelha!

‎A Gestapo chamava-lhes de "Red Orchestra"( A Orquestra Vermelha) porque transmitiam informações à União Soviética por meio de "concertos" de rádio. Por mais que a Gestapo tentasse desacreditar a Orquestra Vermelha, os nazistas consolidaram o grupo como um dos únicos a enfrentar o regime de Hiltler dentro da própria Alemanha. Passaram informações sigilosas à União Soviética e planearam até o assassinato de Hiltler. Nada disso veio sem um preço: a maioria acabou executada, mas manifestou na sua trajectória um forte propósito de resistência.

‎O que é preciso ter para sair assim da linha ? O que leva alguém a receber algo quando todos a sua volta obedecem? E que razões levam a fazê-lo quando seria muito mais fácil não fazer nada? O que temos aqui é a resistência aos sinais dos tempos, aos factos e a própria realidade. A simples incapacidade humana de ver que nem todos os perigos vêm de fora, neste caso, as ameaças mais perigosas vêm de dentro. Estamos em período pré-eleitoral em Angola e de congresso no MPLA, e altura do "vale tudo" para se alcançar e manter o poder.

A Orquestra Vermelha ajudou JLO a desmontar a bicefalia com JES. Aliou-se à ele e criou condições para afastar JES e dar-lhe o poder. Não aceitam a imposição de uma nova bicefalia e aos perigos de uma continuidade no poder por parte do líder. O medo leva as pessoas a agir; a Orquestra Vermelha sentiu-se traída com este avanço de JL ao nível do poder, sente-se insegura com a indefinição sobre a futura liderança e com a hipótese de uma solução de alcance do poder por "privilégios de casamento" . Tudo vale e serve para atingir e fragilizar o líder. O que vimos com os vídeos íntimos partilhados nas redes sociais do mandatário da recandidatura de João Lourenço foi para atingir o líder, foi para o esvaziar, para o deixar cada vez mais isolado. Foi para lhe deixar um recado : a Orquestra Vermelha não está alinhada com esta estratégia de JLO e vai continuar a agir. Estão a superar o luto do seu candidato que partiu em Dezembro último, e estão a organizar-se em torno de um candidato providencial e de verdadeiro consenso.

‎Isto até ao congresso do MPLA em Dezembro deste ano vai ser ainda muito duro e complicado. É que João Lourenço começa a ser cada vez mais parte do problema e cada vez menos parte da solução. É isto o que os seus camaradas têm medo de lhe dizer, é isto o que ele não quer ouvir e admitir, e é isto o que a Orquestra Vermelha tem estado a procurar mostrar-lhe por todos os meios necessários.