Em Angola, as pessoas facilmente acreditam nas informações que vêem circular pelas redes sociais, existindo mesmo uma dependência como fontes primárias de informação. Informação é serviço público, mas desinformação não. Desinformação é falta de ética, é falta de deontologia e de profissionalismo. Uma sociedade desinformada é uma sociedade dependente, formatada, controlada e sem opinião própria. Trata-se de um fenómeno que nos está a ultrapassar a todos e a fugir-nos ao controlo. A desinformação está a tornar-se num óptimo negócio em Angola e com consequências nefastas para todos. O jornalismo, que devia ser o intermediário entre a informação e os cidadãos, é também hoje atacado e está fragilizado. Um elemento relevante é a credibilidade dos órgãos de comunicação social e do jornalismo. A credibilidade é o maior activo de um órgão. A excessiva interferência do poder político na linha editorial dos órgãos públicos de comunicação e a situação de monopólio da imprensa por parte do Executivo retira poder, liberdade e credibilidade aos órgãos. As pessoas deixam de acreditar na maior parte da informação que passam, classificam-na como propaganda e tentativa de alienação, logo é sempre mais fácil acreditarem nos conteúdos sensacionalistas que a maior parte dos sites oferece. A desinformação leva as pessoas a agir, a tomar medidas ou posições. Temos visto com regularidade desinformação para disseminar ódio e medo, para criar indignação e revolta, para extremar posições e radicalizar discursos, bem como para atacar e fragilizar pessoas e instituições. Nesta segunda-feira, 15, o NJ, na sua edição on-line, noticiava o facto de mais de duas mil pessoas terem aparecido em frente à Administração Municipal do Cazenga aliciadas por supostas vagas de emprego na ELISAL. A desinformação foi posta a circular nas redes sociais, e as pessoas aderiram como cordeirinhos que são encaminhados para um matadouro. Temos uma população muito fragilizada social, económica e psicologicamente, e facilmente é manipulada para aderir a embustes com esSes. Não existe "fact- checking", não existe cultura de cruzar factos e fontes, e a desinformação circula livremente. Este caso da ELISAL é revelador do poder e alcance destas máquinas de desinformação, sendo fácil hoje e a distância de um click colocares milhares de pessoas nas ruas ou em frente a instituições a reclamar ou a exigir direitos. Basta accionar o "gatilho" para se provocar uma explosão.

Ainda na senda da desinformação e manipulação, o negócio não se limita apenas à estratégia de ataques a inimigos, adversários ou oponentes. Existem "pacotes" para a promoção da imagem de determinadas figuras e instituições a que elas estão ligadas. Os conteúdos são preparados nos gabinetes e entregues aos sites para a divulgação (sempre mediante prévio pagamento) e num autêntico jogo de manipulação. E outro "pacote" é o daquilo a que chamo "acção preventiva", em que o homem do gabinete de comunicação estabelece um acordo de não-agressão com esses sites (mediante pagamento) e garante que o seu titular, o seu chefe, não seja visado nas matérias publicadas por esses sites. Existem ministros, secretários de Estado, governadores, embaixadores e titulares de órgãos do Poder Judicial que subscrevem esta estratégia pensando que, assim, ficam livres e imunes de ataques, mas quando, na realidade, estão a ajudar a "engordar" o negócio da desinformação entre nós. Tudo isso faz que quem anda nos meandros deste negócio cultiva um sentimento de poder e de impunidade. Fazem dinheiro facilmente e quase sem mexer um dedo, nada lhes acontece e a vida segue. É também um problema de responsabilidade e de responsabilização. Por causa do editorial anterior, alguém me perguntou sobre a interferência de países estrangeiros neste negócio da desinformação em Angola. Países como tal directamente envolvidos não acredito. Existe é o recurso a empresas, à tecnologia e serviços de estrangeiros em muitas destas manobras de desinformação, sobretudo em termos de estratégias de posicionamento político, estratégico e económico. Alguma desinformação já é produzida em gabinetes e por milícias digitais fora do território angolano. Agora, é preciso que se diga, com estas fragilidades estruturais, falta de educação e literacia por parte da população, falta de credibilidade dos órgãos de comunicação social e do jornalismo, temos espaço aberto, para que certos países aproveitem para entrar em acção. Hoje, os posicionamentos e alinhamentos do Executivo de João Lourenço em relação aos EUA não deixam confortáveis parceiros tradicionais e influentes para Angola como a Rússia e a China. São conhecidos e denunciados truques e interferências ocultas para manipular e mudar eleições a favor de candidatos que sejam da sua preferência ou em perfeito alinhamento político e estratégico com determinados países.

A disseminação de notícias falsas durante eleições ou na publicidade de dados governamentais pode distorcer a percepção do público e afectar a tomada de decisões de maneira adversa. Nas eleições de 2027, já teremos a desinformação como elemento relevante e inimigo a abater. E não terá sido por falta de aviso.