Situado entre os bairros Popular, Golfe e o Cassequel do Lourenço e do Buraco, o bairro Malanginho é neste momento descrito pelos moradores como um descaso no tocante ao saneamento básico. Sem acessos para viaturas de pequeno, médio e grande portes, e envolta numa situação de habitabilidade de extrema precariedade, com casas construídas sem os mínimos requisitos de urbanidade, o bairro vive hoje uma situação delicada. O lixo parece, neste tempo seco, fazer parte de um ambiente comum e indiferente a todos, apenas temido por conta do aproximar do tempo chuvoso, como nos relatou um dos moradores que solicitou anonimato.

Em causa, contou à reportagem do Novo Jornal, está a reabilitação da vala de drenagem Senado da Câmara, que ao longo do seu percurso e à medida que vai atravessando os bairros por onde passa, ganha outros nomes. É o caso do bairro da Teixeira e do Malanginho, onde esta ganha os nomes desses dois bairros vizinhos. Ao longo da vala, a partir desses bairros, o amontoado de lixo é de tal volume que chega a constituir um cenário perturbador, conforme constatação da nossa reportagem. Ao Novo Jornal moradores disseram ser aquela situação em que elas vivem e que assim lhes tem sido permitido viver até então. Ou seja, não só vivem como também comercializam ali, com aquelas condições, bens de primeira necessidade, como os alimentares.

Obras na vala de drenagem

De acordo com a fonte, as obras de reabilitação começaram em 2011, e desde a data de início até à paralisação, que ocorreu poucos meses depois, a situação se manteve inalterável. Este projecto começou em Outubro de 2011, mas até hoje não obtivemos nenhum esclarecimento sobre a paralisação da mesma que ficou pela metade. O saneamento aqui é muito complicado. Em tempos uma empresa ainda colocou aqui betão para facilitar a passagem, mas no tempo chuvoso as águas, que trazem consigo resíduos sólidos, bloqueiam a passagem e ela faz retorno e invadir a casa dos moradores, contou à reportagem.

No local ainda é possível encontrar materiais que estavam a ser utilizados na reabilitação da vala, que ora servem de espaços de esconderijo para diversão das crianças que ali residem. No espaço onde começou a ser construída a nova vala de drenagem há também um acumulado de água, onde os miúdos do bairro e não só, passam a maior parte do tempo ao longo do dia.

Crianças morrem afogadas

Um outro cenário no bairro Malanginho é constituído pelas crianças que, despropositadamente e destemidas, caminham por entre os charcos da vala todos os dias para apanharem peixinhos e removerem o lodo dos charcos com os quais preenchem os seus espaços livres. Algumas delas, de acordo com dados recolhidos junto das próprias crianças, não estudam e outras passam o dia sozinhas em casa ou mesmo na rua com os amigos, pois os pais dedicam-se a pequenos negócios. De acordo com algumas dessas crianças, as mães são zungueiras e só no final do dia estão de volta. O que leva a que elas passem maior parte do tempo nesses espaços.

Segundo os moradores, apenas neste tempo lhes é permitido percorrer as valas, uma vez que a corrente é menos intensa e o nível da água é também mais baixo. No tempo de chuva não é possível ver essas crianças a brincarem aí, porque tem havido mortes. Mas não são crianças daqui.

São crianças que vêm de longe, que não conhecem bem a vala. Só o ano passado, daquilo que é o meu conhecimento, morreram seis crianças afogadas e foi também encontrado o corpo de um senhor que foi agredido e depois jogado na vala lá mais à frente, revelou ao Novo Jornal um dos moradores que não quis identificar-se.

Cultivo de hortaliças junto à vala

Com o início da construção da vala de drenagem, uma das alternativas foi desviar o curso original da vala para uma zona lateral mais próxima. Facto que veio a acontecer mas em prejuízo das agricultoras que ali lavravam a terra, como nos contou a senhora Maria João, de 53 anos. A antiga cozinheira do Ministério do Urbanismo e Construção, hipertensa desde muito cedo, diz-se vítima da acção do Governo Provincial de Luanda. Como consequência do desvio do curso da vala, Maria João e outras lavradoras aproveitam o tempo seco para cultivarem couves e milho, que são comercializados em diversos mercados de Luanda.

População consome água que passa pela vala

Ainda segundo a nossa fonte, ao longo da vala de drenagem existem várias ligações de canos de água potável com origem no bairro Teixeira, bairro vizinho ao Malanginho, onde existem mais de 50 ligações ilegais, muitas das quais com fissuras que permitem a que a água da vala de drenagem penetre nos referidos canos. São ligações que têm a ver com garimpo de água. Estas ligações são feitas na conduta da ponte da Teixeira. Esta conduta é que fornece o Mártires e Cassequel, referiu a nossa fonte.

O Novo Jornal contactou, entretanto, o responsável pela área do saneamento básico do distrito do Kilamba Kiaxi, que disse não ter autorização para se pronunciar sobre a situação, pelo que aconselhou a solicitar o administrador distrital daquela unidade administrativa. Por sua vez, o administrador indicou o seu adjunto que não se encontrava até ao último contacto naquela administração.