Há ainda outra pergunta incómoda que devia reverberar pelos corredores de todos os governos do mundo: o que pensar hoje, quando acaba de ser lançado o último Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026 do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUMA), sabendo-se que o limite de 1,5º estava definido a pensar em 2100 e está prestes a ser atingido, estando em 2026?

O limite máximo de 1,5º para o aquecimento global não surge do nada nem é um número conservador para assustar, é resultado de pesquisas sólidas de múltiplos organismos internacionais sobre o clime, liderados pelas Nações Unidas através das suas agências especializadas, como a Convenção-Quadro sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) ou a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

E quando este limite surgiu em 2010, o mundo teve um sobressalto de preocupação e viram-se campanhas de sensibilização e limitação de danos a serem financiadas em todo o mundo, especialmente no capitulo da transição energética, sabendo-se como se sabia então e nada mudou entretanto, que são os combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pela emissão de gases com efeito de estufa, os principais inimigos do clime e do ambiente.

Só que esse ímpeto inicial, no qual sobressaíram nomes como o da jovem activista sueca, Greta Thunberg, ou o antigo vice-Presidente dos EUA, Al Gore, com a sua "Verdade Inconveniente", foi perdendo "gás" com as fugas devidamente incentivadas pelas multinacionais do petróleo e do gás ou, especialmente, algumas figuras como o actual Presidente dos EUA, Donald Trump, um dos maiores, senão o mais importante, negacionista sobre o aquecimento global, em todo o Planeta Terra.

E hoje, resta o optimismo da ONU e do seu Secretário-Geral, António Guterres, que assumiu a liderança desse combate global pela Humanidade, mesmo que a Humanidade mostre pouco interesse em ser salva, embora com resultados escassos, como o demonstra a conclussão deste documento.

Mas as más notícias são ainda piores, e nem o surgimento do agora muldialmente famoso "Super El Niño", que deverá secar ou inundar o planeta com mais severidade que nunca até meados de 2027 (ver links em baixo), porque a ONU diz que mundo segue para quase 3 ° de aquecimento global se não forem definidos planos de resposta de emergência e se as políticas atuais se mantiverem.

E que ninguém duvide, aponta o relatório, que é já de carácter de emergência a necessária redução das emissões de gases com efeito estufa para diluir o impacto esperado, que será sempre dramático, mesmo catastrófico em algumas latitudes, da realidade a que já se chegou, mas que ainda se pode evitar o pior.

Esta é a principal conclusão do novo relatório do PNUMA publicado na terça-feira, 20, onde está preto no branco a advertência de que, caso as políticas atuais não sejam profundamente alteradas, o aquecimento poderá atingir 2,8 ° ainda neste século.

Como recordavam as agências de notícias, logo após a divulgação deste documento, estes resultados são piores do que as projeções de 2025, no que o PNUMA atribui à retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e à revisão das estimativas das emissões históricas.

Mesmo no cenário mais otimista, no qual as metas climáticas dos países e as metas adicionais de emissões líquidas nulas são cumpridas, o aquecimento global seria limitado a 2,1 °C neste século.

Numa nota divulgada no site da UN News, o PNUMA lembra que cada fração de grau adicional de aquecimento acima de 1,5 °C aumenta os riscos climáticos, incluindo alterações irreversíveis nos mantos de gelo, no carbono armazenado no solo e na circulação oceânica, com consequências graves para a saúde e a prosperidade humanas, com a redução do tempo entre ciclos de inundações e secas prolonbadas.

"A hipótese de manter o aquecimento global abaixo dos 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, sem ultrapassagens ou com ultrapassagens limitadas, já passou. A tarefa agora é minimizar a duração e a magnitude da ultrapassagem e regressar aos 1,5°C até ao final do século", refere o relatório da agência da ONU.

Em 2015, na COP21, os países do mundo alcançaram o Acordo de Paris, em que se comprometeram a impedir que as temperaturas mundiais subissem além dos 2ºC em relação à época pré-industrial, e que, de preferência, esse aumento não ultrapassasse os 1,5ºC.

No relatório agora divulgado, é analisado um cenário de ultrapassagem dos 1,5 ºC, "o mais baixo possível", em que o pico do aquecimento esteja limitado a 1,7 ºC ou 1,8 ºC. Para este cenário, as emissões globais de GEE teriam de ser reduzidas em 18% até 2030, em 45% até 2035 e em 69% até 2040 (em relação aos níveis de 2025) juntamente com a remoção em larga escala de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

O PNUMA enfatiza no documento que são precisos "cortes urgentes e rigorosos" nas emissões de GEE, não para impedir que se ultrapassem os 1,5ºC, mas para minimizar danos, com um pico de aquecimento em meados do século e um regresso a 1,5 ºC até 2100. Mas o relatório adverte que este cenário tem apenas 50% de hipóteses de ser real.

A ONU refere também que a implementação completa das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC), as promessas de cada país para reduzir as respetivas emissões, apenas reduziria as emissões em entre 5% e 8% até 2030 e em entre 11% e 15% até 2035, em relação aos níveis de 2025.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou numa mensagem sobre o relatório que "falhar a meta não significa desistir. Ainda podemos mantê-la o mais breve e curta possível - e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 graus até ao final do século".