Depois de ter empatado com dois antigos Campeões Mundiais e registado um nulo diante da Arábia Saudita no grupo H, Cabo Verde entrou em campo com a mesma crença de que podia discutir a partida com as suas armas.

Foi isso que fez ao longo de mais uma inolvidável demonstração da força de um colectivo coeso, organizado, disciplinado e, acima de tudo, fiel à sua identidade. O nulo manteve-se até aos 29 minutos.

Nessa altura, Lisandro Martínez mostrou visão de águia e encontrou Lionel Messi nas costas de Diney Borges. O pé esquerdo do camisola 10 fez o resto: dominou e, com a fluidez de um rio, conduziu a bola até ao fundo das redes para fazer o 1-0.

Aos 44 minutos, Lautaro Martínez rematou de fora da área, mas Vozinha negou o 2-0.

Até ao intervalo, o resultado manteve-se. No entanto, na segunda parte, aos 53 minutos, Deroy Duarte ameaçou e forçou Emiliano Martínez a aplicar-se para defender.

Pouco depois, os esforços dos destemidos e intrépidos "Filhos de Cabral" foram premiados com o golo do empate, apontado pelo mesmo jogador.

Ryan Mendes descobriu Deroy Duarte com um passe por entre as pernas de Facundo Medina. O médio dominou com o pé esquerdo e, de pé direito, atirou para o fundo das redes da "Albiceleste", fazendo o 1-1.

Aos 62 minutos, uma jogada a três toques entre Cuti Romero, Lautaro Martínez e Messi só não termina em golo por uma intervenção atempada de Vozinha, que tapou os caminhos à baliza.

Dez minutos depois, o menino de Rosário teve nas botas o 2-1. Cobrou um livre directo procurando apanhar desprevenido o guardião insular, no entanto, a concentração de Vozinha voltou a evidenciar-se.

Já nos descontos, Messi procurou bater um livre rasteiro, contudo Vozinha conseguiu impedir.

Antes do prolongamento, Vozinha transmitiu a segurança necessária entre os postes, quer a sair a jogar com os pés, quer a aliviar quando a situação assim o exigia, sem esquecer os reflexos que voltaram a fazer a diferença.

Se frente à Espanha tinha efectuado sete defesas, diante do campeão do mundo elevou esse registo para oito.

Aos 91 minutos do prolongamento, os argentinos adiantaram-se mais uma vez por Lisandro Martínez na sequência de um canto cobrado pelo 10.

A bola sobrevoou a área de Cabo Verde e ninguém conseguiu cortar, sobrando para o defesa do Manchester United dominar orientado com o pé esquerdo e ter espaço para alvejar as redes contrárias para o 2-1.

Aos 103 minutos, o antigo lateral do Benfica, Sidny Lopes Cabral marcou um dos melhores golos da competição e deixou o Campeão do Mundo e todos no estádio em estado de perplexidade.

O passe de primeira de Yannick Semedo foi perfeito para o lateral, que tirou do caminho Alexis Mac Allister e rematou, em arco, de pé direito.

A bola que transportava toda a esperança do arquipélago beijou o fundo das redes para mais um momento inesquecível da história do Futebol dos "Tubarões Azuis".

No segundo tempo do prolongamento, o cansaço começava a pesar cada vez mais nas pernas dos jogadores, sobretudo nas dos sul-americanos.

Entretanto, um novo canto cobrado por Lionel Messi, aos 111 minutos, foi o bastante para a formação do País das Pampas sobreviver ao maior susto da prova.

Emiliano Martínez ainda foi obrigado a uma enorme intervenção antes do fim do apito.

O conto de fadas dos pupilos de Pedro Bubista terminou em Miami, mas deixou uma marca indelével na história do Mundial e do desporto-rei.

Ao longo do torneio, a imagem que fica desta selecção cabo-verdiana é a confirmação de que o favoritismo por si só não ganha jogos, de que se pode lutar até ao fim, sem se ter de encolher seja com quem for. Mais do que isso, hoje crianças e adolescentes daquele país e da diáspora sonharão ser outros valentes "Tubarões Azuis".

A Argentina prossegue a defesa do título e medirá forças com o Egipto, que derrotou nos penáltis a Austrália após um empate a uma bola no tempo regulamentar.