O início desta missão coincidiu com o lançamento do Perfil da Criança em Angola 2026, uma publicação do Instituto Nacional de Estatística (INE), em colaboração com o UNICEF. Baseado nos dados do Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde (IIMS) 2023-2024, este relatório oferece um retrato abrangente da situação das crianças e adolescentes no país e constitui uma ferramenta valiosa para orientar políticas públicas.
Ao analisar os dados, encontrei muitas razões para optimismo.
Angola é um país de crianças e jovens. Cerca de metade da população tem menos de 18 anos, fazendo de Angola um dos países mais jovens de África. Num momento em que muitas nações enfrentam o envelhecimento das suas populações, Angola possui um dos recursos mais valiosos para o seu desenvolvimento: a sua juventude.
Isso representa uma enorme responsabilidade, mas também uma oportunidade única. O futuro do país será determinado pela sua capacidade de garantir que estas crianças cresçam saudáveis, aprendam, estejam protegidas e desenvolvam plenamente o seu potencial.
Os dados do IIMS mostram que Angola já está a avançar nessa direcção. A mortalidade de menores de cinco anos diminuiu significativamente na última década (de 68 para 52 óbitos por mil nascidos vivos). Mais famílias têm acesso a água e saneamento melhorados. O registo de nascimento aumentou, permitindo que mais crianças tenham uma identidade legal e acesso a serviços essenciais. A gravidez na adolescência diminuiu e o trabalho infantil registou uma redução significativa.
Estes avanços demonstram que quando existem políticas adequadas, investimento público consistente e parcerias fortes, os resultados aparecem.
Ao mesmo tempo, os dados ajudam-nos a identificar onde é necessário acelerar os esforços. Persistem desafios importantes em nutrição, vacinação, aprendizagem, desenvolvimento na primeira infância e protecção contra a violência. As desigualdades entre províncias e entre zonas urbanas e rurais exigem atenção especial para garantir que nenhuma criança fique para trás.
Por detrás de cada indicador existe uma criança real - que sonha, aprende, brinca e espera por oportunidades para construir o seu futuro. Sem evidências, navegamos às cegas. Com evidências, podemos identificar as crianças mais vulneráveis, compreender as causas das desigualdades e direccionar recursos para onde podem gerar maior impacto.
À medida que Angola procura acelerar o seu desenvolvimento, o investimento na infância deve ser visto não como uma despesa, mas como uma das mais importantes estratégias económicas disponíveis. Cada kwanza investido em saúde, nutrição, educação, água segura, saneamento e protecção da criança contribui para formar uma geração mais saudável e mais qualificada, pronta para impulsionar o crescimento do país.
Os dados mostram que Angola fez progressos - mas revelam também o enorme potencial para acelerar esses avanços. Este relatório deve servir como um convite à acção para todos nós: Governo, parceiros de desenvolvimento, sociedade civil, comunidades e famílias.
A criança que temos hoje revela-nos a realidade do presente. A criança que queremos revela-nos a ambição para o futuro - um futuro em que cada menina e cada menino em Angola possa sobreviver, aprender, estar protegido e desenvolver plenamente o seu potencial.
O UNICEF tem orgulho em caminhar ao lado de Angola nessa jornada. Investir nas crianças é investir no maior activo do país e no futuro que todos desejamos construir.n
*Representante do UNICEF em Angola
A criança que temos, a criança que queremos: os dados como ponto de partida para o futuro de Angola
Na semana passada assumi oficialmente as minhas funções como Representante do UNICEF em Angola, após a apresentação das minhas credenciais ao Governo angolano. Trata-se de uma missão que assumo com responsabilidade, entusiasmo e uma forte convicção: Angola tem uma oportunidade extraordinária para construir um futuro mais próspero e inclusivo através do investimento nas suas crianças.
