Depois de uma semana de estudo pelas analistas, com uma subida, apesar de tudo, ligeira, de 70 USD para os 92 USD com que fechou na sexta-feira passada, relativamente ao Brent, mas também expressivo no WTI de Nova Iorque, e quando se começa a perceber que se trata de uma longa guerra e não um conflito passageiro...
... tanto Londres, onde o Brent explodiu nesta segunda-feira, 09, para lá dos 106 USD, ou o WTI, que afecta particularmente a economia dos EUA, acima dos 101 USD, como nos restantes mercados, incluindo do gás natural e LNG, com iguais valorizações recorde, segundo casas financeiras como a Goldman Sachs, pouco ou nada poderá travar esta escalada nos próximos dias...
Isto, porque não é apenas a abertura do Estreito de Ormuz que resolverá o problema, ou sequer a retoma da produção nos países do Golfo Pérsico, como refere Anas Alhaji, economista-chefe da NGP Energy Capital Management, e professor em diversas universidades norte-americanas, a normalização do fluxo de crude da produção para os mercados levara semanas e ainda mais tempo no caso do LNG.
O que, para já, como o demonstra a escolha pelo Irão do novo Supremo Líder, o agora Grande Aiatola Mojtaba Khamenei, 56 anos, filho de Akli Khamanei, assassinado no Sábado, 28 de Fevereiro, primeiro dia desta guerra, que nesse ataque israelo-americano perdeu o paí, a mãe, a mulher, filha, neta e genro, tem tudo para estar longe de acontecer...
Mas não é esse o único senão apontado por Anas Alhajio, num podcast recente, apontando ainda a curiosa ausência de críticas por parte do Presidente norte-americano aos estratosféricos preços do crude e do gás, porque o aumento da gasolina nos EUA é um dos mais sérios danos às estratégias eleitorais de quem está no poder e os norte-americanos vão às urnas em Novembro, nas duras eleições intercalares que aguardam o partido republicano de Donald Trump.
Este economista e analista sírio-americano, um dos mais respeitados no sector e em especial no Médio Oriente, chama a atenção para a possibilidade desta situação, o fecho do Estreito de Ormuz, e a suspensão forçada da produção no Catar(LNG), e crude nos restantes países do Golfo Pérsico ser do interesse da Administração norte-americana.
Explica o próprio que um dos objectivos deste mandato para Trump, por ele anunciado com mais vigor, foi a reindustrialização dos EUA, com a recuperação da outrora flamejante indústria naval norte-americana como porta-bandeira desse plano audacioso.
E, com o LNG "fechado" no Médio Oriente, onde só o Catar, o segundo maior produtor, é responsável por 35% da oferta global, a Coreia do Sul, a mais férrea ameaça à indústria naval nos EUA, fica sem capacidade de manter os seus estaleiros a funcionar porque todo o seu LNG lhe chega daquela região, o que pode ser um golpe letal em apenas algumas semanas...
"E os EUA, que são o 1º produtor mundial de gás, além de grande exportador, podem ganhar, não apenas mercado se for essa a opção, ou desmantelar a indústria naval da Coreia do Sul, se esse for o caminho escolhido para revitalizar os estaleiros norte-americanos, há muito fora de serviço", nota Alhaji.
O outro aspecto não negligenciável para esta estranha ausência de declarações enfurecidas de Trump sobre os actuais preços da energia, que estão a levar a inflação e o preço dos combustíveis para lá do eleitoralmente aceitável nos EUA, é, aponta ainda Anas Alhaji, é que o Catar é também o 2º maior produtor mundial de Hélio, um gás raro em todo o mundo, mas essencial em várias etapas da indústria naval, da solda, estanquicidade, trabalhos submersos...
"Mais uma vez, aqui, este conflito pode estar a ser positivo na perspectiva económica de Donald Trump, porque os EUA são o maior produtor de Helio do mundo e, tal como no LNG, podem ganhar quotas de mercado ao Catar na Ásia Oriental ou aproveitar para revitalizar a sua indústria naval quando a concorrência sul-coreana está de rastos", disse, numa segunda nota sobre este assunto, Alhaji... no mesmo podcast.
O Presidente norte-americano, numa declaração igualmente extraodinária, disse, mesmo sabendo que isso pode destruir as possibilidades do seu partudo Republicano nas eleições intercalares de Novembro, que o impacto nos mercados, "é um preço muito baixo a pagar" pelos beneficios deste conflito, porque os mercados voltarão ao normal assim que "a ameaça nuclear" iraniana estiver desmantelada.
O Irão nunca disse que queria armas nucleares, o que o acordo assdinado com os EUA em 2015, era Barack Obama Presidente, garantia isso sem margem para dúvidas, e foi Donald Trump, logo em 2016, que abandonou esse tratado unilateralmente...
O acordo nuclear com o Irão, denominado Plano de Acção Conjunto Global (JCPOA), assinado em 2015 e iniciado em janeiro do ano seguinte, limitou o enriquecimento de urânio do Irão em troca do levantamento de sanções económicas, com o objetivo de garantir a natureza pacífica do programa atómico de Teerão, mas foi abruptamente interrompido quando Trump chegou à Casa Branca, nesse mesmo ano.
Igualmente relevante neste contexto é que a China, o gigante que compete com os EUA pela liderança económica planetária, embora tenha outras fontes de energia, como a Rússia, o Cazaquistão, a Venezuela... ou o Irão por via terrestre, também pode enfrentar o mesmo tipo de problemas, mesmo que num nível menos severo, o que seria sempre visto como uma vantagem na perspectiva de Donald Trump e da sua Administração.
É neste contexto que, já nas primeiras horas desta segunda-feira, 09, o 10º dia de guerra, o barril de Brent, a principal referência para as exportações angolanas, estava a valer, perto das 09.15, 106,4 USD, uma subida de 15,1 % face ao fecho de sexta-feira, a últioma sessão da passada semana, quando fechou perto dos 92 USD.
Angola soma ganhos, mas...
O actual cenário internacional tende a manter os preços muito acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 106 USD, mais de 45 USD acima do OGE do ano corrente.
O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

