Ao mesmo tempo que Tedros Ghebreyesus viaja para Bunia, a capital de Ituri, província do leste da República Democrática do Congo (RDC), em Kinshasa, as autoridades sanitárias declaram guerra aos "rumores" porque provocam quase tanto mal como o próprio vírus.
Apesar dos esforços em curso, envolvendo equipas da OMS, do Centro de Combate às Doenças (CDC-África) da União Africana, do Governo congolês e várias organizações internacionais, como os Médicos Sem Fronteiras, o vírus parece estar a ganhar terreno.
Prova disso é que, mesmo depois de fecharem as fronteiras, países como o Uganda registam cada vez mais casos, com oito infecções confirmadas laboratorialmente e uma morte, e o Ruanda apresenta os primeiros casos suspeitos.
Isto, quando, dentro da RDC, as províncias dos Kivu, Norte e Sul, já foram agregadas ao mapa da evolução desta 17ª epidemia de Ébola no país desde que em 1976 o vírus foi, pela primeira vez, detectado em humanos, na província do Equador, no oeste do Congo.
Face à evolução acelerada da infecção, porque, ao contrário de outras estirpes do vírus, esta, o Ébola-Bundibugyo, com origem no Uganda, não tem nem vacina nem tratamento, ao contrário doutras, e é uma das de mais fácil transmissão.
Com esta fragilidade, a ausência de vacina, que não é o caso do Ébola-Zaire, o mais comum, e mais letal, que já pode ser prevenido por campanhas de vacinação, às equipas médicas e técnicas resta a prevenção social que exige afastamento entre pessoas com sintomas ou com contactos de risco.
Mas é aqui que emerge uma das frentes de batalha de mais difícil abordagem, porque se o isolamento dos doentes ou suspeitos é o método mais eficaz, as crenças entre as populações das comunidades mais afectadas, são "o inimigo a abater".
Isto, porque, como ocorre em muitos países do continente, mas nesta região de forma mais intensa (ver links em baixo), as práticas tradicionais e o crencismo vigente, levam a que as famílias e amigos das vítimas não aceitem que os seus mortos não desçam à terra sem as despedidas rituais, que quase sempre exigem tocar nos cadáveres.
E o toque em doentes ou vítimas é a forma mais comum de transmissão deste vírus, porque este se dispersa essencialmente pelos fluídos corporais, e contacto corporal intenso, precisamente o que é exigido nas cerimónias e rituais tradicionais.
Além disso, as populações estão inundadas de rumores sobre a origem externa da doença, que esta está a ser propositadamente dispersa pelas equipas que chegam do exterior e que a melhor forma de lidar com a doença é recorrer aos médicos tradicionais e curandeiros.
É por isso que em Kinshas as autoridades sanitárias declararam guerra aos rumores, que são quase tão maus como o vírus na dispersão desta febre hemorrágica, e para a qual não nem vacina nem tratamento e é altamente infecciosa.
Este caldo cultural que dificulta o combate à epidemia gera mesmo casos de violência contra as equipas médicas ou até contra os equipamentos construídos para debelar a doença, como sucedeu recentemente com a destruição de um centro de isolamento que foi incendiado pelos familiares e amigos de uma criança vítima da infecção hemorrágica.
E é essa uma das razóes que leva o chefe da OMS ao epicentro da epidemia, que já fez mais de 140 mortos e estão registados centenas de casos de mortes suspeitos, além de quase 1000 infectados já confirmados ou à espera de confirmação laboratorial.
"Eu quero que vocês saibam que não estão sozinhos", escreveu Tedros Adhanom Ghebreyesus na rede social X, no momento em que se dirigia para o epicentro da epidemia que está mesmo a começar a assustar os Estados Unidos, que já criaram no vizinho Quénia um centro de acolhimento/quarentena para eventuais cidadãos norte-americanos contaminados ou suspeitos ou com contactos de risco, embora a justiça queniana tenha, depois, impedido o avanço deste projecto.
Também em Kinshasa, onde o Governo do Presidente Felix Tshisekedi, tem vindo a anunciar periodicamente reforço de verbas destinadas ao combate à epidemia, o Ministério da Saúde deu início a uma campanha que visa assegurar a todos que ninguém ficará de fora das unidades hospitalares existentes ou a serem criadas para esta ocasião.
E ainda para sensibilizar as comunidades a não cederem aos rumores que se dispersam como fogo pelo capim seco sobre evitar estes centros de tratamento e optarem pelos curandeiros e feiticeiros para lidar com a doença.
Doença que tem ainda como aliado os focos de violência guerrilheira, como é o caso do M23, nos Kivu Norte e Sul, ou as ADF/estado islâmico, em Ituri, entre outras, que são a razão pela qual o leste da RDC tem centenas de milhares de pessoas em campos de refugiados, um dos focos mais melindrosos para a dispersão da doença.
Outra questão é que estas guerrilhas, temendo que as autoridades oficiais, usem este pretexto para infiltrar forças ou elementos da intelligentsia junto com as equipas médicas, dificultam substancialmente o acesso destas aos locais afectados pela infecção, não apenas impedindo o tratamento dos infectados, como abrindo novas rotas para a sua dispersão e alastramento regional.
Para contornar este obstáculo, a ONU tem lançado repetidos apelos para que as partes acedam a aceitar tréguas temporárias para facilitar o trabalho das equipas médicas.









