... e foi logo na madrugada de ontem para hoje, segunda-feira, 08, que Israel apontou os seus misseis de cruzeiro lançados dos F-35 a quatro cidades iranianos, incluindo Teerão, com explosões ouvidas em locais com unidades industriais petro-químicas, como Mahshahr, no sudoeste do país, e alegadamente lançadores de misseis em Tabriz, no noroeste...
... e de nada valeu o Presidente dos EUA, Donald Trump, ter dito que tinha ligado ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, para que este evitasse ripostar porque Washington e Teerão estão na iminência de assinar um acordo de paz duradouro.
Como de nada valeu Trump ter vindo a público, na sua rede social, a Truth Social, pedir ao Irão para parar com os ataques sobre Israel, ficar satisfeito com os misseis lançados sobre o norte de Israel e agora redireccionar as atenções para a mesa das negociações.
É que, já esta manhã der segunda-feira - os misseis ainda estavam no ar quando esta notícia estava a ser escrita, perto das 08:30 - o Irão disparou uma nova vaga de misseis balísticos para território israelita, onde as sirenes de alarme soavam estridentes.
As tensões escalaram no final do dia de Domingo quando Teerão cumpriu a promessa de atacar Israel, isto depois de ter aconselhado as populações do norte de Israel para saírem das suas localidades em direcção a sul, na sequência dos ataques israelitas a Beirute.
Com este retomar das hostilidades entre Israel e o Irão, chega ao fim, pelo menos para já, o cessar-fogo que os EUA e o Irão acordaram no início de Abril, que colocou entre parêntesis a guerra que a coligação israelo-americana declarou ao Irão a 28 de Fevereiro.
A razão para que um conflito no Líbano tenha levado o Irão a atacar Israel é que para Teerão a guerra israelo-libanesa faz parte do conflito mais alargado no Médio Oriente, tal como Gaza, com o Irão a condicionar a paz ao fim das hostilidades nestas frentes também.
Ainda a segunda vaga de misseis iranianos não tinha chegado a Israel e já Donald Trump estava, segundo a Al Jazeera, a informar que voltou a falar ai telefone com Benjamin Netanyhau para este parar com os ataques porque é essa a única forma de dar uma possibilidades à paz de vingar.
Todavia, vários analistas notam que os avisos de Trump a Netanyhau são, provavelmente, parte de uma farsa alargada, onde o americano precisa de mostrar internamente, por causa das eleições intercalares de Novembro, que busca a paz mas na verdade está por detrás a apoiar estas iniciativas de Telavive.
Isto, porque Israel depende quase na íntegra dos EUA para poder fazer estes ataques sobre o Irão, considerando que os seus misseis são lançados de aviões F-35 e que estes precisam de ser reabastecidos no ar (na foto)e só os norte-americanos possuem esses meios para disponibilizar a Israel na região, alguns deles, como os Boeing KC-135 Stratotanker, estacionados nas bases militares israelitas.
No que diz respeito às consequências destes ataques de um e do outro lado, há imagens provenientes do Irão a serem difundidas em vários canais, como a CNN, e alguns impactos de misseis balísticos iranianos no norte de Israel mostrados em vídeos nas redes sociais.
Mas se do Irão, como Tohid Asadi, o correspondente da Al Jazeera informou a partir de Teerão, se sabe que houve impactos em Tabriz, na capital do país, e ainda em mais dois locais tidos como unidade industrial petroquímica e um alegado ponto de lançamento de misseis, de Israel, devido á censura mediática, apenas se sabe que as autoridades oficiais garantem que "todos os misseis iranianos foram neutralizados".
Entretanto, como seria de esperar, os mercados energéticos internacionais estão em ebulição nesta segunda-feira, 08, pela manhã, com o barril de Brent a subir quase 5%, para os 97.4 USD, e com tendência clara de subida devido ao impacto deste retomar das hostilidades entre Israel e o Irão.
A escapatória para que este conflito não evolua para uma guerra aberta entre o Irão e Israel, está nos efeitos devastadores que está a ter na economia global, onde a norte-americana não escapa, desde logo devido à inflação, com acentuado peso nos combustíveis.
E para Donald Trump e o seu Partido Republicano, esse efeito colateral da guerra no Golfo, devido ao fecho do Estreito de Ormuz desde o início de Março, por onde passa 20% do crude consumido no mundo, mais de 20 milhões de barris por dia, é uma granada destravada na estratégia eleitoral para as eleições intercalares de Novembro.
É que se os republicanos perderem as maiorias que possuem nas duas câmaras do Congresso, como as sondagens actuais apontam como quase certo, não apenas Trump ficará com menos liberdade para governar nos dois últimos anos de mandato, como pende sobre a sua cabeça uma ameaça real de destituição.
É que a oposição democrata já anunciou que se tiver a maioria na Câmara dos Representantes, em Novembro abre dois processos que podem levar à destituição de Trump, uma porque escondeu informação sobre o escândalo de pedofila dos Ficheiros Epstein, e o outro devido a ter começado a guerra com o Irão sem informar o Congresso, como a Constituição impõe.
Há, porém, um dado que não pode ser ignorado: este ataque iraniano sob re Israel seguiu as "normas" em vigor definidas por Donald Trump na sua estratégia de manipulação dos mercados, avançando e recuando nas suas ameaças antes do fim-de-semana, ou antes do começo da semana, de forma a "estabelecer" o preço do barril de petróleo...
É que os misseis iranianos desta vez foram disparados horas antes da abertura dos mercados internacionais e o efeito foi imediato, o barril, tanto de Brent, em Londres, como o WTI em Nova Iorque, começaram o dia a subir quase 5%, um golpe na estratégia eleitoral de Trump e um "bónus" para as contas iranianos...
Um mundo novo e perigoso
Para alguns analistas, como Trita Parsi, do Quincy Institute for Responsible Statecraft, um dos mais influents think tanks norte-americanos sobre política internacional, este regresso à guerra e a forma como está a acontecer vai exigir muita reflexão porque introduz elementos novos nos conflitos do Médio Oriente.
Um deles é que é a primeira vez que o Irão ataca Israel como resposta de ataques israelitas sobre um país terceiro, o que, aponta este analista, "significa que as linhas de combate moveram-se" para um território se não desconhecido, pouco observado até agora.
Outro dado relevante é que o Irão avançou para este tipo de acção agora, quando já teve o mesmo tipo de justificação anteriormente, o que quer dizer que, "no mínimo, restaurou quase toda a sua capacidade" no âmbito dos seus mísseis balísticos e drones e não teme nem Israel nem os EUA.
"É claramente a primeira vez que um país na região do Médio Oriente mostra ter meios, poder militar e vontade férrea para se impor contra Israel e as saus manobras militares que durante décadas foi realizando de forma impunemente contra países vizinhos".
Este momento é ainda muito importante, acrescentam outros analistas, porque vai colocar uma pressão sobre os decisores em Washington a que estes não estavam habituados, considerando que sempre foi possível à Casa Branca agir sem receios por saber não ter Israel, o seu maior aliado em todo o mundo, adversário à sua altura.~
Um dos pontos-chave que se terão alterado é que o Irão, que que não o poderia fazer sozinho, como nota Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, como vasta obra sobre conflitos nesta região, tem agora capacidade e vontade de fazer face à coligação israelo-americana.
O que este analista deixa claro é que tal cenário só é possível porque Teerão conta com o apoio da China e da Rússia, embora outros analistas, como Larry Johnson, antigo analista da CIA, apontem para um cenário ainda mais perigoso: "O irão pode ter avançado para a aquisição de armas nucleares".
E isso pode ter sido feito por tecnologia própria, como EUA e Israel admitem e dizem poder acontecer há décadas, ou por contribuição de potências nucleares externas, como a Coreia do Norte, por razões de ideologia geoestratégica, ou o Paquistão, por ser, como há muito se entende, a "força de dissuasão nuclear do Islão".









