Depois de na sexta-feira, 29, ter entrado, com toda a sua equipa, incluindo conselheiros militares e políticos, na sala das reuniões de emergência na Casa Branca para dar a última palavra sobre o acordo de paz que estava quase, quase pronto... nada aconteceu.
Mas os mercados petrolíferos, nas horas anteriores, implodiram, com descidas recorde, para muito perto dos 90 USD, no caso do Brent, depois de longas semanas muito acima dos 100 USD, assim que esse reunião foi anunciada, acreditando, mais uma vez, na palavra de Trump.
Se se olhar para as páginas dos jornais internacionais publicados entre quinta-feira, 28 e sexta-feira, 29, quando a Casa Branca assumiu a iminência da assinatura de um acordo, e uma reunião ao mais alto nível marcada por Donald Trump para dar a última palavra, parecia mesmo que só faltava o "ok" de Trump.
Mas hoje sabe-se que era, como já sucedera por várias vezes, ao longo desta guerra com o Irão, uma forma de manipular os mercados levando a uma descida abrupta no valor do barril, o que foi conseguido, porque não apenas mudou tudo no Sábado, como os EUA retomaram os ataques no Estreito de Ormuz, contra posições iranianas.
Os mercados petrolíferos, como sempre, perceberam esta segunda-feira, 01, que tinham sido enganados, mais uma vez, e estão de novo a subir, mais de 3,3%, no caso do Brent, e outro tanto no WTI de Nova Iorque.
Isso, enquanto na outra frente desta guerra, onde o cessar-fogo nunca chegou, na invasão israelita do sul do Líbano, que começa a abranger todo o sul do país numa dimensão que já não se via há décadas, a situação agrava-se a cada dia que passa e as forças de Telavive assumem cada vez mais território libanês.
Alguns analistas, como Larry Wilkerson, coronel e antigo conselheiro do secretário da Defesa dos EUA, entendem que Trump está a lutar contra duas frentes em que não pode vencer nenhuma, que é a guerra no Irão, cuja realidade já lhe demonstrou que não tem como Vergar Teerão, e a outra é com Israel, onde parece ceder a tudo o que o primeiro-ministro Benjamin Nentanyhau lhe pede.
E o que Netanyhau quer é tempo, para poder alcançar os seus objectivos no Líbano, onde pretende consolidar posições no sul do país, que está praticamente arrasado, como sucedeu em Gaza, e isso só é possível se o acordo de paz com o Irão for sucessivamente adiado.
A razão é que Teerão não separa as frentes de guerra no sul do Líbano e do Golfo Pérsico, onde o cessar-fogo deve ser respeitado, Israel parar a invasão e retirar as suas forças do país, onde está sob a justificação de estar a combater o Hezbollah, a organização xiita de resistência à ocupação israelita e um aliado regional assumido do Irão.
E tudo indica que os norte-americanos estão a ceder à pressão de Benjamin Netanyhau, porque Trump não deu, como estava a ser dado como certo que sucederia, a ordem para assinar o acordo, na forma de Memorando de Entendimento, na sexta-feira, como os EUA voltaram a atacar posições no sul do Irão, na Ilha de Qeshm e na cidade costeira de Goruk.
Estes ataques, como sempre acontece, levaram o Irão a reagir e a ripostar com misseis sobre a base aérea dos EUA no Kuwait, de onde dizem ter partido o ataque, além de terem abatido mais um drone de vigilância o MQ-9
Desde que o cessar-fogo foi acordado, no início de Abril, ao fim de seis semanas de guerra de alta intensidade, que começou a 28 de Fevereiro, com o ataque inicial da coligação israelo-americana contra o Irão, Israel nunca parou de atacar no Líbano e os EUA já lançaram misseis sobre o Irão em quatro situações distintas sem que se tenha visto uma justificação plausível para quebrar o acordo, além de se tratar de operações para permitir a Netanyhau continuar a sua invasão no Líbano.
Tanto na Casa Branca como em Teerão, ninguém assume que o cessar-fogo está morto e a guerra está de novo ao virar da esquina, mas as dúvidas amontoam-se e o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaeil Baghaei, já veio dizer que Washington estás a violar a Lei Internacional e o cessar-fogo.
Só que estes percalços no acordo de cessar-fogo podem, e estão já a ter consequências graves na estabilidade regional, porque o Corpo da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) avisou que não só haverá sempre uma retaliação aos ataques norte-americanos como os países árabes aliados dos EUA no Golfo Pérsico que deixarem usar os seus territórios para lançar ataques contra o Irão serão severamente punidos.
E Esmaeil Baghaei foi ainda mais longe, porque os Emiratos Árabes Unidos, hoje o principal aliado de Israel no Golfo Pérsico, estão activamente a apoiar as operações militares dos EUA, lembrando que este país vive numa "situação vergonhosa de selectividade moral" quando acusa o Irão de estar a atacar os países vizinhos.
É que os iranianos não desviam o olhar da ideia de que os países árabes do Golfo - Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Emiratos e Bahrein - são cúmplices dos EUA e de Israel nesta guerra ao permitiram que as bases norte-americanas nos seus territórios sejam usadas para lançar e coordenar ataques em solo iraniano.
Enquanto isso, o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e do gás mundiais, quantidades estratégicas de fertilizantes, alumínio ou hélio (indústria de chips), cuja falha de fornecimento está a deixar vastas regiões do mundo em polvorosa, permanece sob controlo iraniano, e os EUA não desistem do bloqueio naval aos portos iranianos.
Com a crise económica global a agravar-se, especialmente devido à saída de circulação de quase 20% do crude dos mercados internacionais, em Washington, onde o aumento da inflação via combustíveis, e a grave falta de fertilizantes, pode traduzir-se por uma derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares de Novembro, Donald Trump vive por estes dias um dilema gigantesco: acudir à emergência interna ou ajudar o seu amigo Benjamin Netanyhau em Telavive?
A resposta mais razoável parece ser que está a tentar ganhar nestas duas frentes, dar tempo a Netanyhau para ganhar mais uns quilómetros dentro do Líbano e consolidar posições e garantir que antes do começo das férias do Verão, quando os "eleitores" americanos deixam as suas casas aos milhões, vão ter gasolina mais barata para encher os depósitos dos seus carros de alta cilindrada e de grande consumo.
Já não tem mais de duas semanas.










