Joseph Kabila, de 55 anos, que governou a RDC entre 2001 e 2019, quando deixou o poder não escondeu a sua mágoa e partiu para parte incerta, mas sempre com a Justiça controlada pelo Presidente Tshisekedi no seu encalço.

Foi sendo acusado, sem culpa formada, de incentivo à violência ou mesmo insurreição, mas só em 2025 acabou, após um longo julgamento, condenado à morte à revelia, tendo-lhe sido acrescentados os crimes de traição e terrorismo.

Já na altura em que foi divulgada a sentença emanada do Tribunal Militar de Kinshasa, Kabila estava no leste da RDC, ao lado dos grupos de guerrilha que constituíam a Aliança do Rio Congo (AFC, em francês), sendo o mais conhecido, especialmente pela desestabilização dos últimos anos e as suas ligações ao Ruanda, o M23.

A AFC (M23) é uma organização liderada por Corneille Kangaa, um general guerrilheiro e antigo presidente da Comissão Eleitoral Independente (CENI), no tempo de Joseph Kabila Presidente, entre 2015 e 2020, sendo claramente um seu velho aliado e que agora, fruto dessas cumplicidades, o acolheu no leste congolês, entregando-lhe a liderança da "revolta".

A FRN aparece assim liderada por Joseph Kabila, como começou esta terça-feira, 13, a ser conhecido na RDC, embora o anúncio formal tenha ocorrido na véspera, em Goma, a capital do Kivu Norte, que, tal como o Kivu Sul e Ituri, estão ainda total ou parcialmente sob domínio da AFC/M23.

A Radio Okapi, com estúdios centrais em Kinshasa, mas com uma rede sólida de "antenas" em todo o país, criada há décadas no âmbito da MONUSCO, a missão da ONU na RDC, avança que a AFC foi já dissolvida e transformada na FRN, que passa a ser liderada pelo antigo Presidente Kabila.

A AFC/M23 nunca escondeu que o seu objectivo é chegar a Kinshasa e conquistar o poder à força das mãos de Felix Tshisekedi, prevendo agora os analistas como cenário plausível, que, inicialmente, Joseph Kabila assuma as rédeas desta poderosa frente, que conta com apoios relevantes no Ruanda e no Uganda, com um discurso mais polido e político.

Mas a sua chegada ao "cargo" vai, ainda segundo os mesmos analistas congoleses, despoletar uma contra-reacção mais dura por parte do regime de Tshisekedi, porque a partir deste momento os dados foram lançados num jogo mortal do "tudo ou nada".

É que se Kabila visa regressar ao "Palácio" em Kinshasa, Tshisekedi já disse (ver links em baixo) que pretende conseguir um terceiro mandato, nem que para isso seja necessário mudar a Constituição, de forma a encaixar no "húmus" legal congolês um 3º mandato, que agora é ilegal.

O novo movimento nem sequer ilude nas entrelinhas da sua oficialização que o "inimigo" é Felix Tshisekedi, aludindo ao Artº 64 da Constituição, no qual está plasmado que qualquer cidadão congolês está obrigado a contestar e lutar contra todos aqueles que pretendem chegar e manter o poder pela força.

Ora, isso mesmo é o que o novo movimento de Kabila, que tem agora os antigos líderes da AFC/M23, Corneille Nangaa e Bertrand Bisimwa, como seus vices,acusa Tshisekedi de estar a fazer ao anunciar uma nova Constituição para se poder manter no poder.

Todavia, este "golpe de asa" de Kabila está a ter, como se esperava, até porque ele próprio precisa de uma plataforma legal em Kinshasa, o seu antigo partido, o PPRD (Partido do Povo para a Reconstrução e Democracia), afasta-se deste movimento e os principais líderes anunciaram a demissão.

E não é para menos, porque, a partir do leste da RDC, Joseph Kabila lançou, dias antes doo momento da apresentação deste seu novo projecto político, a 09 de Outubro, um apelo ao "sobressalto colectivo" dos congoleses contra a tirania de Tshisekedi.

Estes gritos de revolta acontecem com Kabila protegido por uma plataforma militarizada como é a agora FRN, que é uma protecção inexpugnável, como o demonstra a resistência conseguida não apenas contra as Forças Armadas da RDC (FARDC), como ainda dos corpos militares que nos últimos anos, incluindo contingentes angolanos (ver links em baixo) tentaram "estabilizar a região", tendo como rectaguarda alargada o Ruanda.

Ora, é precisamente aqui que que este momento ganha particular interesse, porque há muito que se sabe que o Ruanda mantém uma presença sólida e regular no leste congolês onde minera, entre outros minerais estratégicos, o coltão, do qual é um grande exportador sem ter, como a ONU reconhece, qualquer depósito deste minério no seu solo.

O que deixa em evidente, destaque entre as intenções deste movimento político-militar liderado na RDC por Kabila, que o acesso privilegiado aos imensos recursos naturais do leste congolês por parte de Kigali não seja alterado e que, numa perspectiva mais alargada no tempo, uma eventual cisão territorial seja igualmente tentada, aproveitando o caos reinante há décadas nas províncias fronteiriças dos Kivu Norte e Sul e ainda Ituri.

Por perceber fica a forma como Kabila se vai posicionar face ao acordo de paz mediado pelos EUA entre o Ruanda/M23 e a RDC para a estabilização do leste congolês, até porque esta é uma das oito guerras que o Presidente Donald Trump repete amiúde que acabou desde que regressou à Casa Branca em Janeiro de 2025.