Uma taxa de desemprego onde quase 3 milhões de eleitores não têm trabalho e 40,5% dos jovens dos 15 aos 24 anos estão desempregados confirma que existe um sério constrangimento e demonstra que, apesar da intenção de pôr a casa em ordem, a casa ainda não tem emprego para os filhos e as famílias vivem com um salário que não dura duas semanas. O Estado Da Nação poderá explicar como fará a passagem de "estabilizar", para "distribuir", como vai converter o déficit orçamental em estímulo ao crescimento económico, como vai transformar a taxa de inflação baixa em poder de compra real no mercado da Estalagem e como transformará a estabilidade do Kuanza em comida na mesa dos eleitores.
A pergunta que se deve colocar não é quanto crescemos, mas sim perguntar quando é que o crescimento sairá dos relatórios do INE e se instalará no bolso do eleitor que acorda às 5 da manhã para entrar no candongueiro já lotado? O eleitor já não quer saber de estabilidade. O que importa mesmo é saber que pode começar o seu pequeno negócio de forma legal sem ter de pagar 10 licenças, que consegue colocar o filho na universidade sem ter de vender a geleira, que as crianças dos 3 aos 5 anos têm acesso à educação pré-escolar e que aqui, na sua pátria, pode fazer nascer um sonho sem ter de lutar por um visto para ir para Portugal. Temos um país estável por fora, mas perigosamente instável por dentro.
Somos um povo híper resiliente porque sobrevivemos há 50 anos sem políticas públicas universais. A dotação orçamental atribuída à política pública não a consegue tornar universal. E uma política pública que não consegue ser universal não é política pública. É favor. É privilégio. É uma caridade enrolada na nossa bandeira. É moeda de troca em forma de voto. O reverso desta medalha é que o eleitor percebe que o Estado mente. Mente com carimbo. E desta forma o eleitor deixa de acreditar nas instituições.
O eleitor vê alguns benefícios a acontecerem na televisão, nas primeiras páginas do Jornal de Angola. Vê algumas políticas públicas chegarem ao seu bairro. Mas não chegam à sua rua. Mas não entram na sua casa. Vê o poster da merenda escolar, mas o seu filho está numa escola que não foi incluída na lista que foi recebida pelo município. A escola pública é um desastre físico e psicológico. É um atentado à integridade infantil e juvenil. Atenta, na maioria dos casos, contra os Direitos Humanos. A política de habitação social falhou de forma olímpica. O acesso exige emprego formal, de preferência no Estado, cunha no Governo Provincial e muitas orações. Para o crédito jovem empreendedor o banco pede 15 documentos, conta com 6 meses, avalista. A população pobre, que é a maioria deixou de acreditar no Estado. Se está doente vai comprar medicamento no mercado sem saber que doença tem ou se aquele é o medicamento indicado. Se precisa de botija vai tirar na kixikila. O povo vira-se. O Estado finge que ajuda. Todos os Estados em situação de depressão social exigem que um dia, mais cedo do que tarde, alguém se levante e decida fazer diferente. Não basta "ganhar" eleições. É imperativo que o DEVER DE PROTEGER O POVO se torne efectivo e que os Direitos deste povo sejam respeitados de forma exemplar.
Angola tem quatro caminhos. O CAMINHO DA REFORMA POR DENTRO quando a elite perceber que se não fizer diferente corre o risco de perder tudo. Acontece quando o Estado torna as políticas publicas universais, não porque tenha ficado arrependido, mas porque percebe que é mais barato optar pela empatia, do que conter uma revolta popular. O CAMINHO DA ESTAGNAÇÃO LENTA que é o caminho onde nada acontece. O Estado não cai, mas o povo não cresce. Este caminho termina pelo cansaço porque o país fica velho antes de ficar rico. Os cérebros e a massa crítica jovem partem e o país fica vazio de talento. O CAMINHO DA RUPTURA SOCIAL - acontece quando o "quase" já não aguenta, devido à diferença entre o que o Estado Promete e o que o Estado Cumpre. Nestes casos, basta que uma geração diga NÃO. Esta geração que não viveu a guerra, que perdeu o medo porque a morte é real e ronda todos os bairros levando todos os dias dezenas de jovens (52% da população tem menos de 25 anos) e que já não ouve o "tenham calma, estamos a resolver" porque a resolução dos problemas do povo é uma intenção virtual e eleitoralista. O CAMINHO DA CRISE DE RECURSOS e este é o mais perigoso. Se o preço do petróleo cair para níveis demasiado baixos, o Estado perde 70% dos seus recursos de um dia para o outro e este cenário não é imaginário, já aconteceu na Venezuela e na Nigéria.
Sabemos que os Estados não morrem, felizmente. Transformam-se. O que eu desejo é que o governo tenha a coragem e o patriotismo para tornar as políticas públicas universais antes do povo puxar de um nervo. A educação, o posto médico, a luz e água potável não são presentes oferecidos. São Direitos Constitucionais do cidadão. Quando isto acontecer teremos a certeza de que estamos perante uma governação que tornará visível uma NOVA ANGOLA.
