Olhando para o que têm sido os discursos de 2021 a 2025 noto que suscitam diferentes expectativas e reações, não apenas pelo o que dizem, mas sobretudo pelo que revelam.
Porque para muitos, este tipo de discursos revelam o modo como o Presidente da República vê o país. E de certa forma estes cinco discursos tendem a ser visto por muitos como sendo uma espécie de relatório da governação. A arquitectura é fixa: estabilização macroeconómica, dívida pública, reservas internacionais e, provavelmente este ano, o recuo da inflação serão apresentadas como prova da eficácia das reformas empreendidas pelo Executivo. Não deverá faltar uma lista de infra-estruturas construídas: megawatts instalados, quilómetros de asfalto, hospitais erguidos, estabelecimentos de ensino entregues, etc. Ha quem diga ser o primado da oferta de bens e serviços sobre o impacto real destes na vida das pessoas.
As vozes mais críticas, opinam que esse olhar deveria corresponder ao que todos e todas vivemos e sentimos no cotidiano, mas é aqui que a distância é maior. No discurso de 2025, a palavra "pobreza" surgiu uma única vez e "inflação" apenas três. O custo de vida real, o desemprego jovem persistente, a perda de poder de compra e a fome não foram referidas ou surgiram desprovidos de leitura crítica.
Pessoalmente considero errado dizer que nada se moveu. Há movimento no plano material, e é justo reconhecê-lo: a retirada gradual dos subsídios aos combustíveis, o crescimento de 4,4% do PIB em 2024, os investimentos no Sistema BITA, os canais de irrigação, toda movimentação em torno do Corredor do Lobito e nas refinarias. São reais, alguns deles fruto de decisões tomadas em tempos difíceis e politicamente complexos. Ainda assim, eu penso que o recurso a balanços cumulativos, somando conquistas de vários anos ou mesmo desde a Independência, como sucedeu em 2025, tende a ampliar o volume das realizações e a não mostram uma real análise sobre o que foi o desempenho do ano em análise.
Como é normal, a sociedade angolana está dividida entre os que aplaudem e os que contestam, e os discursos de 2023 e 2024 espelharam essa fractura: gritos de "ditador" no final de um, interrupções ao som de "autarquias já" no outro. A responsabilidade por esta tensão não pertence a um só lado; governo e oposição, cada um a seu modo, ajudam a alimentá-la. Em 2025, o tom presidencial mudou para a reconciliação, com a homenagem aos signatários dos Acordos de Alvor, um gesto que merece ser reconhecido. Resta saber se encontrará tradução prática, criando um meio-termo onde apoiantes e críticos possam conviver de forma harmoniosa.
Entretanto, algumas promessas de 2017 avançam a um ritmo lento. As autarquias locais continuam a ser o mais visível dos compromissos adiados: em 2023, a responsabilidade foi remetida para a esfera legislativa; em 2024, para o enquadramento do OGE 2025. Ao mesmo tempo, a Nova Divisão Político-Administrativa foi apresentada como instrumento de descentralização, o que levanta a questão de saber se até agora, as novas províncias vieram de facto aproximar os serviços do cidadão ou adiar o sufrágio local. Também existem vozes que reivindicam o facto de que o combate à corrupção, bandeira do primeiro mandato, foi perdendo destaque, ao ponto de a palavra não constar do discurso de 2025.
Quando explica os problemas, o Presidente aponta causas sobretudo externas: a pandemia, a guerra na Ucrânia, as políticas monetárias restritivas no exterior, a queda da produção petrolífera. Os sucessos, esses, são atribuídos às medidas do Executivo. É uma prática comum nos discursos de governo, em Angola e fora dela. Mas seria importante nomear também as causas internas dos constrangimentos, porque é identificando o que não correu bem que se pode corrigir o que está mal.
Fica ainda por responder a pergunta mais funda: que solo alimenta a narrativa negativa que temos de nós mesmos, o ódio de cariz politico e partidário, as atitudes e práticas nocivas que ganham expressão? Os discursos tendem a atribuir as narrativas negativas aos adversários, tal como a oposição, por vezes, as atribui inteiramente ao poder. Em ambos os casos, fica por olhar para as raízes estruturais: a exclusão, a falta de habitação, a ausência de perspectiva para milhões de jovens.
O que se pede não é um discurso pessimista, mas um discurso completo. Bastaria, por exemplo, que a mensagem de 15 de Outubro trouxesse metas com datas para a institucionalização das autarquias, indicadores de impacto social acusados pelas infraestruturas construídas, e uma leitura franca da pobreza e do custo de vida, acompanhada das medidas para os enfrentar. Seria um sinal de confiança, não de fraqueza, reconhecer o que foi menos bem conseguido apesar dos esforços.
É previsível que a 15 de Outubro se ouça que "o país está melhor do que em 2017". Pode até sê-lo em vários indicadores, e isso deve ser dito. Mas enquanto o discurso oficial se concentrar sobretudo na execução de obras, deixando em segundo plano a qualidade dos serviços públicos e os seus efeitos na vida concreta das famílias, o Estado da Nação arrisca-se a ser lido como o estado das suas estatísticas. A Nação real merece também ser descrita.
*Coordenador OPSA
