Dessa participação na guerra, em pouco mais de 15 anos, milhares de cubanos perderam a vida em defesa da soberania nacional e por uma Angola una, "de Cabinda ao Cunene e do Mar ao Leste". Com isto, Cuba ajudou o MPLA a defender os seus ideais e a evitar que Angola se transformasse na primeira secessão de um Estado africano no século XX, muito antes das divisões da Etiópia, Sudão ou Somália.
Em 1975, para além da guerra, o País enfrentava também a pesada herança colonial de indicadores sociais muito baixos, nomeadamente 85% de analfabetos. Por isso, o Governo elege a Educação como desígnio nacional, mobilizando todos os jovens com alguma escolaridade para essa gigantesca tarefa que incluía também a alfabetização de adultos.
Consequentemente, dá-se a expectável explosão escolar para a qual o País, acabado de nascer, não conseguia responder dada a exiguidade de recursos humanos, financeiros e infra-estruturais (estabelecimentos de ensino). E Cuba, que já enfrentava o injusto bloqueio económico, comercial e financeiro movido pelos EUA, prontifica-se a ajudar Angola.
Por um lado, abre as suas escolas, em Havana e noutros territórios, principalmente na Ilha da Juventude, a milhares de crianças, jovens e adultos de todas as províncias angolanas e, por outro, envia para Angola milhares de professores, de médicos e enfermeiros para ensinar e cuidar da saúde dos angolanos em todo o território nacional.
Quadros cubanos que ajudaram a formar angolanos de diferentes níveis de ensino, particularmente secundário, médio, superior ou técnico-profissional, em estabelecimentos escolares, centros de produção ou espaços políticos e culturais.
Em Cuba, esses alunos e estudantes de origens diversas aprenderam a ser sobretudo angolanos e a ultrapassar divisões étnico-regionais, herdadas da colonização. Nesse sentido, a Ilha caribenha não só ajudou a formar quadros nacionais e a reduzir a elevada taxa de analfabetismo, mas igualmente trabalhou para a unidade nacional angolana
Foi também em Cuba que a generalidade desses jovens, crianças e adultos teve o primeiro contacto, vivência e convivência com africanos de outros países do continente, como Guiné-Bissau, Namíbia, África do Sul, Moçambique, Zimbabwe ou Congo, entre muitos, e a oportunidade de aprender História e a importância da unidade de África.
Ao projecto do MPLA de construção do novo Estado-Nação, baseado no lema a "Agricultura é a base e a Indústria o factor decisivo", Cuba respondeu enviando agrónomos e engenheiros de diversas indústrias, como a açucareira, para lado a lado com camponeses e operários e outros trabalhadores angolanos participarem da reconstrução nacional.
Combatendo o regime do Apartheid, lutando pela libertação da Namíbia e apoiando as forças zimbabweanas no combate contra o regime racista de Ian Smith, Cuba subscreve a aposta de Agostinho Neto que solidária e panafricanamente determina que "Na Namíbia, no Zimbabwe e na África do Sul está a continuação da nossa Luta".
E torna-se decisiva na vitória da histórica Batalha do Cuito Cuanavale (1988), passo determinante para a libertação da África Austral, nomeadamente o início do processo de pacificação de Angola.
Determinante também para desencadear as negociações conducentes à implementação da Resolução 435 da ONU para a Independência da Namíbia, abolição do apartheid e libertação de Nelson Mandela, um dos presos políticos com mais anos (27) de cárcere no Mundo.
Contributo justamente reconhecido pelo próprio Mandela, em 1990 em Havana onde, depois de reconhecer que foi Cuba "quem treinou o nosso povo, quem nos forneceu recursos que auxiliaram tanto os nossos soldados e os nossos doutores", agradeceu a Fidel Castro pelo papel das tropas cubanas "que ajudaram a travar o exército sul-africano, enfraquecendo o regime do Apartheid".
Se pelo seu exemplo de solidariedade internacional ímpar, "o Povo cubano ocupa um lugar especial nos corações dos povos de África", como disse Mandela em Havana, perante a perseguição e o "genocídio" desencadeado pela administração estadunidense contra Cuba, na expressão do embaixador cubano em Portugal, José Ramón Saborido Loidi, Angola e outros africanos deviam estar na primeira linha do apoio à Cuba.
Solidariedade com a Ilha que desde finais de Janeiro deixou de receber petróleo venezuelano, afectando gravemente a vida económica, social e política do País que "resiste como pode", diz o embaixador Loidi, em entrevista à rádio portuguesa TS.
Essa asfixia de todos os sectores da vida cubana vem confirmar que o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pela Administração Trump, no início deste ano, tinha também como objectivo privar Cuba de petróleo e, com isso, fazer colapsar a economia local.
Com esse plano e o embargo, a dupla de Donald Trump e o ressabiado secretário de Estado, Marco Rubio (filho de imigrantes cubanos nos EUA) vai dando sinais de pretender criar o caos para provocar revolta popular e justificar uma intervenção militar que transforme Cuba num protectorado de Washington.
Embargo que "impõe dificuldades indevidas aos cidadãos comuns e impede o desenvolvimento sustentável" de Cuba, de acordo com denúncia recente da presidente da Namíbia, Netumbo Nandi-Ndaitwah, que voltou a apelar ao seu fim.
Mesmo que o embaixador Lodi assegure que o povo cubano "será capaz de defender a sua soberania e independência a qualquer custo", de Angola, da África Austral e do continente em geral, esperam-se gestos concretos de solidariedade, muito para além de eventual pagamento de dívidas financeiras antigas.
Porque perante uma agressão, "a neutralidade favorece o opressor", como lembrava muitas vezes o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, prémio Nobel da Paz (1984), espera-se que a memória histórica sirva de bússola na assumpçao de responsabilidades pelos países da região.
Assumir a solidariedade com Cuba, que ontem foi determinante para a libertação da África Austral, deve também ser feita em defesa do multilateralismo, da diplomacia e do direito internacionais e da auto-determinação dos países e povos.
Solidariedade com um País que, não obstante o embargo de mais de 60 anos, se transformou no único Estado da América do Sul e Central sem analfabetismo e com a mais elevada taxa de escolarização, fruto do investimento e excelência do seu sistema de Educação, de que continuam a beneficiar cidadãos civis e militares de diferentes países africanos.
Quando o silêncio cúmplice da dita comunidade internacional favorece o agressor, a solidariedade africana impõe-se para que a Ilha de 11 milhões de habitantes preserve um dos melhores sistemas de saúde do Mundo, segundo a OMS, que forma e coloca profissionais de saúde de excelência em todas as regiões do Mundo.
Médicos e enfermeiros que ajudaram a combater a pandemia da covid-19 em Itália, Espanha e outros países do dito Primeiro Mundo, bem como na África do Sul, Angola, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe, no Médio Oriente e América do Sul.
Se na década de 80 do século passado, Thomas Sankara, líder panafricanista do Burkina Faso, defendeu a criação de uma frente africana contra o pagamento da dívida externa, indo ao encontro de propostas de Fidel Castro, hoje, consciente da impossibilidade de África retribuir com a mesma grandeza o internacionalismo autêntico da Ilha caribenha, ao continente resta-lhe criar uma frente de solidariedade, porque com Cuba "la deuda es impagable".

