A vingança russa parece estar em curso, mas não na forma de acto único, antes pelo contrário, como há muito defende a linha mais dura dentro do Kremlin, onde se destacam figuras como o até aqui visto como ponderado Sergei Lavrov, chefe da diplomacia no Kremlin.

Com efeito, logo no dia seguinte, a 23 de maio, entre misseis de cruzeiro e balísticos, alguns hipersónicos e centenas de drones, Kiev foi fustigada com a mais intensa chuva de fogo em largos meses, senão a mais violenta desde a invasão russa em 24 de Fevereiro de 2022.

E na noite de ontem, segunda-feira, 01, para hoje, terça-feira, 02 de Junho, a capital ucraniana voltou a experienciar uma das mais devastadoras vagas de ataques com outros tantos drones e misseis balísticos, de cruzeiro e hipersónicos, concentrados sobre alvos militares e industriais.

Apesar de os media ocidentais, alinhados com Kiev referirem que os russos alvejaram "apenas" zonas residenciais, comerciais e até infantários, Kiev registou "apenas" quatro mortos e perto de 20 feridos.

Ao contrário do que noticiam os media russos e disso dá nota ainda o Ministério da Defesa em Moscovo, negando que este ataque visa-se objectivos civis, apontando antes a locais de interesse militar e industriais ao serviço do esforço de guerra ucraniano.

É comum dizer-se que a verdade é a primeira vítima de todas as guerras, mas os números são indiferentes às narrativas de ambos os lados: se os misseis russos visassem zonas residenciais em Kiev, quantas pessoas morreriam apenas numa noite de ataques?

A questão é colocada por vários observadores, como Larry Johnson, antigo analista da CIA, num podcast disponível no YouTube, onde nota que os media ocidentais alinhados com Kiev parecem não dar conta que as suas abordagens contêm a própria negação do que relatam.

Isto, apesar de ser evidente que alguns projectéis acabam por atingir zonas residenciais, mas, como o próprio autarca de Kiev, Vitalii Klychko, admitiu em diversas ocasiões, são quase sempre destroços de misseis e drones abatidos, o que sendo perigosos, transportam muito menos carga letal na sua trajectória, explicando assim o reduzido número de vítimas.

Além de Kiev, a noite de fogo que envolveu a Ucrânia, deixou um rasto de destruição ainda em cidades como Dnipro, Zaporizhia ou Kherson, estas duas últimas as capitais das regiões anexadas pelos russos em 2022 mas ainda parcialmente, incluindo as duas cidades, na posse dos ucranianos.

Apesar de ser conhecido que entre as muralhas do Kremlin se digladiam duas alas com olhares distintos sobre a condução da guerra, sendo que Putin inclina-se claramente, pelo menos até aqui, para uma actuação moderada de desgaste do adversário.

Isso, enquanto do outro lado, onde pontuam Sergei Lavrov, com uma rede de apoio na sociedade, desde logo nos chamados bloggers de guerra, e figuras com grande capacidade de influência, como Sergey Karaganov, que lidera o Conselho para a Política de Defesa Nacional e Internacional.

A linha mais dura entende que já foram ultrapassadas as linhas vermelhas todas e que chegou o momento de a Rússia avançar para uma guerra e abandonar as limitações naturais de uma "operação militar especial".

O que pressupõe ataques aéreos mais intensos e regulares, mais poder de fogo colocado na linha da frente e definir como alvos legítimos, o que até aqui nunca aconteceu, centros de decisão política e militar em Kiev, além de as figuras proeminentes do regime ucraniano estariam assim mais expostas...

Se Vladimir Putin, que até fez saber o Presidente Zelensky, através do então primeiro-ministro israelita, Naftali Bennett, que não seria perseguido para eliminação, tem estado alinhado com a ala mais moderada, aparentemente tudo, ou bastante, mudou após o ataque de 22 de Maio à escola de Starobelsk, na região de Lugansk.

E isso pode ser perscrutado nas recentes declarações do Presidente russo, que fez saber esta segunda-feira que a Ucrânia será "alvo de uma inevitável punição" pelo "crime horroroso" que cometeu ao atacar o dormitório de jovens em Starobelsk, onde a maior parte das vítimas eram jovens raparigas.

"Todos os responsáveis pelo hediondo crime de Starobelsk terão a devida, inevitável e merecida puniçã", disse Putin quando estava reunido com elementos do seu Governo e de departamentos ligados à investigação judicial e criminal, onde foi discutido o processo de averiguações sobre Starobelsk.

E, num tom de claro aviso à navegação em Kiev, Putin disse que "a liderança ucraniana abriu um novo capítulo na sua actuação criminosa, dando uma nova dimensão ao conflito como um todo", acrescentando que isso foi "uma escolha que decidiram fazer" e que a retaliação será agora decidida com essa nova configuração em cima da mesa.

Depois das palavras e dos ataques mais recentes, onde os russos usaram vários tipos de misseis hipersónicos, incluindo dois Oreshnik, o mais famoso dos actuais projectéis do arsenal do Kremlin, Kinzham ou Zircon, os ucranianos não apenas negaram que Starobelsk tenha sido uma opção, antes um "erro lamentável" e o Presidente Zelensky vaio mesmo dizer publicamente que "este é um momento favorável a negociações com Putin".

Todavia, muitos analistas entendem que a Federação Russa está apenas a aproveitar este drama de Starobelsk para apressar o que já tinha decidido face ás recentes cagas de ataques bem sucedidos dos ucranianos contra a infra-estrutura energética, e os impactos profundos que isso está a ter na economia russa.

Tudo, ao mesmo tempo que Moscovo, pelo menos os elementos da linha mais dura, começam a dar como impossível vergar Kiev a este ritmo, peso e volume de ataques porque a Ucrânia conseguiu deslocar para a sua rectaguarda, os territórios dos países europeus seus aliados, a sua indústria armamentista, especialmente de drones, onde a máquina de guerra russa não chega nem pode sob risco de desencadear uma guerra com a NATO.

E com isso, com um volume inesgotável de drones a chegar diariamente, os ucranianos conseguem não apenas danificar refinarias, oleodutos, gasodutos, mas também atingir a indústria militar russa e isolar algumas regiões, como a Crimeia, atacando as suas linhas de abastecimento.

Face a este cenário dramático para a Rússia, com uma economia que começa a sofrer além do aceitável, até porque vão acontecer eleições legislativas em Setembro e o Partido Rússia Unida, de Putin, tem vindo a perder gás e pode perder a sua maioria absoluta, Putin está entre a espada e a parede.

Ao mesmo tempo, na linha da frente, apesar de constantes, os avanços de Moscovo são em câmara lenta e muito aquém do esperado.

Como vai responder Putin a esta situação? Olhando e ouvindo o que dizem e escrevem os analistas independentes e mesmo os mais próximos do Kremlin, haverá inevitavelmente uma mudança de estratégia na condução da guerra.

Resta esperar para saber se uma mudança radical, com ataques aos centros de decisão em Kiev e aos locais de produção de armas na Europa Ocidental que municiam a máquina de guerra ucraniana, como propõe Sergey Karaganov, ou apontar baterias a uma solução negociada através de Washington e Donald Trump, como parece ser, ainda, mas em clara mudança, a vontade de Vladimir Putin.