À primeira vista, o cenário afigura-se favorável. Como frequentemente sucede, a realidade económica nacional revela-se generosa em indicadores e parcimoniosa em substância. Em 2009, em Angola houve quem sustentasse, com assinalável segurança, que a crise financeira internacional não teria impacto relevante na economia nacional. Em 2014, não escassearam análises confiantes assegurando que Angola se encontrava devidamente preparada para absorver o choque no mercado petrolífero internacional. Já no auge da crise decorrente da pandemia da COVID-19, foi prometido ao Povo que sairíamos mais fortes, mas a realidade, com a sua sobriedade, acabou por reinterpretar sob a forma de um louvável pedido de perdão. Em todos estes episódios, o país mergulhou em crises profundas não por ausência de sinais, mas, talvez, por uma persistente sobrevalorização da nossa suposta imunidade económica, esse recurso endógeno que, ao contrário do petróleo, aparenta não conhecer ciclos.
Ora vejamos,
O primeiro elemento crítico reside na duração do actual choque no mercado petrolífero internacional. Um aumento de preços de natureza transitória produz efeitos distintos de uma tendência prolongada. O ganho conjuntural pode dissipar-se rapidamente, deixando intactas, ou até acentuadas, as fragilidades estruturais que os sucessivos discursos insistem em declarar "em consolidação".
No plano macroeconómico, o efeito inicial é inequivocamente positivo. Ao nível das finanças públicas, o aumento do preço do petróleo traduz-se numa maior arrecadação de receitas tributárias petrolíferas e num aumento das entradas de divisas. Admitindo que, até ao final do ano, o preço médio do petróleo se mantenha acima dos USD 85 por barril, o Tesouro poderá arrecadar adicionalmente cerca de USD 4 mil milhões, um valor suficientemente expressivo para alimentar algum optimismo, ainda que, como a experiência sugere, não necessariamente sustentável. Contudo, este alívio é parcialmente neutralizado pela expectável apreciação do dólar. Sendo a dívida externa maioritariamente denominada nesta moeda, o seu respectivo serviço torna-se mais oneroso. No plano da política monetária e cambial, é expectável um reforço da oferta de divisas no mercado, com potencial para mitigar pressões de depreciação do Kwanza e contribuir para alguma estabilidade cambial. Não obstante, este efeito tende a ser condicionado pela dinâmica das importações e pela necessidade de cobertura de obrigações externas, limitando a sua expressão líquida. Em termos agregados, o "excedente" poderá revelar-se substancialmente inferior ao que, à primeira vista, é idealizado.
Em segundo lugar, a economia angolana continua a enfrentar o fenómeno clássico de inflação importada. A evidência empírica demonstra que a evolução dos preços nos principais parceiros comerciais se transmite de forma significativa à inflação doméstica. Por exemplo, o aumento dos preços das matérias-primas na China, na Índia ou no Vietname traduz-se inevitavelmente num encarecimento das importações. A este quadro acresce o aviso do Banco Central Europeu quanto à possibilidade de uma aceleração da inflação na zona euro caso o actual contexto de guerra persista. Esse é um risco externo que, sendo exógeno à economia angolana, não deixa de produzir efeitos internos concretos e cumulativos. Neste contexto, importa recordar que a inflação se fixou em 15,7% em 2025, enquanto o Banco Nacional de Angola estabelece como meta 13,5% para 2026. Trata-se de um objectivo ambicioso que, com o prolongar da guerra no Golfo Pérsico, poderá revelar-se difícil de alcançar. Esse é mais um exemplo de como os ventos favoráveis do petróleo tendem a conviver, não raras vezes, com correntes inflacionistas em sentido contrário.
No mercado de bens e serviços, num contexto de elevada dependência do exterior, quer para bens essenciais, quer para matérias-primas, o impacto manifesta-se de forma clara: intensificação das pressões inflacionistas, erosão do poder de compra e agravamento das tensões sociais. Uma vez mais, assiste-se a uma versão económica da vitória de Pirro onde se celebra o aumento das receitas petrolíferas ao mesmo tempo que se acumulam custos internos que acabam por neutralizar esse mesmo ganho. Para as famílias, a inflação traduz-se numa redução efectiva do rendimento real: a cesta básica encarece, os custos de transporte aumentam e o poder de compra deteriora-se de forma contínua. Em bom rigor, trata-se de uma forma de tributação implícita, regressiva e particularmente eficiente, não aprovada pelo Parlamento, mas aplicada com notável eficácia ao Povo.
Para as empresas, sobretudo aquelas enquadradas na estratégia de industrialização, o choque revela fragilidades estruturais. O modelo produtivo assente na importação de matérias-primas limita a incorporação nacional e reduz o valor acrescentado interno, frequentemente circunscrito ao consumo de energia relativamente barata e à utilização de mão-de-obra pouco qualificada. Importa sublinhar que os efeitos do actual contexto geopolítico não se restringem ao mercado petrolífero. A perturbação das cadeias globais de abastecimento estende-se a matérias-primas críticas, incluindo fertilizantes, agroquímicos, pesticidas e outros insumos essenciais, bens dos quais Angola é praticamente importadora na totalidade. Essa realidade expõe, com alguma clareza incómoda, as limitações de uma estratégia industrial excessivamente dependente do exterior, onde a transformação interna assenta mais na montagem do que na integração produtiva.
Embora estes efeitos sejam transversais a várias economias, no caso de Angola assumem uma gravidade acrescida. Ao não ter desenvolvido ainda de forma consistente a sua própria cadeia de valor, a economia nacional torna-se mais vulnerável a choques externos, o que amplifica os seus impactos sobre os custos de produção. Neste contexto, o aumento dos custos das importações comprime margens, reduz competitividade e fragiliza um tecido empresarial que, em teoria, deveria estar em processo de consolidação, mas que, na prática, permanece exposto às mesmas vulnerabilidades que a política de industrialização se propunha mitigar.
Assim, a chamada política industrial aproxima-se de uma industrialização "fake" que é ambiciosa na retórica, mas dependente na prática. Portanto, o actual choque funcionará como um teste à consistência dessa estratégia adoptada pelo Executivo do Presidente João Lourenço e pela sua equipa económica. Os resultados, ainda que preliminares, não são encorajadores: ao invés de reduzir a vulnerabilidade externa, o modelo tende a reproduzi-la. Ignorar o fortalecimento da cadeia de valor nacional equivale a construir uma indústria sem alicerces, que funciona em contextos favoráveis, mas é estruturalmente frágil perante qualquer perturbação. Pasme-se!
É, contudo, no domínio dos subsídios aos combustíveis que a metáfora de Pirro assume a sua expressão mais evidente. Angola, apesar de ser um dos principais produtores de petróleo em África, continua dependente da importação de derivados refinados, principalmente gasolina e gasóleo. Num contexto de subida dos preços internacionais, o custo de reposição desses derivados aumenta significativamente. Fixado os preços administrados abaixo do nível de mercado, o diferencial traduz-se num agravamento do esforço orçamental na forma de subsídios ao combustível. Trata-se de uma política socialmente sensível, mas economicamente distorcida e orçamentalmente onerosa. Acresce que este mecanismo gera acumulação de divida do Tesouro a favor da empresa, que compromete a transparência orçamental e condiciona a capacidade de investimento da própria Sonangol. Em 2024, a dívida do Tesouro à Sonangol estava avaliada em USD 7,5 mil milhões, sendo que boa parte desses créditos são provenientes dos subsídios aos combustíveis. No limite, um instrumento de estabilização social converte-se num factor de fragilização institucional, orçamental e financeira.
Finalmente, no que respeita à execução do OGE 2026, importa recordar que o seu desenho assentava numa premissa mirabolante: o financiamento de cerca de metade da despesa via endividamento, ou seja, a captação de cerca de USD 15 mil milhões. O aumento das receitas petrolíferas poderá atenuar essa pressão, mas não elimina a fragilidade subjacente. Coloca-se, assim, uma escolha entre reduzir a necessidade de financiamento ou, em alternativa, manter a captação de dívida e reforçar as reservas internacionais. O Estado arrecada mais, mas continua condicionado nas suas decisões, o que, em certos contextos, equivale a uma mudança sem transformação.
Neste enquadramento, o Executivo do Presidente João Lourenço tem apresentado a estabilidade macroeconómica como um fim em si mesmo, quando deveria ser apenas um meio. Sem transformação estrutural, essa estabilidade arrisca-se a degenerar numa forma sofisticada de estagnação. O actual contexto pode, assim, ser interpretado como uma vitória de Pirro: o aumento do preço do petróleo oferece alívio imediato e melhora indicadores, mas simultaneamente reforça fragilidades persistentes como a dependência externa, a exposição cambial, a inflação importada, as distorções nos subsídios e uma industrialização "fake". Como afirmou John Maynard Keynes, "The difficulty lies not so much in developing new ideas as in escaping from old ones". Em Angola, o problema já não é a escassez de diagnósticos, mas a abundância de adiamentos.
*Professor Auxiliar de Economia e Investigador Business and Economic School - ISG

