Enquanto o Presidente norte-americano insiste que decorrem "conversas construtivas" (ver links em baixo) e promissoras com o lado iraniano e em Teerão se amontoam os desmentidos sobre negociações com os EUA, Washington deu início a uma gigantesca deslocação de forças expedicionárias para o Médio Oriente visando uma invasão terrestre do Irão.

Nos cinco dias que Donald Trump acrescentou ao seu ultimato ao Irão para abrir o Estreito de Ormuz, que termina agora na sexta-feira, 27, vão chegar, segundo estão a avançar vários media, como The New York Times, Reuters ou Al Jazeera, a diversas bases dos EUA no Médio Oriente, entre 50 a 60 mil militares.

Enquanto a força expedicionário dos "marines" que se mantém em permanência no navio de desembarque anfíbio USS Tripoli, 2.200 soldados, está a chegar, oriundo do Indo-Pacífico, e a 82º brigada de paraquedistas, cerca de 2.000, já está igualmente a caminho, pelo menos duas divisões de infantaria estão já em bases dos EUA na região.

Fazem parte desta força a unidade de elite da 1ª Brigada Paraquedista de Combate, da Força de Reacção Rápida, cujo "core" operacional é estar em 18 horas pronta para a tomada de assalto de espaços estratégicos como aeroportos ou embaixadas em todo o mundo.

O que corresponde, por exemplo, à tomada de assalto da Ilha Khorg, onde o Irão tem a sua mais relevante estrutura de carregamento de crude para exportação, com cerca de 25 kms2, no Golfo Pérsico, ou a escarpa dominante do Estreito de Ormuz, do lado Iraniano, e de onde é controlada pelo fogo a passagem dos navios pelo canal navegável de apenas cerca de 3 kms, entre os 33 kms de extensão total que tem esta passagem estratégica para o Oceano Índico.

Outra possibilidade tida em conta pelos analistas, mas menos provável, visto que o Irão, país 4 vezes maior que o Iraque, e seis vezes maior que o Afeganistão, com 2,7 milhões de kms2, e 93 milhões de habitantes, é que as unidades de forças especiais norte-americanas se estejam a preparar para uma operação semelhante à que ocorreu na Venezuela, a 03 de Fevereiro deste ano, quando foi raptado o então Presidente Nicolas Maduro.

Para que servem 60 mil militares?

No total, os media norte-americanos apontam para uma força que pode chegar aos 60 mil militares norte-americanos prontos em escassos dias para uma operação terrestre que, analistas como o antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, Jacques Baud, admitem que possa ser limitada a pontos estratégicos no Irão.

Entre estes, o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do crude e do gás mundiais, e a Ilha de Kharg, o principal ponto de exportação do petróleo iraniano, situada a nordeste do Golfo Pérsico... Mas Baud nota que avançar para estes objectivos e conseguir concretizá-los são coisas distintas.

Não apenas Jacques Baud, mas outros analistas militares, como o major-general Agostinho Costa, sublinham que Trump pode estar a perder o "norte" nesta teia complexa e ainda que se os EUA e Israel avançarem para uma invasão terrestre podem estar a cometer o maior erro estratégico em muitas décadas e caminhar para um desastre de proporções históricas porque o Irão está há décadas a preparar-se para esse momento.

Alias, quase sem excepção, as chefias militares iranianas têm repetido em tom de desafio que a força invasora até pode entrar no Irão, mas ali vão "encontrar apenas derrota e morte", como o frisou o porta-voz da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), Ebrahim Zolfaqari.

E Ali-Akbar Ahmadian, um conselheiro sénior da IRGC, disse mesmo para que as forças norte-americanas "se cheguem mais perto" porque o Irão está há 20 anos "a treinar múltiplas formas de guerra assimétrica" com as quais dará as boas-vindas aos expedicionários norte-americanos.

Porém, com os norte-americanos estarão ainda forças israelitas e, segundo The New York Times, países da região como a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos, deverão alinhar lado a lado com os EUA na entrada em território iraniano.

Se tal suceder de facto, este conflito adensa a sua dimensão regional e o Irão fica sem limites para atacar a infra-estrutura energética destes países bem como as suas vitais, porque delas dependem em mais de 75%, centrais dessalinizadoras para obtenção de água potável, como, de resto, a IRGC já avisou que fará...

Nevoeiro da guerra/neblina diplomática

Existe, todavia, uma janela entreaberta para que tal invasão não ocorra, até porque, sendo isso admitido por Teerão, decorrem efectivamente conversações entre o Governo iraniano, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e as diplomacias do Paquistão, Turquia, Egipto e Omã, que por sua vez mantém igualmente contactos com os EUA através do vice-Presidente JD Vance e do secretário de Estado Marco Rubio.

No nevoeiro da guerra, onde se ouve o barulho das explosões mas não se vê a verdade tão facilmente, sobressai ainda o facto de o Irão acusar repetidamente Trump de estar a inventar conversações bilaterais apenas, como acusou o presidente do Parlamento Mohammad Bagher Ghalibaf, para "manipular os mercados financeiros e energéticos".

O que ganha tracção ao verificar-se que o Presidente dos EUA recuou no ultimato de 48 horas, que deverias terminar na segunda-feira, prolongado-o até sexta-feira, 27, o que coincide com o fecho dos mercados globais, onde o fim-de-semana se intromete entre a hipotética "destruição total da indústria energética do Irão" e uma agora previsível invasão terrestre, caso Teerão não abra de forma incondicional o Estreito de Ormuz à navegação comercial...

Mais difícil de perceber no tal nevoeiro da guerra é onde entra o alegado plano de 15 pontos divulgado esta quarta-feira, 25, pelo media norte-americanos e israelitas como tendo sido apresentado pelos EUA ao Irão e de onde sobressai a possibilidade de levantamento de todas as sanções a Teerão contra o desmantelamento total do seu programa nuclear e a redução até à insignificância do seu arsenal de misseis balísticos e hipersónicos.

Além disso, o Irão, perdido nesta densa neblina diplomática, teria de abandonar todas as ligações que mantém com os seus aliados regionais, sejam os Houthis do Iémen, o Hezbollah, no Líbano, o Hamas, em Gaza, ou as milícias xiitas do Iraque e da Síria.

A resposta iraniana a estas condições norte-americanas incluídas no alegado plano de 15 pontos, não é ainda conhecida, mas já foi quase ponto por ponto refutado severamente no passado, com um único argumento: os EUA e Israel já deram provas de que não sáo confiáveis no passado e não o serão agora de novo, como ficou demonstrado nos ataques de Junho de 2025 e deste 28 de Fevereiro.

O que significa que em Teerão se entende como mais uma tentativa de levar o Irão a eliminar a sua capacidade de dissuasão, que tem nos seus sofisticados sistemas de misseis balísticos e hipersónicos, para ficar indefeso e à merce de futuros ataques israelitas e norte-americanos.

Entretanto, naquilo que pode ser uma cedência à pressão de Trump ou uma jogada estratégica para esvaziar a retórica da Casa Branca, o Irão está a abrir o Estreito de Ormuz a navios que não pertençam aos EUA e Israel, directamente, ou a aliados destes países, e que contactem Teerão para formalizar um acordo de passagem que alguns analistas dizem que passa por aceitar pagar uma "portagem" e moeda chinesa equivalente a 2 milhões USD, e ainda que as cargas transportadas, crude, gás ou outras, tenham sido pagas igualmente em Yuan ou nas diversas moedas fora da sombra tutelar do dólar norte-americano.