Diante dos dois acontecimentos, a subserviente imprensa pública esmerou-se por dar um enorme destaque às declarações do rei do Bailundo em desfavor do pré-candidato HC, passando quase ao lado do processo judicial por ele movido e que não abona a imagem do MPLA e, por arrasto, do seu actual líder, João Lourenço.

A dualidade de critérios, que podem ser enquadrados numa ampla estratégia de desgaste da imagem do antigo governador de Luanda e o seu consequente afastamento da corrida ao cadeirão máximo do MPLA, não passou despercebida aos olhos dos observadores mais atentos, que têm acompanhado a disputa da liderança no seio do maior partido angolano.

A imprensa governamental geriu com pinças a decisão do TC que deferiu a providência cautelar movida pelo pré-candidato HC, já que a mesma deixa o MPLA numa posição pouco confortável, por alegados atropelos aos Estatutos dessa formação política.

O MPLA, que diz ser, até à náusea, um espelho de virtudes em matéria de democracia interna, vê assim o seu orgulho ferido, depois de ter sido intimado pelo Tribunal Constitucional para, no prazo de 8 dias, apresentar as teses da sua defesa que contrariem as denúncias feitas por HC.

Nas redes sociais, onde o assunto tem gerado vários comentários e opiniões divergentes, alguns internautas não esconderam a sua satisfação pela decisão judicial, ainda que provisória, enquanto outros, mais cautelosos, apelaram no sentido de não se criar falsas expectativas quanto ao desfecho deste caso, chamando mesmo a atenção para eventuais inflexões desse tribunal, tido como um órgão subserviente ao poder político.

Acreditam nesses círculos que a aceitação da providência cautelar pelo TC terá sido um expediente usado para acalmar ou esfriar os ânimos dos apoiantes da candidatura de HC, mas que se desenha no horizonte uma reviravolta em desfavor do principal oponente de João Lourenço na liderança do MPLA.

Em alguns círculos de opinião cogita-se que caso HC venha a ser derrotado em tribunal, ele já conseguiu criar um facto político-jurídico ao colocar o Tribunal Constitucional numa saia justa, ou seja, uma " batata quente " nas mãos de Laurinda Cardoso.

Foi notório o empenho da comunicação social pública em desviar as atenções deste caso, optando por oferecer palco e voz ao rei do Bailundo que, por sua vez, refutou um suposto apoio da instituição monárquica ao candidato HC. Não só se demarcou do apoio institucional, como também de familiares seus ao concorrente de JLo.

Ainda que a presença em massa de vários órgãos de imprensa no pacato município do Bailundo tenha sido justificada com a visita da ministra da Cultura do Brasil à referida localidade, a excessiva cobertura mediática apontou no sentido de ter sido uma accão concertada, visando atingir a reputação do principal oponente de JLo nessa disputa partidária. Sintomaticamente, as duas principais estações de televisão levaram o assunto a debate nos seus programas de análise, aos domingos, com os seus habituais comentaristas.

Na entrevista que concedeu à comunicação social, as palavras do rei Tchongolola Tchongonga, Ekuikui VI soaram a uma certa hipocrisia ao afirmar que o Reino do Bailundo nunca se envolveu em questões de natureza política e que o mesmo mantinha uma equidistância em relação aos partidos políticos.

Ninguém sem sã consciência terá tomado como sérias as palavras do rei, já que própria ascensão de Ekuikui VI ocorreu em circunstâncias pouco claras, havendo mesmo fortes suspeitas de que ele foi levado ao colo pelo partido governante, por via de um conturbado e inquinado processo eleitoral, de que não se tem memória nos anais daquele reinado.

É convicção que generalizada que foram questões de natureza política e interesses partidários ocultos que ditaram a queda aparatosa do soberano Armindo Francisco Kalupeteka - Ekuikui V -, que esteve oito anos à frente dos destinos da "Umbala Bailundo" e a sua substituição em circunstâncias escabrosas pelo actual rei.

Este argumento é adensado pelo facto de os reis, à luz do direito costumeiro, nunca são afastados no exercício das suas funções, mesmo estando eles impossibilitados de exercerem as suas funções por motivos de doença ou incapacidade psíquica, sendo substituídos por alguém até que ele morra. Só depois da sua morte se procede, então, à sua substituição. Não foi isso que aconteceu no Reino, onde uma prática ancestral e as regras seculares da monarquia foram quebradas.

É inegável que o Reino do Bailundo, pela sua importância histórica e cultural, tem sido um centro de disputas partidárias entre as duas principais formações políticas, sobretudo durante os períodos eleitorais. Negar isso, é, no mínimo, procurar tapar o sol com a peneira.

As constantes interferências do poder político nas questões do Reino do Bailundo foram tão evidentes, num passado recente, que o monarca deposto chegou a ser catapultado ao cargo de membro do Comité Central do MPLA, o que por si indiciava uma relação de promiscuidade política entre o poder moderno e tradicional.

Para além de ocupar uma posição de destaque no aparelho partidário, Ekuikui V era também referenciado como sendo um rei que recebia uma série de benesses para, alegadamente, facilitar à agenda eleitoral do partido governante, ou seja, seria uma espécie de «cabo eleitoral» do MPLA naquela região.

Para alguns analistas, a defenestração do rei mais representativo da região centro sul de Angola não resultou do facto de ele ter sido condenado a 6 anos de prisão efectiva, em fevereiro de 2021, pelo Tribunal Provincial do Huambo, devido à sua participação num crime homicídio, em 2017, no âmbito de um julgamento tradicional, por crenças no feiticismo.

Para eles, o afastamento de Ekuikui V, um rei politicamente exposto, que exibia sinais exteriores de riqueza, que se passeava numa viatura do topo de gama, que cursou direito numa universidade local, não se deveu também a um suposto desvio de verbas para as obras da reconstrução da Ombala do Bailundo, como se alegou na altura, ou aos pronunciamentos públicos que debitou no espaço público e que não agradaram os círculos do poder em Luanda, mas por razões meramente políticas.

Dizem que o destino do rei já estava traçado muito antes de ele ter ameaçado usar os seus poderes para que a chuva não caísse em dois anos, assim como ter feito a promessa da realização de uma marcha a pé até Luanda, a fim de manifestar o seu descontentamento junto ao Chefe de Estado pela sua condenação num tribunal moderno.

Para os referidos analistas, a verdadeira razão para afastamento de Ekuikui V terá sido ditada por uma promiscuidade política do rei que, meses antes da sua queda, recebeu no Bailundo, com pompa e circunstância, o líder do maior partido da Oposição, a quem escancarou desmesuradamente as portas da sua Ombala.

Por mais que o actual monarca do Bailundo negue o envolvimento do seu reino em questões políticas, a realidade desmente-o, existindo sinais evidentes de reis e sobas que foram promovidos por conveniência política e não por mérito, nem por linhagem familiar.

O conceituado jurista Carlos Feijó, um estudioso da nossa realidade político-social, não poupou críticas quando, há uns anos, durante o III encontro Nacional das Autoridades Tradicionais, mostrou-se contra as nomeações e politização das autoridades tradicionais que, segundo ele, eram feitas " sem a observância nem legitimidade do direito consuetudinário, o que facilitava o surgimento descontrolado de soberanos nas comunidades."