Ao facto de não existir nem vacina nem tratamento específico para a estirpe do vírus responsável por esta que é já a 17ª epidemia de Ébola na RDC, "Bundibugyo", uma das cinco conhecidas. Juntam-se, a ajudar ao seu alastramento, os efeitos nefastos das crenças, rituais e tradições.
Apesar de se saber que Ébola, por já existirem experiências no seu combate desde os anos de 1970, quando o vírus passou pela primeiras vez, conhecida, dos primatas para os humanos, na província do Equador, no oeste da RDC, pode ser derrotado, a sua letalidade gera sempre pânico social.
E neste caso não é diferente, com os países vizinhos do leste congolês, onde já morreram mais de 140 pessoas em cerca de três semanas, e milhares estão registados como casos de infecção ou de suspeita de contaminação, Sudão do Sul e Burundi, além do Ruanda e do Uganda, a optarem pelas medidas mais drásticas de fecho de fronteiras.
Um dos exemplos que as equipas médicas internacionais que ocorrem a este tipo de situações para ajudar apontam sem excepção é a rapidez com que se chega ao "paciente zero", a primeira vítima conhecida, de forma a estabelecer um cordão sanitário em torno dos seus contactos, para cortar o caminho ao vírus entre a comunidade.
Só que em alguns casos, especialmente em geografias mais ruralizadas, ou onde o crencismo e o feiticismo têm preponderância social, este esforço é mais difícil, porque as vítimas procuram os curandeiros para receberem tratamento.
E com isso fogem dos centros médicos oficiais criados para acolher e tratar doentes, levando consigo a infecção para outras áreas, onde os rituais usados para lidar com a doença ajudam ainda mais à sua dispersão por, entre outras práticas, exigirem contactos físicos.
Um dos exemplo dramáticos e que exemplificam estas dificuldades das equipas médicas no local, sejam as enviadas pelo Governo em Kinshasa, ou da Organização Mundial de Saúde (OMS) ou dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), aconteceu este quinta-feira, 21, em Bunia, na província de Ituri, onde esta epidemia começou.
Depois de ter sido construído bloco de isolamento para doentes com Ébola ou sintomas associados, no Hospital de Referência de Rwampara, nos subúrbios de Bunia, populares enfurecidos incendiaram estas instalações porque as autoridades locais não permitiram que uma criança que morreu vítima deste vírus fosse devolvida à família.
E a razão para tal é que localmente, como sucede em muitas outras regiões do mundo, parentes e amigos insistem em manter os rituais de estar e tocar no cadáver para se despedirem durante as cerimónias fúnebres, que é quando os factores de transmissibilidade do vírus hemorrágico estão mais activos.
Como relata a Radio Okapi, as instalações sanitárias de isolamento foram incendiadas por dezenas de jovens apoiados pelos familiares da criança que morreu quando invadiram o Hospital de Rwampara para exigir a devolução do corpo da vítima e viram esse seu intento recusado.
Mas a Okapi avança ainda com dados tão ou mais preocupantes, porque nesta unidade hospitalar já ocorreram outras invasões do género por populares enfurecidos que acreditam que esta doença não existe e que é uma invenção dos estrangeiros, recusando que as vítimas levadas para estes locais tenham morrido com a infecção hemorrágica.
Normalmente esta multidões enfurecidas são convencidas por líderes comunitários de que não há Ébola e que se trata de uma invenção dos estrangeiros para fazerem experiências médicas, o que, segundo estudos sociológicos, resulta da procura destes indivíduos, denominados curandeiros ou médicos tradicionais, em não perderem o seu poder no seio das comunidades.
Outra vertente deste problema é, como nota um analista local citado pela Radio Okapi, Luc Malembe, a má comunicação das autoridades oficiais sobre o que são e como funcionam as medidas de prevenção da infecção.
O que este analista diz que poderia ser ultrapassado se os enviados da capital tivessem o cuidado de optar por procurar primeiro os líderes locais e comunitários que sabem melhor como chegar às pessoas e explicar o que devem fazer para se protegerem explicando que "o Ébola é uma realidade".
E para piorar tudo ainda mais, os media locais congoleses relatam que estas investidas populares contra as unidades médicas da linha da frente de combate ao vírus levam a que vários pacientes ali internados fujam e se refugiem nas suas aldeias onde a epidemia ganha novo impulso e se espalha ainda mais.
É também por causa deste tipo de situações que a OMS declarou esta 17ª epidemia de Ébola na RDC uma crise de saúde pública global devido aos factores de dispersão e também porque a estirpe que a motiva, "Bundibugyo", cuja letalidade ronda os 50%, não tem nem vacina nem tratamento conhecido, ao contrário da mais comum a "Zaire", que, embora sendo mais letal, tem vacina relativamente eficaz.
O Centro de Controlo de Doenças Infecciosas da União Africana (CDC-África) aponta a ausência de tratamento e de prevenção através da vacinação como um "elemento inquietante".
Isto, especialmente nesta região devido à sua elevada densidade populacional, à existência de fronteiras com vários países - Uganda, Ruanda, Sudão do Sul e Burundi - e à presença de grupos de guerrilha que ocupam vastas áreas, como o M23 (ver links em baixo), levando ao aumento dos deslocados que são já na ordem das largas centenas de milhares acrescidos aos quase cinco milhões existentes previamente.
Outro risco admitido pelas organizações oficiais, e que leva a que outros países vizinhos da RDC, mais distantes, como a Zâmbia, Angola ou o Congo-Brazzaville, é que as famílias mais abastadas estão a deixar sempre que podem o leste da RDC, muitas delas procurando refúgio na capital, Kinshasa, aumentando assim o perigo.
No caso de Angola, o problema eventualmente poderá surgir da ligação fluvial, via Rio Congo, com a fronteira norte do país, sendo que Kinshasa está a escassos 250 kms de distância.
Todavia, o Instituto Nacional de Pesquisas Biomédicas da RDC (INRB) lançou esta semana um apelo para que se evite o pânico, visto que esse tipo de comportamento, como o recurso a medidas securitárias exacerbadas, conduz ao sentimento de perigo entre as populações que leva, instintivamente, à saída para outras áreas, expandindo o risco de alastramento epidémico.












