Se a matéria-prima descer para a fasquia dos 90 USD, é porque os mercados internacionais acreditam que a guerra pode mesmo estar por um fio, mas se se mantiver acima dos 100 USD, é porque as dúvidas ainda reinam...

... ou as contas começam a ser feitas de outra forma, não pelos factores que influenciam hoje a variação dos gráficos nos mercados mas sim pelo day after ao fim da guerra, porque já se percebeu que a normalidade não depende disso, depende mais da capacidade de colocar de novo a máquina a funcionar.

E a máquina é voltar a colocar os superpetroleiros de novo em alto mar com cargas de milhões de barris para despejar nos quaro cantos da rosa-dos-ventos onde nas últimas dez semanas as reservas foram queimadas para evitar o colapso da economia mundial.~

Três a quatro meses é quanto os especialistas estimam que levará a normalizar a situação, chegar ao ponto em que os tanques estavam antes da guerra lançada pela coligação israelo-americana contra o Irão começar a 28 de fevereiro último.

E para isso basta perceber que muita da infra-estrutura produtiva do Golfo Pérsico foi destruída ou parcialmente destruída em países como a Arábia Saudita, Kuwait ou Emiratos, além do Irão, e levará tempo a ser reconstruída...

... e a isso há que somar que um superpetroleiro, com 2 a 3 milhões de barris, à velocidade de uma bicicleta normal, pode levar dois meses a chegar ao seu destino final ao sair do Golfo Pérsico, sendo que, ao contrário do que sucedia previamente, não havia uma "portagem" a pagar para passar no Estreito de Ormuz e que agora haverá por imposição iraniana.

Todavia, o optimismo de Donald Trump, que resulta da urgência que tem de se ver livre desta guerra por razões de política interna, nomeadamente a aproximação das eleições intercalares de Novembro, onde a inflação gerada no Golfo Pérsico pode ditar a derrota do seu Partido Republicano, não basta...

... a realidade tem de colar com as suas frases deambulantes entre a verdade e a ficção, desde logo quanto á sua exigência de fazer sair o urânio enriquecido pelo Irão do país, o que não está garantido e, segundo algumas notícias, o aiatola Mojtaba Khamenei já emitiu uma ordem a impedir que tal suceda.

Se tal se confirmar, dificilmente Trump poderá recuar na sua promessa de eliminar todas as possibilidades de o Irão ficar impedido materialmente de criar uma arma atómica e dizer aos norte-americanos que sai desta guerra com uma vitória clara sobre Teerão.

E é por isto que o barril de Brent, a referência principal para as ramas exportadas por Angola, estava esta sexta-feira, 22, perto das 11:30, hora de Luanda, a valer 105,3 USD, mais 2.76% que no fecho anterior, quando se aproximou dos 100 USD puxado pelo optimismo renovado na Casa Branca.

Além disso, soube-se que o Irão e Omã estão a trabalhar num sistema de cobrança de portagens no Estreito de Ormuz, que Teerão justifica com a necessidade de obter fundos para reconstruir o país após semanas de ataques israelo-americanos, que Trump recusa aceitar, gerando ima nova frente de atrito e adstringência negocial.

Perante a imprevisibilidade deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 105, 5 USD, no caso do Brent, perto de 45 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.