Para John Mearsheimer, a razão para que os EUA retomem os ataques ao Irão, o que pode acontecer já na próxima sexta-feira, 22, coincidindo com o fecho dos mercados bolsistas e energéticos, é que o Presidente dos EUA "está sem alternativas".

Este autor de vasta obra sobre geoestratégia e política internacional, entende que a Donald Trump resta escolher entre uma nova vaga de ataques ou desistir e "aceitar a derrota" para evitar uma catástrofe económica global.

"Este conflito é um histórico desastre para os Estados Unidos, supera mesmo a guerra do Iraque devido às suas consequências no plano global, encaminhando a economia mundial para o precipício apenas porque Trump não quer sair deste problema aceitando a humilhação da derrota", explica o professor da Universidade de Chicago no podcast Deep Dives.

E lembra ainda que o mais surreal de tudo é que nalgumas das suas declarações Donald Trump parece só querer de volta aquilo que já tinha antes de atacar o Irão: o Estreito de Ormuz estava aberto e Teerão já tinha aceitado um acordo sobre o seu programa nuclear para garantir que não procura obter uma arma nuclear.

Também Douglas MacGregor acredita que "a tempestade está para chegar" não apenas à economia global, mas também à norte-americana, mesmo que os EUA sejam autosuficientes em crude e gás, pela via da inflação e do seu impacto no mercado de trabalho, apontando este ex-coronel do Exército dos EUA para a opção pela continuidade da guerra em detrimento de uma saída devido à dificuldade e implicações políticas dessa decisão.

A perpectiva de MacGregor é que Donald Trump vai avançar para a procura de uma solução militar pelas razões políticas mas também pela influência nefasta de Israel e do lobby judeu nos Estados Unidos, considerando que o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau não poupa esforços em empurrar os EUA para a continuação da guerra porque é a opção que melhor serve os seus interesses pessoais e políticos.

"Donald Trump armadilhou-se a si próprio neste pântano do Golfo Pérsico e não tem agora como sair dele a não ser continuar a afundar-se, porque não tem condições emocionais para parar e analisar a situação friamente e perceber que não tem como sair por cima da situação que ele criou", descreve este seu antigo colaborador e ex-militar com várias missões nas guerras norte-americanas no Médio Oriente.

Quase como uma peça de lego, as últimas declarações do Presidente dos EUA encaixam no desenho que John Mearsheimer e Douglas MacGregor fazem do cenário actual no Golfo Pérsico, apontando, citado pela Fox News, que o processo negocial com o Irão "está por um fio" e que nas próximas horas "é muito provável que os ataques sejam retomados".

Ao mesmo tempo, Donald Trump admite que nem tudo está perdido e que pode haver uma saída pacífica para este imbróglio, mas só se "Teerão ceder 100% à proposta que recebeu" dos Estados Unidos, depois de na passada terça-feira ter, segundo o próprio, tirado o dedo do gatilho apenas uma hora antes de o primeiro míssil ser disparado contra Teerão.

Isso, para dar "uma derradeira oportunidade" à paz, a pedido dos líderes dos países árabes do Golfo Pérsico, nomeadamente a Arábia Saudita, o Catar e o Kuwait, que lhe garantiram estarem a conversar com os iranianos nesse sentido.

Noutra declaração, esta quarta-feira, 20, quando estava para embarcar no Air Force 1, na base aérea de Andrews, Maryland, Trump disse aos jornalistas que ou o Irão chega a um acordo ou serão "tomadas medidas mais drásticas que nunca"

"Acreditem que estamos mesmo por um fio e se não obtivermos as respostas certas, as coisas podem mudar muito rapidamente porque estamos todos prontos para agir se não obtivermos o que queremos a 100%", avisou.

Ao mesmo tempo que admitia que os interlocutores em Teerão são "mais razoáveis desta vez", embora sejam exactamente os mesmos, não tendo havido qualquer alteração na hierarquia iraniana: "Estamos a lidar com indivíduos que são muito mais razoáveis", disse.

Explicando que estas pessoas, os novos líderes após a morte do anterior aiatola Ali Khamenei, que foi substituído pelo seu filho, Mojtaba Khamenei, "são mais talentosas, de grande capacidade intelectual" o que o impressionou bastante e lhe dá renovadas esperanças de que um acordo seja possível.

Estas palavras surgem por cima do que em Teerão tem sido dito pelo líder do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, líder actual dos negociadores iranianos, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, e pelo Presidente do país, Massoud Pezeshkian, no sentido de que o Irão não aceita negociar sob pressão, que não abdica dos seis direitos enquanto Nação soberana e dos interesses do povo iraniano.

Em cima da mesa está mais uma proposta norte-americana, que é muito semelhante ás anteriores, impondo, no essencial, a Teerão que abandone quase por completo o seu programa nuclear civil e que abra sem condições o Estreito de Ormuz, condições que já lhe foi dito ao mais alto nível que não estão em discussão nesses termos.

Isto, apesar de Massoud Pezeshkian ter afirmado que estão a analisar o documento e que negociar de boa fé não é vergonha, pelo contrário, demonstra vontade de encontrar um compromisso que assista aos interesses vitais de ambos os lados.

Entretanto, o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmaeil Baghaei, citado pelos media iranianos, avançou que "com base no texto original dos 14 pontos do Irão, a troca de mensagens entre Washington e Teerão ocorreu em diversas ocasiões, nomeadamente através dos mediadores paquistaneses".

Baghaei disse ainda que o Irão está a analisar um documento enviado pelos norte-americanos, sendo que esta iniciativa dos EUA está a ser vista como uma boa oportunidade de paz e o Paquistão enviou mesmo o seu ministro do Interior, Mohsen Naqvi, ao Irão com a intenção de ajudar na mediação das negociações entre Washington e Teerão.

Todavia, uma frase está sempre a ser repetida pelas autoridades iranianas, que é que em Teerão ninguém confia nos EUA e que qualquer acordo tem de ser assistido por países que sirvam de garantia, porque por duas vezes, em Junho de 2025, e neste conflito presente, a 28 de Fevereiro, a coligação israelo-americana atacou o Irão quando decorriam negociações ao mais alto nível.

Se, como acreditam John Mearsheimer e Douglas MacGregor, a guerra for retomada nesta sexta-feira, será a terceira vez que o Irão é atacado no decurso de conversações de paz.

Mas em Teerão já foi emitido um aviso a Washington: "Desta vez está tudo preparado para uma resposta repleta de surpresas para os agressores".