O "iminente" acordo de paz entre os EUA e o Irão está a esmagar o preço do barril de crude, tanto no Brent, em Londres, como no WTI de Nova Iorque, mas a queda só não é mais expressiva porque o optimismo está a ser refreado por dúvidas de última hora.

Apesar das declarações de Donald Trump a apontar para um acordo ao virar da esquina, já esta manhã Esmail Baghaei, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, fazia declarações que vieram colocar dúvidas na possibilidade de um acordo.

Segundo Esmail Baghaei, há efectivamente um documento a ser trabalhado mas nele consta o fim da guerra em todas as suas frentes reconhecidas por Teerão e Washington, o que inclui o sul do Líbano, onde Israel mantém uma ocupação violenta e incessante há meses.

E mesmo que esteja em curso um cessar-fogo isarelo-libanês há mais de um mês, os combates entre as forças israelitas e as milícias do Hezbollah nunca pararam, com Israel a terraplanar grande parte das aldeias e vilas do sul libanês.

Contra as probabilidades de um acordo, e esse é um dos pontos que mantém o barril de Brent, embora abaixo dessa fasquia, muito próximo ainda dos 100 USD, é que o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau já disse que obteve do Presidente dos EUA uma espécie de carta branca para manter o Hezbollah debaixo de fogo.

E se tal se confirmar, como parece, até porque nas últimas horas Donald Trump voltou às ameaças sobre o Irão na sua rede social Truth Social, nomeadamente a foto de um míssil em cujo dorso aparece escrito "obrigado pela atenção a esta matéria". glosando a frase com que quase sempre termina as suas publicações, um acordo não é evidente.

Ainda assim, os mercados estão mais inclinados para a existência de um acordo que o seu contrário, até porque o barril deu um trambolhão gigante desde o fecho de sexta-feira, 22, para hoje, segunda-feira, 25.

O Brent, que é a referência maior para as exportações angolanas, passou dos 107 USD para os 98,4 USD, uma queda de 4,8%, perto das 09:10, hora de Luanda, com o WTI em Nova Iorque a mostrar comportamento semelhante, para os 91,3 USD.

Outro elemento relevante para o comportamento dos mercados é que, tal como os iranianos, que já o afirmaram, através de Esmail Baghaei, não têm "quaisquer razões para confiar nas intenções de Donald Trump", os mercados também começam a estar vacinados contra as quebras e os recobros "emocionais" da Casa Branca.

Contudo, a pressão da política interna sobre Donald Trump e o seu Partido Republicano, quando as eleições intercalares de Novembro se aproximam à velocidade da "luz", onde sobressai o risco de ficar sem as maiorias nas duas câmaras do Congresso, Senado e Representantes, é um "incentivo" especial para um redobrado esforço no sentido da paz.

Paz essa que tem de ser igualmente incentivada do lado iraniano, desde logo quando disso depende a abertura do Estreito de Ormuz, o canal marítimo por onde é escoado 20% do crude e do gás mundiais do Golfo Pérsico para o mundo através do Oceano Índico.

Nas casas de apostas, a tendência está mais inclinada para um acordo, nem que seja temporário, mas longe de ser uma descida que ponha em causa os travões norte-americanos sobre a evidente preferência de Israel pela continuidade da guerra, o que se ficará a saber, sem margem para dúvidas, nas próximas horas. "seguramente!".

Perante a imprevisibilidade deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 105, 5 USD, no caso do Brent, perto de 37 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.