Os mesmos países europeus, incluindo o Reino Unido, o mais sólido, pelo menos assim parecia olhando para o histórico, aliado dos EUA, que, no contexto da guerra na Ucrânia, ao fim de 20 pacotes de sanções, reduziram a compra de crude e gás à Rússia quase a zero.

Com uma grande dependência, à excepção da produção da Noruega, que garante menos de um terço do gás natural que a Europa Ocidental precisa, e sem o gás norte-americano, mesmo vendido a três a quatro vezes mais que o russo, os europeus podem, de um momento para o outro, deparar-se com a bizarra circunstância de não terem a quem comprar energia.

Este cenário ainda não é uma realidade, mas, de acordo com as últimas declarações de Donald Trump, as ameaças de retaliação dos europeus estão a ser ignoradas e escolheu a França para dar o exemplo: "Se não aceitarem as condições de compra e anexação da Gronelândia, terão tarifas de 200%" sobre um conjunto lato de produtos.

Parecendo um problema entre europeus e norte-americanos, e russos também, a verdade é que o assunto não deixa de ser de análise obrigatória para alguns países africanos exportadores, como é o caso de Angola.

E está a ser aproveitado, como se pode verificar pela evolução das exportações de crude e, principalmente, gás natural, este a partir da unidade de produção da Angola LNG do Soyo, Zaire (na foto), com subidas exponenciais para destinos como França, Itália, Países Baixos logo a partir de 2022, para onde vão boa parte das 5,2 milhões de toneladas métricas por ano, mais de 1% da produção mundial. quando ocorreu a invasão russa da Ucrânia...

A chamada à acção dos produtores africanos e do Médio Oriente para substituir a Rússia como fornecedores alternativos aos EUA após o desligamento dos "canos" de Moscovo, está, no entanto, a esbarrar com a capacidade de produção local, em Angola, por exemplo, cujas limitações são conhecidas, desde logo devido ao desinvestimento das multinacionais, sendo mais evidente essa questão no sector do crude.

Este contexto global, claramente propício ao investimento para aumentar a disponibilidade da matéria-prima e ganhar quotas de mercados em geografias importantes, como é a Europeia, não passou desapercebido à Angola LNG, que está a desenvolver outras áreas de produção como o Projecto Sanha Lean Gas Connection , que envolve várias companhias globais presentes no país.

Todavia, para o momento, esta situação complexa leva os mercados do sector da energia a revirar os olhos e a reagir e a fazer deslizar os preços para o vermelho face à intermitência dos oráculos, ora optimistas, ora pessimistas, de acordo com os humores do Presidente norte-americano.

Até porque, mesmo antes de mexer com o consumo, este cenário abana a confiança, porque a fricção entre EUA e aliados europeus pode levar a uma redução da actividade económica porque o mercado norte-americano é uma das saídas fundamentais para a economia europeia e com as tarifas sobre o tampo da mesa de trabalho de Donald Trump, o futuro é claramente incerto...

A auxiliar esta perda de vitalidade nos gráficos dos mercados está ainda o recuo da ameaça, pelo menos por agora, de um intervenção militar norte-americana no Irão, que é, apesar das sanções, um dos grandes exportadores mundiais, como mais de 3.5 mbpd, além de afastar o risco de uma disrupção no Golfo Pérsico, por onde passa 35% do crude consumido no mundo.

Até se conhecer, na quarta-feira, 21, o relatório mensal da Agência Internacional de Energia, com um "insight" fundamental sobre os contornos deste cenário de crise global, com os EUA a actuarem em várias frentes, o Brent, que serve de referência ás exportações nacionais, estava esta terça-feira,20, a observar perdas ligeiras.

Assim, perto das 10:20, hora de Luanda, o barril de Brent estava a valer 63,78 USD, uma perda ligeira de 0,45 % face ao fecho da última sessão, com perspectivas de manter o declínio perante um prognóstico dos analistas no sentido de um refluxo da tensão no Médio Oriente, agora que se começa a "normalizar" o caso da Venezuela.

Apesar de inclinado para o lado errado, na percepção dos exportadores, este é um valor que serve os interesses nacionais, considerando que o Governo angolano desenhou o seu OGE 2026 usando como valor de referência médio para o ano corrente os 61 USD.

Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento está...

... sob observação atenta do Executivo de Luanda

O actual cenário internacional tende a manter os preços muito próximo do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e ás incertezas globais...

Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.