A ideia é aproveitar a base aérea de Nanyuki, região de Laikipia, no centro do país, para ali isolar cidadãos norte-americanos que possam vir a contrair a infecção, nomeadamente técnicos e médicos que apoiam o combate ao Ébola na RDC e no Uganda.

Na memória está ainda presente a chegada do vírus do Ébola aos EUA, aquando da epidemia de 2013-2016, na África Ocidental, tendo o "transporte" sido elementos das equipas médicas no seu regresso a casa.

Para impedir que isso volte a suceder, os Estados Unidos querem garantir que todos os envolvidos em situações de risco sejam sujeitos a um período de quarentena de modo a detectar quaisquer sintomas da febre hemorrágica.

Só que os planos norte-americanos, que contam com o apoio do Governo do Presidente William Rutto, estão a ser travados por uma ordem judicial e ainda por milhares de manifestantes que saíram às ruas para impedir o projecto.

Para atrasar o avanço da criação do centro de quarentena, o tribunal supremo queniano exigiu, após a explosão dos protestos, que fossem dadas informações adicionais sobre o espaço que pode acolher 50 pacientes ou suspeitos de terem contraído o vírus do Ébola.

A violência das manifestações foi, e está a ser, de tal ordem que já morreram duas pessoas e dezenas ficaram feridas em batalhas campais com a polícia para impedir o avanço do projecto norte-americano que estava a ser criado quase em segredo.

Para justificar o apoio à criação desta unidade de triagem, o Governo queniano alude ao apoio que Washington prestou ao país durante a Covid-19 e ainda nos múltiplos projectos de combate ao HIV-Sida quenianos.

As diversas organizações quenianas que se opõem a este projecto, incluindo o Katiba Institute, que defende a aplicação da Constituição e os Direitos Civis, e que levou este caso à Justiça, referem que são inúmeros os riscos de que o vírus trespasse as paredes do centro para a comunidade.

Contexto na RDC e no Uganda

Recorde-se que a gravidade da situação, marcada pelo facto de entre 15 de Maio, quando foi detectado oficialmente o primeiro caso, em Bunia, na província de Ituri, leste da RDC, com fronteira com o Uganda, já terem sido registadas mais de 40 mortes, cerca de 230 casos de infecção confirmados e perto de 1300 suspeitos, levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar uma emergência global de saúde pública.

E depois, o seu director-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi ao terreno acompanhar o trabalho das equipas médicas locais e internacionais que unem esforços para contra-atacar o vírus daquela que é a mais letal das febres hemorrágicas conhecidas e uma estirpe que não tem nem vacina nem tratamento reactivo.

Além da OMS estão no terreno equipas dos Médicos Sem Fronteiras, do CDC-Africa, da União Africana e ainda de vários organismos congoleses, mas todos eles se debatem, além do vírus, com a frente de combate que são as crenças locais sobre a doença e os rituais e tradições (ver links em baixo) que são uma auto-estrada para a infecção de dispersar entre as populações.

O que os especialistas temem neste momento é que esta epidemia tenha um comportamento semelhante ao da epidemia de 2013, na costa ocidental de África, não apenas devido à ausência de tratamento, mas porque as circunstâncias sociais são igualmente permissivas ao avanço do vírus.

Desde logo a densidade populacional do leste congolês, com dezenas de campos de refugiados que albergam centenas de milhares de pessoas que fugiram das suas terras em mais de três décadas de conflitos armados e com vários grupos de guerrilha ainda activos, especialmente o M23, na fronteira com o Ruanda, e as ADF/daesh, com o Uganda.

Claramente preocupado com o agravamento constante da situação e o mapa da infecção a crescer dia para dia, com casos já relatados no Uganda, pelo menos oito, com duas mortes, também nas províncias do Kivu Norte e Kivu Sul, e ainda no Ruanda, com apenas casos suspeitos.

A par dos problemas sociais resultantes de crenças locais que apontam para o Ébola como uma "invenção dos estrangeiros" e a reacção violenta de populares contra as restrições no acesso aos cadáveres de familiares e amigos, as equipas médicas debatem-se ainda com escassez de fundos, muito devido à retirada dos EUA de várias agências da ONU.

Ainda assim, Tedros Adhanom Ghebreyesus disse em Bunia que "é possível debelar esta epidemia" e asseverou ás populações locais que "todos aqueles que contraem o vírus podem e estão a ser tratados e salvos", numa altura em que a descrença na resposta começa a agigantar-se.

Mas o chefe da OMS chamou ainda a atenção para o facto de que ninguém poder ignorar que este combate "é um combate de todos" porque todos estão na linha da frente, sendo agora a maior urgência convencer as pessoas com os primeiros sintomas a procurarem ajuda oficial e não se dirigirem aos curandeiros é feiticeiros locais.