Tanto Donald Trump como Benjamin Netanyahu estão nessa condição, o primeiro, com eleições intercalares a 03 de Novembro, o segundo legislativas, a 27 de Outubro, e a ambos basta dar a ordem para que a "sua" guerra lhes apareça como trunfo na campanha eleitoral.

Apesar de tanto Israel como os EUA não terem qualquer razão reconhecida pela comunidade internacional, lançaram uma guerra ilegal e injustificada contra o Irão a 28 de Fevereiro, matando no 1º dia quase toda a "linhagem" governamental, incluindo o Supremo Líder, aiatola Ali Khamenei.

Depois de quase seis semanas iniciais de ataques intensos sobre o Irão com Israel, são os EUA que assumiram as despesas deste conflito, do qual Telavive se retirou sem explicação, embora depois de o seu território ter sido fustigado com os maiores ataques de mísseis iranianos de sempre.

Com intermitências persistentes, esta guerra tem sido mantida em suspenso pela Administração Trump, entrando e saindo dela sem uma lógica fácil de seguir, como tem insistido John Mearsheimer, um dos mais reputados analistas de política internacional norte-americanos.

Este igualmente professor da Universidade de Chicago nota ainda que se a 28 de Fevereiro não havia uma razão válida para os EUA atacarem o Irão, excepto fazer a vontade a Israel, hoje também não se percebe a insistência em manter este conflito vivo, excepto essa mesma razão, que é cumprir "ordens" de Telavive.

Isto, porque, aponta Mearsheimer, actualmente Washington justifica a guerra com a necessidade de impedir que o Irão obtenha uma arma nuclear e para abrir o Estreito de Ormuz, dois objectivos que, curiosamente, antes deste conflito estavam garantidos.

Mas se estes dois objectivos são agora os únicos de que se fala em Washington, no início da guerra, era outras as razões para ele: mudar o regime em Teerão, eliminar os sistemas de mísseis balísticos do Irão, cortar as relações do país com os aliados regionais, desde logo, e o mais relevante, o Hezbollah, no Líbano, mas ainda os Houthis, do Iémen...

Nenhum destes objectivos foi conseguido com sucesso, o que levou a que fossem trocados por dois de fácil obtenção, até porque o Estreito de Ormuz nunca foi fechado antes deste conflito ter sido despoletado, e Teerão nunca pretendeu obter uma arma nuclear.

Sendo prova disso o acordo de 2015, denominado Plano de Acção Conjuta Global (JCPOA, na sigla em inglês) com Barack Obama, que era garantido pela presença no Irão da Agência Internacional de Energia Atómica (ONU), estando nele envolvidos russos, chineses e europeus, e do qual Trump saiu unilateralmente e sem explicar porquê assim que assumiu o poder, em 2016.

Com os conhecidos solavancos, o conflito, que chegou mesmo a ser terminado com um Memorando de Entendimento assinado a 15 de Junho pelos dois países mas com Dionald Trump a sair dele, dias após o ter firmado, sem justificação e de forma unilateral, está agora numa nova fase: a fase da inevitabilidade.

Para isso há duas razões fundamentais, como explicam vários analistas, desde logo a questão do período eleitoral nos EUA, que Donald Trump e o seu Partido Republicano deverão perder com estrondo se não ocorrer nada de extraordinário.

Em risco está quase tudo para Trump, desde logo a sua carreira política e mesmo pessoal, porque sabe que a oposição democrata, se ganhar uma maioria no Congresso, como as sondagens apontam de forma inequívoca, abre de imediato vários processos de destituição (impeachment).

Em cima da mesa há três que já foram antecipados pelo Partido Democrata: porque Trump não informou o Congresso sobre a guerra com o Irão, como a Constituição exige, porque prometeu, e não cumpriu, divulgar o conteúdo dos "Ficheiros Epstein", o maior escândalo de pedofilia de sempre e onde o seu nome é dos mais citados, e ainda, por fim, porque a sua saúde mental se deteriorou a ponto de não estar em condições de exercer o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América.

Trunfo na manga

E para evitar que este cenário se torne realidade, o Presidente Trump tem um trunfo na manga que funcionou com todos os seus antecessores: estar em condição de guerra. E para isso o Irão serve na perfeição, até porque toda a imprensa, mesmo a que dele não gosta, ainda gosta menos do Irão.

Precisamente na mesma condição está o primeiro-ministro de Israel, o maior aliado em todo o mundo dos EUA, onde Benjamin Netanyahu sabe que lhe basta pedir para Trump cumprir, graças ao poderoso lobby judeu em Washington, e a quem a guerra é a ferramenta mais eficaz para se manter no poder.

Desde logo porque se, como vários analistas, incluindo Robert Pappe, da Universidade de Chicago, admitem, este conflito já tem tantos interesses a ele ligados que se está na condição de "armadilha da escalada", ou seja, a única saída é para a frente, para a intensificação da guerra.

E Netanyahu percebe este momento e vai tirar o máximo proveito dele, porque, como alguns analistas apontam, a acontecer antes de 27 de Outubro, como tudo aponta (explicação linhas mais abaixo), as eleições legislativas podem ser adiadas sine die, como lhe convém, até porque, ainda mais que Trump, tem à sua espera vários casos em tribunal, onde responderá por crimes de corrupção graves assim que deixar o poder, e as sondagens é esse caminho que mostram.

A expressão cunhada pelo especialista em assuntos internacionais e professor da Universidade de Chicago, Robert Pappe, começa a ganhar dimensão de oráculo no conflito que opõe os EUA ao Irão porque é claramente numa "armadilha de escalada" em que se está.

E os meios militares dos EUA na região apenas confirmam esta antecâmara de uma escalada de dimensões imprevisíveis, até porque desde a Guerra do Golfo, em 2003, que o Pentagono não tinha três esquadras de porta-aviões na região do Médio Oriente; o USS George Washington, o USS George H.W. Bush e o USS Theodore Roosevelt.

Cada um destes grupos é composto por até dez navios de guerra, incluindo submarinos, além de que os EUA deslocaram para a região pelo menos três grupos de ataque anfíbio, com mais de 2 mil marines a bordo de cada um destes navios, estando ainda a reforçar visivelmente o número de aviões de guerra, aviões-tanque, baterias anti-aéreas, especialmente na Jordânia e em Israel.

Isto, porque as suas bases militares, cerca de uma dezena, nos países do Golfo Pérsico, incluindo a Arábia Saudita, o Kuwait, Emiratos e o Bahrein, a maior delas todas, no Catar, foram destruídas, parcial ou totalmente, pelo Irão nas várias fases mais acesas desta guerra, que se prepara para ser novamente colocada em "on" pela Administração Trump.

Face a este cenário, ao qual o Irão tem vindo a reagir, sempre mostrando vontade de encontrar uma saída negociada mas com avisos claros de que está preparado para a guerra como nunca, caso seja esse o desfecho, ameaçando mesmo destruir toda a infra-estrutura energética dos petroEstados do Golfo Pérsico, gerando uma crise energética global de dimensão nunca vista.

"Escalation Trap"

Segundo Robert Pappe, numa explicação recente no podcast de Mario Nwafal, a "armadilha da escalada" está já em prática e consiste em analisar os factos no terreno e será preciso, agora ao contrário, acontecer algo de inusitado para que o pior cenário não ocorra.

Para esta "contabilidade", Robert Pappe aponta a chegada para os próximos dias do 3º porta-aviões, o Thodore Roosevelt, o facto de as reservas estratégicas de petróleo nos EUA estarem em níveis recorde em baixa, tendo caído nestes seis meses de mais de 450 milhões de barris para apenas 283 milhões, e o Irão com a inflação a poder descer abaixo de 100%.

Com este cenário, ao qual Jacques Baud, outro especialista com créditos firmados na região, antigo coronel da intelligentsia suíça e das NATO, cola o facto de nunca os EUA terem mantido tantos meios militares numa geografia sem ter avançado mesmo para a guerra, Robert Pappe aponta que tanto os EUA têm "todos os motivos" para cair na "armadilha de escalada" como o Irão, optando por atacar de forma preemptiva.

Sabendo que os EUA têm tudo para estar em fase de pré-ataque, no terreno e no interesse "eleitoral" para Trump carregar no botão vermelho, o Irão, estando ciente da capacidade do "inimigo" ter capacidade para, num primeiro ataque, provocar danos gigantescos na sua capacidade militar, pode ver-se numa situação de ataque preemptivo inevitável do ponto de vista estratégico-militar.

Considerando que os ataques aéreos, como já foi tentado antes com intensidade rara, produzem efeitos mas não a ponto de definir o fim da guerra a favor dos EUA e de Israel, que se deverá, agora, voltar a juntar ao aliado norte-americano nesta operação, desta feita os grupos anfíbios presentes, com perto de 10 mil militares a bordo, deverão ser usados.

Provavelmente enviados para ocupar algumas das ilhas iranianas no Golfo Pérsico, desde logo Kharg, pela sua relevância na economia iraniana por de onde sai quase toda a sua produção de crude via marítima, e Qeshem, por causa da sua localização estratégica na embocadura do Estreito de Ormuz.

Como nas várias guerras onde os EUA se envolveram na região do Médio Oriente e Oeste da Ásia, desde logo o Iraque, o Afeganistão, a Síria ou o Iémen, todos sabiam como estavam a começar, mas ninguém soube apontar como acabariam, porque algumas delas só terminaram décadas depois e em condições humilhantes, como a do Afeganistão, com a retirada caótica em 2021.

Porém, ao contrário das guerras anteriores, o Irão conta agora com aliados poderosos, como a China e a Rússia (ver links em baixo), o que permite a Teerão encarar um conflito de larga escala com mais conforto, apesar da brutalidade da guerra sobre os povos envolvidos nela.

Putin entra em cena

Para tentar encontrar uma solução, embora seja difícil de perceber se tanto Moscovo como Pequim querem mesmo, na perspectiva estratégica, resolver este imbróglio para os EUA ou não, o Presidente russo ofereceu-se de novo para ajudar o Irão a sair bem neste conflito.

China e Rússia possuem interesses estratégicos evidentes nesta guerra entre EUA e Irão, visto que Washington, enquanto estiver atolado nele, mantém-se afastado do campo de batalha da Ucrânia e Pequim não se esquece dos ficheiros do Pentagono que antecipam uma guerra EUA/China até 20230.

A oferta de Putin ao Irão aconteceu esta quinta-feira, 08, quando se encontrou com o homólogo iraniano, Masoud Pezeshkian, antes de uma cimeira regional no Turquemenistão, onde reafirmou o apoio de Moscovo ao fim à guerra no Médio Oriente, informaram as agências noticiosas da Rússia.

"Estamos prontos para fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para contribuir para a resolução desta situação", declarou Putin, acrescentando que o Irão está a fazer "esforços genuínos para pôr fim ao conflito", iniciado em 28 de fevereiro com uma ofensiva israelo-americana contra a República Islâmica.

O Kremlin tinha anunciado que o encontro entre Putin e Pezeshkian se realizaria na sexta-feira, após a reunião dos líderes da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), mas os dois dirigentes decidiram antecipar a reunião para esta quinta-feira.

O líder do Kremlin saudou o "desenvolvimento positivo" nas relações entre a Rússia e o Irão, que fortaleceram os seus laços diplomáticos e militares desde a invasão russa na Ucrânia, em fevereiro de 2022.

O Presidente russo pediu ainda a Pezeshkian que transmitisse "os seus melhores cumprimentos" ao líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, filho do antigo guia, Ali Khamenei, que foi morto num bombardeamento em Teerão no primeiro dia de guerra.

Putin tem condenado repetidamente o assassínio de Ali Khamenei como "um erro tremendo", e também do antigo conselheiro de Segurança Nacional do Irão Ali Larijani, descrevendo-o como alguém que era capaz de chegar a acordos.

Mojtaba Khamenei, por sua vez, não é visto em público desde a morte do pai e as suas declarações à nação têm sido lidas na televisão estatal por apresentadores.

Durante o encontro com Pezeshkian, Vladimir Putin destacou que o comércio entre a Rússia e o Irão, apesar das sanções ocidentais, aumentou 21% em 2025, uma tendência que se manteve nos primeiros sete meses deste ano.

Os presidentes russo e iraniano já se tinham encontrado em setembro, numa cimeira no Quirguistão, e anteriormente no Turquemenistão, em dezembro de 2025.