Isto, numa altura em que se está à espera de perceber com clareza se os EUA vão ou não atacar o Irão, porque, se Donald Trump parece estar verbalmente a recuar nessa intenção, os norte-americanos estão a juntar uma considerável força naval nos mares da região.
Este alerta de Putin surge num contexto global em que, entre outras crises, os EUA atacaram a Venezuela, ameaçam anexar a Gronelândia, ilha gigante no Ártico que pertence à Dinamarca, um aliado dos EUA na NATO, e têm o Irão na mira e sob ameaça.
Para o Presidente russo, que saiu do silêncio prolongado de quase 15 dias, situação estranha e geradora de rumores e dúvidas, mas não original, este quadro global, a que se junta ainda o conflito na Ucrânia, é especial porque não apenas tem a "arder" casos antigos, como está a gerar novos focos de tensão e perigosos ambientes do ponto de vista militar.
As advertências de Vladimir Putin surgem, curiosamente quando parece estar a acontecer uma mudança estratégica na Europa Ocidental sobre a Federação Russa, como o demonstra o momento em que falou, no Kremlin.
Momento esse que foi a apresentação de cartas credenciais de novos embaixadores de 30 países, incluindo vários vistos como "não-amigos" por Moscovo, nomeadamente da França, do Reino Unido, da Suécia, da Noruega, da Suécia, da Finlândia, da Itália ou ainda de Portugal.
E também depois de em Berlim, o chanceler alemão, Friedrich Merz, um dos falcões que pugnam por uma guerra com a Rússia há anos, ter vindo defender que a Alemanha não pode deixar de falar com um país que é "o seu maior vizinho europeu".
E ainda depois de o francês Emmanuel Macron ter dito que pretende retomar o diálogo com o russo, ou também a União Europeia, através de uma porta-voz, ter afirmado que "a partir de um determinado momento" vai ser preciso falar com Vladimir Putin.
Que disse aos 30 futuros embaixadores na Rússia que a cooperação, um ponto que Putin sempre manteve à tona, mesmo durante o conflito ucraniano, que a os desafios globais só podem ser ultrapassados "através da cooperação", elemento decisivo para "o desenvolvimento e prosperidade de toda a Humanidade".
"A paz não aparece do nada, nem anda sozinha, é erguida com esforço diário. A Paz exige esforço, responsabilidade e escolhas conscientes (...) especialmente agora, quando a situação internacional se está a deteriorar de forma acelerada, com velhos conflitos a intensificarem-se e novos pontos flamejantes estão a surgir", disse, citado pela RT.
No mesmo discurso, que ganhou ainda mais relevância por surgir ao fim de duas semanas de silêncio, Putin lembrou que "no mundo moderno, a diplomacia e os consensos estão a ser substituídos pelas decisões unilaterais (referência aos EUA de Donald Trump) e decisões e acções perigosas".~
"Muitos países estão a sofrer com violações sistemáticas da sua soberania (que é uma acusação de que a Rússia é alvo, no caso da Ucrânia, pelo Ocidente) sob o `dictat' de que o mais forte faz a regra, sob cenários de caos e ausência de lei, sem capacidade de reacção (caso da Venezuela)", acrescentou.
E apelou ainda a uma clara mudança de alinhamento global para uma nova ordem mundial "mais justa e multipolar", uma crítica às actual ordem mundial baseada nas regras ocidentais que garantem a hegemonia dos EUA e dos seus aliados mais próximos, sendo um objectivo que perfilha com o Presidente chinês, Xi Jinping, e também como o indiano Narendra Modi ou o brasileiro Lula da Silva, integrantes dos BRICS.
Aproveitando para enviar um recado a Donald Trump e aos líderes da Europa Ocidental, aludindo ao caso da Ucrânia, que diz que é resultado de esses mesmos países, que se sentam sobre as vantagens da hegemonia norte-americana, terem "ignorado os legítimos interesses da Rússia".
Isso aconteceu, sublinhou, ao promoverem o avanço da NATO para leste, em direcção à fronteira da Federação Russa, contrariamente ao que fora prometido a Moscovo no passado, nomeadamente aquando da implosão da então URSS, no início da década de 1990.
Todavia, esse cenário parece estar agora a mudar, com os europeus, especialmente os que mais pugnaram pela destruição da Rússia através do conflito ucraniano, como a Alemanha ou a França, ou ainda a liderança da União Europeia, claramente a ganhar consciência da situação.
Especialmente a tragédia para economia do bloco europeu que foi o corte das relações com os russos através das dezenas de pacotes de sanções, especialmente sobre a energia russa que até 2022, começo da invasão russa à Ucrânia, motorizava a economia europeia a preços baixos e contantes.
O chanceler alemão disse mesmo num discurso público esta semana que o reatar do diálogo com Moscovo é garantia de que a Europa ocidental poderá voltar a olhar com confiança para além de 2026.
"Se tivermos sucesso, na perspectiva longa, em encontrar um equilíbrio de novo com a Rússia, se houver paz na Ucrânia, então poderemos olhar de novo com grande confiança para lá deste ano de 2026", disse Friedrich Merz, num gigantesco movimento de distanciamento da retórica anti-Rússia que marcou as suas intervenções até aqui.
O Kremlin também já mostrou satisfação com este flip-flop dos europeus, com o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, a vir dizer que, como sempre, o Presidente russo "está aberto ao diálogo", embora essa frase tenha sido proferida depois do francês Emmanuel Macron ter voltado a dizer que quer falar com o líder russo, no que foi acompanhado pela primeira-ministra italiana Giorgia Meloni.
Claramente contra esta mudança de alinhamento europeu face a Moscovo está o Reino Unido, que, através da sua ministra dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper, defendeu que franceses e italianos e alemães, ao invés de quererem falar com Putin, devem antes "armar o mais possível os ucranianos" para derrotarem a Rússia.
Numa entrevista ao site Politico, a chefe da diplomacia de Londres explicou que não detecta "quaisquer sinais em Putin sobre este querer a paz", apontando, no lugar do diálogo com o Kremlin, que "a Europa deve promover o aumento da pressão" sobre a Rússia.
Yvette Cooper quer ainda mais sanções económicas sobre Moscovo ao mesmo tempo que investe mais no envio de armas para Kiev de forma a permitir maior pressão militar sobre os russos".
Este posicionamento de Londres é o esperado porquanto são os britânicos, juntamente com Ursula von Leyen, quem mais expõe a vontade de levar a Rússia a uma derrota no campo de batalha, promovendo mesmo a "humilhação de Moscovo", mesmo quando no campo de batalha é precisamente o contrário que está a acontecer (ver aqui) com os ucranianos á beira de sucumbir aos avanços russos.











