Sendo verdade que o Kremlin sempre disse estar disponível para negociar com Kiev, desta feita, apesar de ainda não ser claro, poderá aceitar um encontro trilateral - Putin-Trump-Zelensky - aliviando as condições até aqui conhecidas, que era o ucraniano ir a Moscovo.
Conseguir esse feito extraordinário poderia dar a Donald Trump um impulso importante na fase final da campanha eleitoral para as eleições intercalares de 03 de Novembro, onde as sondagens mostram um cenário sombrio pela frente do seu Partido Republicano.
Mas Vladimir Putin, que, pelo menos em público, mostra tanta ou mais admiração por Donald Trump que aquela que o norte-americano não esconde por ele, parece estar a querer estragar os planos a "São Trump" porque, embora não recuse o encontro, segundo os media russos, o chefe do Kremlin só tem agenda para isso entre 10 e 20 de Novembro.
Não parece muito tempo, é até um espaço curto para encontrar um "buraco" na agenda de um Presidente da Rússia, mas há apenas um problema: com essas datas, Donald Trump não pode materializar o seu "milagre" eleitoral de juntar Putin e Zelensky antes de 03 de Novembro.
Apesar disso, o site do canal russo RT em inglês destaca nesta quinta-feira, 22, que o Kremlin está pronto para reatar os encontros a três com a Ucrânia e os Estados Unidos para discutir o que é preciso fazer acontecer para que a guerra termine.
Esta confirmação foi dada por Yury Ushakov, o conselheiro de Putun para as relações com Washington, que participou no encontro, em São Petersburgo, com Steve Witkoff, o enviado especial de Trump, que já tinha estado, horas antes, com Zelensky, e com os seus aliados europeus, na Noruega.
Nesse encontro, apontou ainda Ushakov, ucranianos, russos e norte-americanos terão ainda de discutir como tópico prioritário a questão da segurança comum num cenário pós-conflito entre Rússia e Ucrânia.
Este ponto coloca claramente Moscovo na posição de quem dá as cartas, porque não é possível discutir qualquer cenário pós-conflito sem passar pela questão da NATO e da neutralidade de Kiev, que são pontos do top 5 das condições russas.
Esta evolução positiva, sob a batuta de Donald Trump, acontece num momento em que a Federação Russa não avança apenas na frente de batalha de forma mais decidida que nunca, embora ainda distante de conquistar todo o Donbass, e quando a Ucrânia está com os paióis vazios de mísseis interceptores Patriot PAC 2 e 3, contra a capacidade balística russa.
Sem defesa anti-aérea, a Ucrãnia tem sido fustigada com ataques de drones e mísseis russos a um ritmo diário, com alvos bem definidos, que é toda a sua infra-estrutura energética e logística, embora Kiev não tenha baixado os braços e os seus drones voam diariamente ás centenas em direcção ao interior russo, visando especialmente as suas refinarias e locais de armazenamento de combustíveis.
Apesar desse sucesso ucraniano, com a Rússia a mostrar-se incapaz de lidar com a chuva de drones adversários, a questão é que esse sucesso pode ser aquilo que está a deitar tudo a perder para Kiev.
Isso acontece assim porque, ao afectar a capacidade de refinação e armazenamento russa, os ucranianos estão a estragar o negócio entre EUA e Rússia para a "venda" de milhares de toneladas de gasóleo russo para o mercado norte-americano, que é um elemento visto como estratégico por Trump neste momento eleitoral para as eleições intercalares de 03 de Novembro.
Isso, porque, como todas as sondagens apontam, a questão do preço dos combustíveis é um dos factores determinantes para a decisão de voto entre a base eleitoral do Partido Republicano mais próxima de Trump, e entre o eleitorado flutuante ou mesmo Democrata das geografias mais ruralizadas.
Entretanto, apesar deste momento importante para Donald Trump e para o desfecho do conflito no leste europeu, tanto Moscovo como Kiev não pararam um instante de premir o gatilho, uma das razões que levou o Presidente norte-americano a surgir com uma sucessão de declarações críticas contra Zelensky.
E uma delas foi que os ucranianos "deviam mudar de Presidente", outra foi que "Zelensky tem de realizar eleições", cujo atraso remonta a Maio de 2024, ou ainda que o Presidente ucraniano "nunca pretendeu verdadeiramente acabar com o conflito" ou "negociar a paz".
Apesar de estar a atirar o "milagre" de Trump para depois das eleições intercalares, o que pode desmotivar o americano, Putin não o deixou sem uma "prenda" eleitoral que pode ser relevante.
Vladimir Putin mandou libertar Stephen Hubbard, um antigo elemento da Marinha dos EUA e professor aposentado, de 74 anos, após mais de quatro anos de prisão na Rússia por ter sido apanhado, como prisioneiro de guerra, na frente, ao lado das forças ucranianas.
Não é bem o que Trump queria, que era aparecer na fotografia com Putin e Zelensky a falar de paz na Ucrânia, mas permitiu-lhe vir a terreiro dizer que conseguiu do Presidente russo aquilo que nunca outro Presidente americano conseguiu, que foi "libertar um americano de uma cadeia russa sem qualquer espécie de troca".










