"É uma decisão fraca". Foi assim que Volodymyr Zelensky apelidou a decisão do Presidente dos EUA depois deste ter anunciado, neste fim-de-semana, que tinha chegado a um acordo com o Presidente russo, Vladimir Putin, para que a Rússia forneça 300 mil toneladas de gasóleo ao mercado norte-americano e global.

Perante uma crise mundial de escassez de gasóleo, gasolina e jet fuel para a aviação, os principais refinados do petróleo bruto, e com as eleições à porta, num país onde o preço dos combustíveis impacta mais na decisão dos eleitores que o preço do pão, Donald Trump não teve dúvidas e foi falar com o "amigo" Vladimir Putin sobre isso.

O resultado foi conhecido logo após esta conversa, porque Donald Trump anunciou o acordo com o "amigo" americano, no qual a Rússia vai libertar nos próximos tempos 300 mil toneladas de gasóleo, ou 2,3 milhões de barris de produto refinado, deixando o "amigo" ucraniano muito incomodado.

E Volodymyr Zelensky ficou de tal modo furioso com Donald Trump que o acusou de estar a "ajudar Putin a matar" ucranianos e a financiar a guerra contra a Ucrânia, o que faz do norte-americano um "Presidente fraco".

Zelensky pode ter usado o único adjectivo que Trump nunca será capaz de digerir, porque todo o seu plano de afirmação política passa por aparecer perante os norte-americanos e perante o mundo como um Presidente "forte" e o seu "amigo" ucraniano teve a desfaçatez de o chamar "fraco" perante o mundo, com grande repercussão nos media norte-americanos.

E ao olhar esta segunda-feira, 12, para os jornais norte-americanos é fácil perceber que Donald Trump ficou verdadeiramente "furioso" com Volodymyr Zelensky, a ponto de o Axios, um dos media com melhores "acessos" à Casa Branca, ter noticiado que o Presidente dos EUA está a ponderar cortar quase todos os apoios, inclui9ndo armas e intelligentsia, à Ucrânia.

E o mote para esta revelação nem sequer foi Zelensky ter chamado "fraco" a Trump, embora isso pese sobremaneira, foi Kiev manter os ataques com drones às refinarias russas após a Casa Branca lhe ter pedido directamente para não o fazer porque isso estava a agravar a crise global e norte-americana de combustíveis.

Além disso, os ataques ucranianos com drones à infra-estrutura energética russa continuou mesmo após Trump ter firmado o acordo das 300 mil toneladas de gasóleo com Vladimir Putin.

Mas, mais relevante neste momento histórico que pode vir a ficar na memória global como a antecâmara do corte de relações entre Trump e Zelensky, foi o norte-americano ter vindo dizer em Público que "é hora de a Ucrânia ter um novo Presidente" que tenha as qualidades para "chegar a um acordo com a Rússia" para acabar com a guerra.

O Presidente ucraniano sentiu este "toque" com o peso das palavras do mais importante aliado no conflito com a Rússia, porque sem o apoio dos EUA, a sua intelligentsia e armas, e perante as fragilidades dos europeus, cujo apoio pouco mais é que financeiro e diplomático, a guerra estaria perdida há muito tempo.

E logo a seguir anunciou a sua disponibilidade para realizar eleições, que estão em atraso desde Maio de 2024, sendo proteladas ao abrigo da Lei Marcial em vigor desde Fevereiro de 2022, mas para as realizar apresentou como condição a mesma que já tinha usado por três vezes desde 2024: um cessar-fogo de 60 dias para que a votação ocorra sem entraves.

E eis que Donald Trump surgiu, já este Domingo, 11, a anunciar um cessar-fogo parcial entre russos e ucranianos sobre os respectivos sectores energéticos, aparentemente porque Kiev e Moscovo compreenderam que esse passo é de extrema relevância para suprimir a crise global de combustíveis que está a prejudicar o mundo inteiro.

Naturalmente que Donald Trump procura este cessar-fogo parcial porque está em vésperas de eleições intercalares onde a inflação e os preços em máximos históricos de gasóleo e gasolina são o mais robusto factor que contribui para as sondagens extremamente negativas para o seu Partido Republicano.

As eleições de 03 de Novembro, segundo a maioria das sondagens, vão tirar a maioria absoluta dos Republicanos na Câmara dos Representantes e pode, com elevado grau de certeza, acontecer o mesmo no Senado, o que deixaria a oposição Democrata com a maioria nas duas câmaras do Congresso.

E esse seria, e provavelmente será, se não acontecer um "milagre", o cenário após estas eleições intercalares, no qual Donald Trump já sabe que o Partido Democrata lhe vai abrir pelo menos três processos de destituição (impeachment).

Um por ter ido para a guerra com o Irão sem informar o Congresso, outro por ter prometido abrir ao público os "Ficheiros Epstein", o maior escândalo de pedofilia mundial de sempre, onde o seu nome é dos mais citados nas suas milhares de folhas, e, por fim, um terceiro por haver, segundo a oposição, indícios de que Trump está a perder capacidades cognitivas a ponto de não ter condições para Governar.

Ora, perante este cenário de terror pós-eleitoral para Donald Trump, que este sabe que a única possibilidade que tem de reduzir danos é baixar já o preço dos combustíveis, em que prato da balança ficam Zelensky, que quer afastar os EUA da Rússia, e Putin, que tem na mão a eventual solução para evitar o terramoto eleitoral Republicano em Novembro?

A questão é meramente retórica, porque já se sabe que Donald Trump escolheu Putin, aprovou o acordo dos combustíveis com Moscovo, exigiu um novo Presidente na Ucrânia, coisa que Elon Musk, o multimilionário da Tesla, já veio dizer que concorda com ele, e ameaça agora cortar os apoios militar e em intelligentsia a Kiev, o que será, a acontecer, a derrocada ucraniana na frente de batalha.

E não se fica por aqui. Segundo o Financial Times, um dos jornais mais empenhados na defesa de Kiev, nas últimas 48 horas um grupo de diplomatas seniores dos EUA estiveram ao telefone com líderes europeus, incluindo ucranianos, a informar que além de cortar o apoio directo em armas e informações, também o mecanismo que permite facilidades para venda de armas dos EUA a países europeus (PURL, na sigla em inglês) que são, depois, entregues a Kiev.

De Kiev, segundo os media ucranianos, chega a reacção a estas notícias, negando que esse tipo de ameaças dos EUA existam neste formato, mas alguns media sublinham que Washington e Kiev têm comunicação permanente onde a questão do efeito do impacto dos ataques ucranianos à indústria energética russa, na economia global, é analisado.

Este conjunto frenético de notícias que surgiram nestas últimas 48 horas está, contudo, incompleto, porque em Kiev Volodymyr Zelensky veio dizer que desconhecia o acordo anunciado por Donald Trump e em Moscovo o Kremlin nem sequer se pronunciou.

Até agora, mais de 24 horas após o anúncio do acordo entre Kiev e Moscovo quem nem russos nem ucranianos admitem ter ocorrido, não se sabe o que levou Trump a anunciá-lo e que tipo de conversas e com quem terá falado sobre esse "acordo".

Mas sabe-se que nem a Ucrânia nem a Federação Russa começaram a cumprir esse hipotético acordo, porque tanto os misseis e drones russos como os drones ucranianos continuaram a atingir infra-estruturas energéticas num e noutro lado da fronteira.

Neste caldo em fusão de notícias e informações de difícil confirmação, desde logo ao acordo Kiev-Moscovo quanto aos ataques às refinarias, ou a importância relativa, mas até que ponto relativa, do fornecimento das 300 mil toneladas de gasóleo russo ao mundo, porque é a quantidade que os EUA gastam em menos de 5 dias... a única certeza é que entre Zelensky e Putin, pelo menos até às eleições de Novembro nos EUA, a Casa Branca acolherá melhor o russo que o ucraniano.